Carta aos Futuros Blodgets do Brasil

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Já ouviu falar de Henry Blodget?

Justamente ou não, o analista de ações virou o bode expiatíório pelo estouro da  boidada da Internet (EDBDI) em 2000, quando foram descobertos e-mails na qual ele deu conselhos a partes particulares que contradiziam seus prognósticos públicos.

O perfil do hoje CEO do Business Insider e jornalista bem-sucedido na Wikipédia minimiza o comportamento quase-criminoso de Blodget, embora recentemente, numa coluna vitriólica, o ombudsman do New York Times questionou porque um criminoso sem qualquer credibilidade seria convidado a opinar sobre integridade jornalística nas páginas «op-ed» do jornal.

Eu, eu acho meio de mau gosto destacar «informações de dentro as empresas», dado a multa de $4 milhões que Blodget pagou ao SEC por ter manipulado e abusado de tais informações. Mais as pessoas esqueçam, suponho — ou talvez elas respeitem exibições desse tipo dos famosos «culhões de aço».

A queda do analista astro de rock de Merrill Lynch marcou o fim de pesquisa de ações com um serviço oferecido de graça pelos bancos de investimento e corretoras de varejo. Não justificava-se o custo mais quando não podia ser utilizado, lateralmente, como ferramenta de venda.

No pós-EDBDI, portanto, proliferavam-se sites montados por ex-analistas como Blogging Stocks, de AOL, e Seeking Alpha, que continua prosperando até hoje.

Também surgiu projetos interessantes, como as primeiras redes sociais às quais as analistas sometiam, anonimamente, ideias para bons investimentos, e assim construiam um nome, acertando mais do que errando. Foi uma tendência saudável e meritocrático, eu sempre achava.

Agora, o romanista F. Scott Fitzgerald disse famosamente que vidas americanas não tem segundos atos. Personagens com Blodget parecem desmentir o mito, sinalizando uma mudança de paradigma em nossa vida nacional. Ou talvez fosse a divisora de águas.os 65% de aprobação de Clinton logo após a Mônicagate

Pode até argumentar-se que a inteira estrutura de poder econômico e político dos EUA tinha como fundamento esse tipo de manipulação e ma-fé. É tão coisa nossa como torta de maçã e beisebol. A nota de $1, em vez de e pluribus unum, deveria levar o aforismo caveat emptor.

Joseph Kennedy, por exemplo, foi o pai do presidente assassinado, seu irmão presidenciável, também assassinado, e seu outro irmão, o falecido senador, Teddy.

Sua suposta participação no submundo de contrabando durante a Proibição é debatida ainda hoje, mas era sem dúvida um vigarista em escala industrial, embora não havia na época legislação contra seus métodos.

O bom e velho Joe, grande home da Nova Cartada de FDR, fez a fortuna operando os «stock pools» — antes da Lei Glass-Steagal, que fez da prática um crime.

Consórcios de pessoas com acesso a informaçoes privilegiadas amontoavam mares de ações. Na promoção de investimentos na bolsa para o grande público, contavam um versão aos jornais, com a ajuda da nova profissão de relações pública, e outras entre si atrás de portas fechadas, nas famos «salas esfumaçadas».

Quer dizer: promoviam como milagrosas as ações na qual tinha uma posição fortemente vendida, e vice versa.

Não faz muitos anos, um jornalista inglês pegou cadeia fazendo exatamente a mesma coisa, em concluio com um amigo dono de «hedge fund». Que eu saiba, o Article 19 não o comemorou como mártir à liberdade de expressão.

É da época de Joe Kennedy e Hoover que temos a piada sobre o nome da típica corretora de valores: Dewey, Cheatham & Howe. Ou seja, foneticamente, em inglês, «Trapaceamos os otários? Podes crer!»

Estou pensando em essa história toda agora por ter resolvido mudar meu foco desde o marketing político para assuntos sobre o qual eu deveria ter algum conhecimento profissional: os mercados de capital do Brasil.

O crescimento destes é galopante, propelado pela tecnologia de ponta fornecida por parceiros como o Grupo CME e por uma máquina publicitária visando o crescimento do setor «home broker« — a gente fala de «day trading» — de 600 mil a 5 milhões de pessoas físicas operando no mercado por conta própria até 2014. Li isso em algúm lugar recentemente.

Foi por isso que vi com interesse a divulgaçao pela APIMEC de um novo código de conduto para analistas de ações — como em tantos outros setores relacionados com informações e dados, uma tentativa de construir um modelo de auto-regulamentação antes que seja tarde.

Se seja sábia ou não a decisao da CVM de deixar o policiamento dos «touts» a uma entidade de classe, saberemos na plenitude de tempo.

Ainda assim, as regras sobre conflitos de interesse, numa primeira leitura, são decerto menos frouxas de que, por exemplo, o Código de Conduta da Editora Abril lançado no ano passado — aquele no qual o valor máximo de brindes é limitado a R$100. R$100 cada, eu presumo.

Não fala de quantos brindes por mês, que eu me lembro.

Entre nós gringos, o valor máximo é limitado a $0, ou praticamente isso.

O brinde não pode ter valor comercial se revendido.

É divertido, portanto, colecionar os brinquedinhos dos vendedores nos eventos, que buscam ser memoráveis apesar de baratos e cafonas.

Impõe um certo desafio criativo saudável no setor de relações públicas.

