Nota de Rodapé: «Somos Gringos Demais!»

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Do fluxo de fatos e factóides hoje, um comentário interessante que não presta para meu trabalho mas que achei interessante por si só.

O cliente me contratou para assistir, virtualmente, todo que é teleconferência de resultados trimestrais ou apresentação a investidores para ver se houvesse algum papo sobre as pretensões acquisitivas de empresas no universo de cobertura do serviço que o cliente fornece.

Cruzamos os pronunciamentos de executivos como os fatos financeiros divulgados para avaliar, na medida possível, a capacidade de uma empresa de realizar as estratégias professas.

Ontem a tarde foi a vez dos gigantes de infotenimento apresentar suas estratégias durante uma conferência do setor de communicações e entretenimento. Entre as apresentações, as da Disney, Discovery, Liberty Media e a rede de televisão CBS. Isso dentre das decenas senão centenas de transcrições que eu leio por semana.

Foi a presidente do Discovery — uma advogada antes responsável pela internacionalização do MTV durante 20 anos — que foi selecionada como a Secretária de Diplomacia Pública do governo Obama, lembre-se.

A empresa não fala concretamente hoje sobre alvos possíveis de operações de F&A, nem dando um perfil geral de alvos potenciais, e portanto este lado da história não ficou muito útil ao meu cliente. Uma possível recompra de ações pode ser interessante ou não. Ainda tenho que cruzar os dados.

Ainda assim, tem um comentário aqui que pode ser a fonte de alguma esperança para produtores de conteúdo nesse outro lado do Equador: A empresa está topando que o conteúdo dela podia ser gringo demais!

Disse o David Zaslav, presidente do conselho e diretor executivo:

Nossa renda vem 43% de internacional e 57% de doméstico. … No lado internacional, com as marcas Discovery, Animal Planet, Science e ID, nós enxergamos estas com marcas globais. Raramente você consegue produzir conteúdo e depois distribuí-lo globalmente, o que vem a ser muito eficiente para nós.

Alguns canais, porém, não podem ser reaproveitados desse jeito, dublado ou legendado, o executivo confessa.

No caso do canal Science, 80% a 90% do conteúdo pode ser reaproveitado no mundo inteiro, mas com o TLC, por exemplo, é apena 50%, talvez 60%. A programação é norteamericna demais. Tem cultura norteamericana demais, e portanto precisaremos adquirir conteúdo em várias regiões para poder ser visto como importante e parecer autêntico naquelas regiões.

Como vivo reclamando, eu não mudei para os matos grossos do sul para ficar assistindo os reprises de «House M.D.» e os canais History e Discovery, dublados!

A dublagem dos Simpsons, entretanto, sempre desperta uma raiva e um certo ufanismo em mim.

A voz de Bart tem quer ser uma menina, como no original, por exemplo, e não tem como traduzir o sotaque maconheiro-californiano de Otto, motorista do ónibus escolar, por um sotaque de taxista carioca puxado.

Eu jamais entendi por que todas as produções sobre a natureza selvagem do Brasil são feitas com cabeças-falantes gringas.

Fosse vocês, eu também ficava resmungão com o fato de artistas brasileiras ficarem presos nas favelas do estúdio de dublagem.

Zaslav de novo:

Somos a maior empresa de mídia de não-ficção do mundo. Na América Latina, entretanto, temos a rede numero um para crianças de até seis anos, e temos outros canais mundo afora que são puramente de entretenimento. Então, embora nosso modelo fundamental ser render duas vezes sobre o mesmo conteúdo, temos uma rede digital em Alemanha, DMAX, e outra no Reino Unido.

São sempre muito melindrosos, esses executivos, quanto ás pretensões estratégicas.

Nesse caso, a recompra de ações parece ser a prioridade. Mas não faz mal ficar de olho em atividade que podia sugerir investimentos em conteúdo produzido nos mercados emergentes para audiências locais.