Números e Emoções: Um Caso Trivial do Efeito «Médio-Miedo»

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Deu no Globo:

RIO: 2.409 CRIMES ELEITORAIS | Portal ClippingMP

Tenha medo.

Tenha muito medo.

O Globo, com manchete CÉSAR MAIúsculA da última sexta, fornece um caso quase infantil do abuso do metódo estatístico.

Relatório da Polícia Federal entregue ao presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Ricardo Lewandowski, revela um quadro preocupante sobre tentativas de fraudes eleitorais nas duas últimas eleições no país.

O apelo emocional, pórem — marca registrada do jornalismo Global desde o começo — fica fundamentado em dados que não permitem conclusões, como o próprio jornal logo revelará.

Pelo levantamento, a Polícia Federal abriu 20.178 inquéritos para apurar denúncias de compra de voto, transporte ilegal de eleitores e promessas de vantagens pessoais, entre outros crimes nas eleições de 2006 e de 2008. As investigações já resultaram no indiciamento de 5.508 pessoas.

E as condenações?

Em 2008, PF instaurou 13.909 inquéritos Em 2006, o TSE comandou as eleições para presidente da República, deputados federais, estaduais, senadores e governadores nos estados e do Distrito Federal. A PF instaurou 6.269 inquéritos.

Em 2008, foram realizadas eleições para prefeitos e vereadores.

O número de inquéritos subiu para 13.909.

Mas, para a PF, ainda não é possível deduzir se está havendo aumento de crimes eleitorais.

As eleições são diferentes e esta é a primeira vez em que a polícia faz um levantamento desta natureza.

Nós deveriamos preocupar-nos, portanto, com uma tendência de um ponto de dado só.

A MÍDia — sigla de medo, incerteza e dúvidas, ou seja,a famosa estratégia FUD da IBM — é a massagem crua de dados estatísticos.

No mapa da polícia, o Rio de Janeiro é o estado em que os candidatos mais são investigados por descumprimento da Lei Eleitoral. Ao todo, foram abertos no estado 2.409 inquéritos para investigar o envolvimento de candidatos e cabos eleitorais com tentativas de burlar a legislação.

Em segundo lugar na lista está Minas Gerais, com 1.933 inquéritos. São Paulo, embora tenha o maior colégio eleitoral, aparece em terceira posição com 1.547 investigações.

Qual a razão dessa desproporção aparente?

Em quarto lugar, aparece o Rio Grande do Norte, um dos menores colégios eleitorais do país, com 1.529 inquéritos.

O único dado oferecido aqui como representando um motivo de preocupação é o crescimento na abertura de inquéritos desde 2006, de 6,2 mil naquele ano aos 20 mil do ano presente.

Este representaria CAGR — taxa cumulativa de crescimento — de 100% de dois em dois anos!

A tendência é do número de inquéritos eletorais dobrar-se de dois em dois  anos!

A curva de crescimento é exponencial!

Este, porém, não passo de uma conclusão estatística encima de dois dados só — CAGR 2006-2008 e CAGR 2008-2010.

No mínimo, nem dá para começar falando de tendências até conseguir o terceiro dado, ou seja, CAGR 2010-12.

Até como essa figura na mão, qual seria o crescimento em termos da porcentagem de candidaturas sujeitas a um inquérito federal?

Se o número total de candidaturas fosse, digamos, 100 mil, seria um aumento dos 7% aos 20%.

Segundo o projeto Eleitor2010, porém, o número de candidataturas … bem, o projeto de USAID e a faculdade de direito de Harvard não fornece este contexto.

Não é para estranhar-se. O jornalismo-cidadão segundo eles não é responsável.

A equipe do Eleitor 2010 não aceita responsabilidade pela validade ou validação dos relatos publicados neste site.

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Entretanto, segundo o TSE — uma fonte que assume responsibilidade pela validação e precisão das estatísticas e monta seu próprio site Eleições2010, com mapeamento bacana próprio de dados — o número de candidatos é mais para os 25 mil e 30 mil em todo o seu País.

Tenho preguiça de fazer a soma.

No Rio, entre válidas e impedidas, há umas 2 mil candidaturas, enquanto do São Paulo, 3,3 mil, segundo o TSE.

Ou seja, a taxa de inquéritos por candidatura fica no 100% no Rio e 50% do São Paulo — contra, digamos — 70% nacionalmente.

A taxa nacional de indicações, entretanto, seria o avesso disso — uns 30%, ou uma entre cada 3 ou 4 candidaturas.

No RN, fica em quase 5 inquéritos por candidatura, ou 500% — cinco vezes a taxa no Rio e 10 vezes a taxa no  São Paulo.

A taxa de condenações — a medida mais importante de eficiência — não é disponbilizada, pelo menos pelo jornalismo global.

Não estou achando o relatório em questão no site da PF. No site do TSE?

O Inquérito e o Fato

Ora, e junto com a nova legislação «ficha limpa» de 2010, junto com os efeitos jurídicos da «mini-reforma» de 2006, é realmente para estranhar-se — e preocupar-se — se as denúncias aumentem?

Também houve um estudo divulgado pelo Congresso em Foco em, acho, 2006 mostrando a taxa de processos contra políticos eleitos, por partido, mostrando o PT com uma taxa baixa, o PSDB com uma taxa entre baixa e média, e os DEM e PMDB com números absolutos parecidos mas uma taxa mais alta entre os politicos dos DEM.

Então.

Essa suposta tendência de uma nota só até ser um artefato do aumento de fiscalização, portanto.

Realmente, não pode-se saber nada sem saber os resultados dos inquéritos. Resultam na condenação do réu? Qual as taxas comparativas?

Já ouvimos este samba tantas vezes — segundo o qual, por exemplo, o Brasil virou «mais corrupto» entre  2003 e 2008 porque houve um aumento no número de processos na categoria «corrupção política e crime colarinho branco».

É mais um exemplo do jornalismo de «não pode-se saber exatamente, mas …» — ou como uma articulista do Observatório da Imprensa disse recentemente, «o jornalismo da grande Se» .

Qual é mais preocupante? O crescimento do Estado Policialesco ou o crescimento de crimes eletorais — sobre nenhum dos quais temos números firmes?

E preocupante para quem? Os candidatos, que denunciam uma judicialização da política eleitoral, ou o eleitor?

A nominalização do verbo — «a tendência é preocupante» em vez de «a tendência deveria preocupar X»   — é uma artimanha retórica de calouro.

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