Do código da APIMEC:

Art. 3o – É vedado ao Analista aceitar benefícios que de alguma forma possam ter por objetivo influenciar suas análises, em particular:

I. Receber presentes em desconformidade com a política específica da Instituição em que atue;

Parágrafo Único – Caso a Instituição em que atue não possua política sobre a matéria, deverá ser seguida orientação específica a ser emitida pelo CSA, que restrinja quaisquer presentes àqueles de pequeno valor.

«De pequeno valor» como definido pela empresa onde o analista trabalha. IANAFL — não sou bendito advogado — mas ainda posso imaginar as brechas a serem exploradas.

Não chegar à altura de nosso princípio, que é de «sem valor comercial algum».

O brinde tem que ser vendido na China aos $1 por caixa de 100.

As regras sobre a independência e objetividade também convidem comparação com a realidade do jornalista brasileiro. Eu sempre lembro nessa conexão o estudo preparado por formados no Curso Abril de Jornalismo, que concluiu que «o jornalista brasileiro tem medo de escrever» — sentindo-se coagido menos pela linha editorial do veículo onde trabalha que por pressões vindos de grupos políticos e empresariais.

Eu cito quase textualmente.

O estudo tinha sido tirado do ar quando voltei à pagina do curso para confirmar a citação.

O código do analista apresenta a resistência a tais pressões como um dever:

Art. 11 – Em qualquer circunstância, cabe ao Analista, o dever de resguardar sua
independência e objetividade frente a influências externas ou internas à Instituição em que atue.

§ 1o – Influências muitas vezes são transmitidas na forma de pressões diretas ou indicações de cursos de ação mais “adequados aos objetivos da firma”. O analista deve dissociar-se de pressões, apontando para a necessidade de cumprimento do presente Código e demais obrigações legais e regulamentares.

Rua nele, por pretexto qualquer. Que apostar?

§ 2o – Uma vez que as Instituições tendem a estabelecer posições desvinculadas das opiniões individuais a respeito de determinado assunto ou indicação de investimento, será comum que o Analista se ache em uma situação de discordância em relação à posição Institucional. Nestas circunstâncias não há uma obrigatoriedade de divulgação da posição discordante. O Analista deve, sim, se certificar de que a posição Institucional representa um ponto de vista legítimo e suportado por fatos e análises, não sendo fruto de influências, pressões ou interesses.

É uma chamada a virar dedo-duro — ou como se diz entre nós, um «apiteiro».

E assim por diante.

As regras barrando «o assédio às pessoas» relacionadas com a emissão de papeis «na busca de informações privilegiadas» são meio esquisitas também.

Segundo minha leitura humilde de um IANAFL, ainda é possível forçar a barra do emissor , coagindo-o a divulgar informações legitimamente sigilosas — talvez pela intermediação de algum jornalista, assédio sendo um método utilizado amiúde e sem crises de conciência naquele profissão.

Mas sei lá.

Deixo para cabeças mais sábias me ensinar as sutilezas do código.

Em qualquer caso, ausente regras impostas pela instituição, o analista ainda deve zelar pelo cumprimento dos princípios definidos pela CVM:

Art. 4º É vedado ao analista de valores mobiliários:

I – emitir relatórios de análise com a finalidade de obter, para si ou para outrem, vantagem indevida;

II – omitir informação sobre conflito de interesses;

III – negociar, direta ou indiretamente, em nome próprio ou de terceiros, valores mobiliários objeto dos relatórios de análise que elabore ou derivativos lastreados em tais valores mobiliários por um período de 30 (trinta) dias anteriores e 5 (cinco) dias posteriores à divulgação do relatório de análise sobre tal valor mobiliário ou seu emissor; e

IV – negociar, direta ou indiretamente, em nome próprio ou de terceiros, valores mobiliários objeto dos relatórios de análise que elabore ou derivativos lastreados em tais valores mobiliários em sentido contrário ao das recomendações ou conclusões expressas nos relatórios de análise que elaborou por:

a) 6 (seis) meses contados da divulgação de tal relatório; ou

b) até a divulgação de novo relatório sobre o mesmo emissor ou valor mobiliário.

Parágrafo único. O disposto nos incisos III e IV do caput não se aplica às negociações com cotas de fundos de investimento, exceto se:

I – o analista puder influenciar, direta ou indiretamente, a administração ou gestão do fundo; ou

II – o fundo concentre seus investimentos em setores ou empresas cobertos pelos relatórios produzidos pelo analista.

O que acho curioso é o seguinte:

O Analista deve distinguir entre a divulgação ao público em geral, feita por um canal público e a disseminação para um conjunto determinado de pessoas, por exemplo, um conjunto de Analistas em uma conference call, ou reunião presencial restrita.

Não foi exatamente isso que o Henry Blodget fez? Dizendo uma coisa ao público e outra entre os cumpadis? Se XYZ S/A confessa estar escondendo dívidas em Bermuda, mais a sessão estaria sigilosa, o analista deveria produzir análise otimista quanto a razão endividamento-faturamento?

Não sei não.

Eu acho natural, porém, que no futuro, haverá Blodgets brasileiros — só que no caso do Brasil, o blog — e especialmente o LSD, ou «latifúndio de samizdat digital» — que era uma novidade na época do EDBDI, já está disponível como uma zona cinza jurídica e regulatória.

Em fim, será interessante sistematizar meus conhecimentos sobre o setor financeiro com a ajuda dos meus robôs. Já fiz um raio-X do «ecossistema» da ACIONISTA.COM.BR — me parecia um ponto de partida natural — e outro do mundo de corretoras, em progresso.

Me parece possível montar assim um banco de dados setorial que me livrará dos anuários que costumo comprar mas que raramente contém uma apuração que poucos minutos com Google não revelaria.