O Gringo de Lula

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Stanley, um embaixador informal de Lula nos EUA — Portal ClippingMP: O Valor hoje entrevista um «advogado de Harvard» que segundo o matutino empresarial vem representando o presidente do Brasil — meio na moita, sugere-se — perante o sindicalismo e o governo nos Estados Unidos.

Uma das perguntas que eu tive com minha investigação de redes políticas Tupi-Norteamericanos era exatamente o quanto havia cooperação internacional entre o CUT, por exemplo, e o AFL-CIO. A federação sindical toma conta do Solidary Center, componente sindical do National Endowment for Democracy (NED) e contrapartido ao componente patronal, o CIPE.

Num primeiro momento, as relações formais pareciam limitadas a pequenos projetos com patrocínio modesto, aquem de $50 mil, do Solidarity — uma campanha contra condições de trabalha análoga com escravidão e outra promovendo a semana de 40 horas — assim como laços comuns como o Global Labour University, montada pelo neotrabalhismo inglês, como pode-se constatar da grafia de «labour».

Esse tal de Stanley Gacek não consta entre lobistas cadastrados no banco de dados de OpenSecrets.org, assim como o Brasil não consta entre os paises que contratam lobistas — que são obrigados a se cadastrarem quando representam um poder soberano.

Além de amizade, os encontros representam um pedaço da relações entre Brasil e os Estados Unidos. Foi Gacek quem ajudou o presidente Lula a atrair investimentos para o Brasil dos ricos fundos de pensão americanos, como o Calpers, da California, alguns anos antes do país ganhar grau de investimento e virar uma estrela dos mercados financeiros.

Bem feito! Calpers é um gigante e tem enorme influência entre investidores institucionais.

Quem, então, é o senhor Gacek? Ele preside a comissão de direito trabalhista internacional da OAB — ABA, nossa OAB — da capital federal e serve como o diretor adjuvante responsável por relações internacionais com América Latina do AFL-CIO.

Ele de fato se formou advogado na Harvard em 1978.

Quando Bill Clinton foi eleito presidente dos Estados Unidos, em 1992, Gacek arranjou o primeiro contato de Lula com o novo governo Democrata, numa audiência com o então subsecretário do Tesouro, Larry Summers, hoje assistente econômico de Barack Obama.

O economista Summers também é o ex-presidente da Harvard, afastado após um escândalo envolvendo afirmações suas sobre a capacidade intelectual supostamente inferior de mulheres.

Provavelmente tinha mas a ver com a atuação da Harvard Management Corporation naquela época — HMC tem uma participação considerável em Gávea Investimentos — e o papel da turma de Harvard na abertura falha da economia russa — uma história cabeluda contada no famoso artigo «Como a Harvard Perdeu a Rússia» na revista Institutional Investor.

Em fins de 2002, parlamentares do Partido Republicano achavam que Lula, recém-eleito, juntaria-se ao “eixo do mal” formado pelos regimes da Venezuela e de Cuba. Gacek procurou o subsecretário do Departamento de Estado para América Latina, Otto Reich, para “ajudar a desfazer os erros de percepção sobre Lula e o PT”, segundo relato do próprio advogado.

Seria Otto Reich que escancaria o uso de propaganda clandestina na “diplomacia pública” da república gringa.

Na famosa carta de Olavo de Carvalho, pedindo esmolas para poder continuar seus bons trabalhos lá no agreste de Virginia, o filósofo de gnosticismo tropical conta como ele fazia contatos entre os neoconservadores de então para convencé-los de que Lula e o Foro de São Paulo representavam uma ameaça vermelha mais perniciosa do que o Internacional Bolshevique.

“O Stanley Gacek foi um embaixador informal do Lula nos Estados Unidos, facilitando encontros, promovendo eventos, desenvolvendo o argumento de que o PT e o movimento sindical da CUT não eram comunistas e que jogariam dentro das regras formais da nova democracia brasileira”, define Matias Spektor, professor de relações internacionais da Fundação Getúlio Vargas, que escreve um livro sobre a transição entre os governos FHC e Lula. Um capítulo inteiro será dedicado a Gacek.

Pode ser um livro interessante. Quanto custa? Os R$100 de sempre de livros acadêmicos?

Numa manhã de maio, Gacek recebeu pela primeira vez a reportagem do Valor na sede da AFL-CIO, a poderosa central sindical americana, da qual ele era diretor internacional (recentemente, ele assumiu um cargo no Departamento de Trabalho do governo Obama). Seu nome havia sido indicado por fontes do Palácio do Planalto como a pessoa certa para ajudar a descobrir como foram construídas as relações entre o presidente Lula e o hoje presidente honorário da AFL-CIO, John Sweeney.

Eu teria preferido uma entrevista ping-pong.

Lula queria iniciar relações com o Partido Democrata, que, um ano antes, em 1992, havia voltado ao poder nos Estados Unidos com a eleição do presidente Bill Clinton. Nos anos seguintes, porém, o PT acabou se aproximando mais do Partido Republicano, tido como menos protecionista que os democratas e, por isso, mais alinhados com os interesses brasileiros.

Ah, sim, mas essa ala «Tea Party» do partido que anda ganhando peso é mais parecido com o partido Republicano dos anos 30 — isolacionista e illiberal no que diz respeito ao comêrcio global.

A leitura de Lula da situação partidária nos EUA mais uma vez comprova que apesar da língua presa e falta de diploma, o presidente do Brasil não é burro, não.

Atrapalhou a relação entre o PT e os democratas o fato de Clinton ter se aproximado do então presidente Fernando Henrique Cardoso. “Lula só teve uma conversa franca com Clinton em 2003, em uma reunião em Davos”, relata Gacek. “Foi uma reunião ótima e, nela, Lula disse que não fazia distinção entre os partidos, e que os republicanos estavam para os democratas assim como a Coca-Cola estava para a Pepsi.”

Exatamente meu sentimento como eleitor rabugento!

O assessor político de Clinton, James Carville, assessorou o FHC em 1994 — informalmente — segundo o relato de um historiador português de marketing político que tenho aqui em algum lugar.

Então: fatos inéditos muito interessantes graças à boa reportagem do Valor.

Apesar de ser filhote do Globo e a Folha, Valor é muito bom, não é? Fomenta uma cultura empresarial racional e compentente.

O «ecossistema digital» do CUT, da Aranhação No. 5, na qual o site do central de trabalhistas serviu de «semente».


Por compartilhar a «plataforma social» — Orkut, Facebook, YouTube, Twitter e tantos outros — com a rede Cato-Atlas-Relial, tem ligações com esta, e sua «vizinhaça» fica dominada pelos orgãos de sempre da política neoconservadora — o Washington Times, por exemplo.

A rede PT, segundo nossa amostra limitada:


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