Comunique-se: Disse Que Disse na Rede das Redes

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Comunique-se demostra o jornalismo de Ctl-C, Ctl-V com a matéria «Folha encara campanha #DilmaFactsByFolha com naturalidade»:

A Folha de S. Paulo considera natural a campanha que colocou seu nome e o da candidata à Presidência da República, Dilma Rousseff (PT), no topo do Trending Topics, como um dos assuntos mais comentados no Twitter. A campanha crítica #DilmaFactsByFolha questionava a imparcialidade do jornal no tratamento dado à candidata e foi destaque na segunda-feira (6/9).

Após dizer que a Folha enxerga com naturalidade a campanha, cita o release no qual a Folha se disse enxergar com naturalidade a campanha. Coroĺário: a jornalista endossa a verdade do que o release está dizendo.

“A Folha encara com normalidade a popularidade da hashtag #DilmaFactsbyFolha, ocorrida em 5/9/2010, quando publicou a reportagem ‘Consumidor de luz pagou R$ 1 bi por falha de Dilma’. Entre os princípios editoriais da Folha está o jornalismo crítico, pluralista e apartidário.

«Entre os princípios»? Eu quero a lista completa para ver se não haverá caveats e exceções.

Na prática, os princípios são outros.

Reportagens críticas naturalmente despertam reação, especialmente em período eleitoral e entre os militantes dos candidatos. Além disso, o uso do humor é uma das características das mídias sociais, o que faz com que a expressão tenha sido naturalmente utilizada por internautas de diferentes tendências”, dizia o comunicado.

Não são precisos quatro anos no Cásper Líbero para reconhecer a falta de mais-valia, de valor agregado, nessa matéria assinada por Izabela Vasconcelos.

A manchete é pautada pelo release, o «lead» é pautado pelo release, e para comprovar o factóide, o «release» é simplesmente colado.

O atitude do jornal é louvável, e o registro dele absolutamente necessário ao entendimento do debate.

Mas colando um release sob a assinatura de uma jornalista — segundo sua carteira de trabalho —  não transforma publicidade pura em nóticia sobre o mundo de publicidade.

A afirmação de que o humor seria característica das mídias sociais é completamente vazia —  afirma apenas o fato antropológico de que o humor é algo que seres humanos praticam entre si — e a fama do «#DilmaFactsbyFolha» é completamente efémera.

A tendência brasileira de Twitter mais tendenciosa no momento é Saudações Tricolores, seguida por Portnoy, Dream Theater, e Abs — referência a métodos para conseguir «abodminais de tanque», eu presumo

O Twitter recomenda que eu acompanhe o MPF de Amapá e o «quero ser governador», Mercadante.

Se não fosse o boletim de Comunique-se, requentando algo do fim de semana passada, eu nem ficava sabendo da molecagem.

Uma busca não encontra o tema #DilmaFactsbyFolha, apenas uma conta chamada de DilmaFacts.

Não confirmamos que a tendência realmente existiu num primeiro momento.

Ah, aqui ô: retuitando e clicando no laço, encontro o fato da Dilma ter sido a idealizadora da vuvuzela e mandante do assassinato de Trotsky.

O blog Óleo do Diabo, assinado por Miguel Rosário, tem os «meus preferidos» da campanha.

Acontece que são os tuites dele mesmo, é natural!

Miguel é blogueiro profissional — boa sorte com isso! — com serviço «premium» pago e clipping próprio:

DEU NA FOLHA DE S. PAULO

Coligação de Serra acusa PT de ter simulado roubo em comitê de Mauá para apagar provas

Mas eu quero saber do quem e como dessa história.

A uma reportagem sobre golpes-mestres de publicidade não podem lhe-faltar o como do e quem do fato!

Na minha experiência — que vem desde o primeiro «flashmob» em Nova York, antes do estouro da boiada da Internet — a «naturalidade« raramente é a característica mais saliente de campanhas que visam alcançar a lista de tendências mais tendenciosas.

Diz quanto foi
Foi 500 reais

Minha regra: presuma o profissionalismo da campanha até haver provas do contrário.

Recibo hoje, por exemplo — eu assino os boletins de Serra, Dilma, César Maia, Brasil Confidencial, tudo que é marketing político — uma mensagem não-solicitada que o cliente de correio eletrônico acha um golpe.

Infelizmente, não tenho tempo para bancar o detetive.

Tenho um projeto hoje, no qual eu assisto monte de teleconferências de empresas, cruzando os pronuniciamentos dos executivos sobre estratégia e planos — os famosos e temidos «forward-looking statements» — com o que temos sobre o comportamento e estado financeiro da empresa em nosso banco de dados.

Como é que a empresa  vai entrar em novos mercados com uma razão dívida-EBITDA de 4x, por exemplo?

Botando os fatos oficiais em contexto assim, você produz algo pelo qual o freguês pagará.

Nas palavras do blog Footnoted, que enfoca com exclusividade os relatórios arquivados pelas empresas com a CVM de lá, A SEC, «Nós fazemos a leitura chata para você não ter que fazer!».

Eu prefiro ler os releases sobre minha área de interesse — a tecnologia de redes de transações financeiras — sozinho, no Bob’s Guide, por exemplo, ou Exchange News (Mondo Visione): A CVM multa o Goldman Sachs International por falhas na fiscalização de um instrumento financeiro exótico:

This resulted in a failure to notify the FSA of matters relating to the United States Securities and Exchange Commission (SEC) investigation into the Abacus 2007-AC1 synthetic collateralised debt obligation (Abacus).

Hein? Por «CDO sintético» leia-se «massa falida de hipotecas podres».

Hoje em dia, a agregação eficiente dos releases é algo que pode ser deixado para um algoritmo, e gerenciado com um leitor de fluxos RSS — livrando a senhorita Vasconcelos para agregar valor jornalístico ao seu conteúdo.