Erenice: Úrsula Buendia da Inverdade Múltipla

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Caso Erenice tem de ser passado a limpo, reza o editorial do Globo hoje.

Um trabalho sério de apuração poderá servir para delimitar os espaços público e privado, tão misturados neste governo. Como a doença nacional do patrimonialismo chegou a uma fase aguda, passar esta história a limpo servirá de advertência a grupos políticos interessados em subordinar o Estado a seus interesses.

Quem podia discordar? Qualquer denúncia de abuso de poder deve ser apurado.

Junto com

  1. o «mensalão dos DEM»,
  2. a encrenca de Yeda Crusius com seu sargento de milícas,
  3. a história da milícia conhecido como a Liga de Justiça, com o símbolo de Batman utilizado tanto por milicianos como por candidatos bem-sucedidos à Câmara Municipal e a ALERJ no Rio,
  4. o presidente da legislativa estadual de Alagoas que nomeou sua irmã ao Tribunal de Contas no meio da noite, e
  5. as historia dos ACMs I, II, III e Júnior — a não falar nos fecundíssimos Sarneys, que multipliquem-se sobre a terra de maneira postivamente bíbilica,

não faltam exemplos exemplares para municiar campanhas políticas de qualquer afiliação partidária que seja, contra o mal do patrimonialismo.

Pode até ser alegado que Globo, Abril, Folha e Estadão estariam em melhores condições nas mãos de gestores profissionais, comandados por investidores independentes, do que no colo das clãs Marinho, Civita, Frias e Mesquita.

Visto do ângulo histórico, porém, duvido seriamente que daria para apontar uma tendência de piora nessa praga de política como negócio familiar. Vem desde a primeira capitania da Coroa portuguesa.

Ah, e não vamos nos esquecer do lobby feito pela filha de Alckmin, compradora de Daslu, sobre regras de contabilidade! Deu na Folha. O lobido confirmou a reunião publicamente.

Eu, no entanto e portanto, recuso a levar o caso Guerra & Filhos — parece um romance de Dickens — a sério até o fim da investigação oficial — que não deveria ser concluida antes da eleição.

Vamos mudar de assunto. Tem tantos outros assuntos mais interessantes.

Estes escândalos costumam acabar com todo mundo inocentado, aliás. Até os aloprados nada de ilícito fizeram, se bem que o entusiasmo deles na busca de sujeiras dos Vedoin foi realmente desagradável.

A indefinição infinita no caso de Zé Dirceu reforça o velho dito, «justiça adiada é justiça negada».

Mais do que isso, a multiplicação de versões dessa história toda cheira demais da famosa estrategema da « inverdade múltipla», que

… consiste na produção de tantas afirmações ou denúncias que fica impossível manter todas presentes na mente ao mesmo tempo. Pode-se selecionar um número pequeno e demostrar a falsidade delas, mas permanece a impressão que só aquelas afirmaçãos seriam falsas.

Assim como o Nassif apresenta as grossas e gritantes contradições e inverdades da Veja e Folha sobre o caso — o sócio da Capital que não era sócio, o dono da Via Net que não era dono, os contatos de X por Y que na verdade foram de Y por X — surgem novas denúncias sem nenhuma tentativa de manter um grau de coerencia com as primeiras.

Baracat não é dono da Via Net.

Que tivesse havido uma reunião com Erenice. Que a firma de advogacia tivesse sido contratado sem licitação. Sem maiores explicações nem citação das provas da denúncia.

… E ainda serviu para que a imprensa descobrisse como a família de Erenice havia construído a tradição de sobreviver à custa do contribuinte, em empregos na máquina pública, relacionados de maneira evidente à ascensão da ilustre parente.

Quando O Globo chama algo de evidente, pida as evidências.

Me desculpem, mas assim como sempre lavo as mãos com sabonete antibacterial e bebo água engarrafada — sou cria do norte, meu organismo não está acustomado — eu sempre aconselho higiene rigorosa no que diz respeito à credibilidade da imprensa brasileira.

Sobre o mesmo tema, o Estadão produz hoje um exemplo de infografia que me lembra de nada mais que da genealogia que vem logo no começo do Cem Anos de Solidão, de Garcia Márquez — para com que a gente não ficar perdida entre tantos Buendias.

Erenice seria a Úrsula Buendia da dinastia.

Além do mais, quebra-se aqui um das primeiras regras da sociometria.

Não pode dizer que Vinicius Castro «é apontado como sócio» do filho de Erenice e ainda assim desenha uma linha sólida entre Vinicius e Israel, como se fosse um fato tão seguro de que o parentesco entre os atores.

No mínimo, deve ser apresentado como uma linha quebrada, indicando um fato não estabelecido.

Os mesmo aplica-se à afirmação «Israel teria usado o escritório» de advogados em questão.

Assim como na genealogia os filhos naturais são mostrados com uma linha quebrada, os factóides não deveriam receber a mesma legitimidade que os fatos.

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seria mais apropriado, mais o que vemos é

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Eu, hein?

Tentando fazer sentido da segunda aba do infográfico sobre o «loby» [sic] de Israel, começo a me sentir meio vesgo.

Está repleto de «serias» e «apontados», post hoc ergo propter hocs —  a empresa não fechou com Capital, ergo foi recusado pelo BNDES — e fatos controvertidos, que eu saiba, sem contraditório.

Abandono esperança.

Ora, ofereço uma loura do meu próprio bolso — ou uma copa de um bom Malbec argentino, se quiser — ao jornalista que consegue produzir o síntese mais breve e completo do caso, sem enormes erros de fato, e suprindo a falta gritante que marca toda a cobertura:

  1. Quais as regras sobre conflitos de interesses na administração federal, e
  2. Quais as ações da autoridade denunciada que podiam ser consideradas contravenções dessas regras?

É como tentar explicar uma falta cometida por um jogador de beisból sem explicar as regras bizantinas do jogo.

E falando em infografia inútil, houve este da revista Exame a semana passada:

Utiliza-se um dispositivo chamado Touchgraph, se não me engano, para apresentar a lista de ministeráveis — ministeriáveis? — da Dilma.

Acrescenta exatamente nada a uma lista em texto simples dos candidatos.

Esperava-se que os nós dessa roda de samba teriam laços levando a um perfil do candidato, pelo menos.

Mas nada disso. Apenas o ministério e o candidato ou candidatos para assumí-lo.

É um desperdício de banda larga.