A Onda Verde e a Rua K: Questionamentos

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NB: Essa nota começa com um assunto e depois pula para outro. Eis o risco de pensar digitando. Pule para a cabeçada Esboço do Zaibatsu Verde para chegar no assunto principal: que é preciso apurar as orígens e fontes de financiamento da Onda Verde antes de cair no mito de que seria um movimento inteiramente espontâneo.

Em tal cenário, pode ser que as empresas não-jornalísticas estejam produzindo conteúdo verazes e relevantes, com critérios técnicos e éticos e apresentação estética da informação equivalentes ou em qualidade superior a do jornalismo das “redações”. E, ao incorporar profissionais jornalistas, podem produzir até mesmo melhores e mais credíveis materiais do que empresas jornalísticas clássicas, que poderiam estar se dirigindo ao hibridismo informação/publicidade como sobrevivência.

Escrevendo na Observatório da Imprensa, Francisco José Castilhos Karam do objETHOS produz um argumento estranho sobre como sarar o «hibridismo informação-publicidade » que nessas páginas costumamos chamar da boa de velha «reportajabaganda».

Assim, jornalistas assessores e em novas mídias digitais poderiam produzir melhor conteúdo, com as características técnicas, teóricas e estéticas do jornalismo, do que os limitados pelos constrangimentos internos nos veículos da área.

Castilhos Karam é professor de jornalismo na Universidade Federal de Santa Catarina e autor do livro A ética jornalística e o interesse público. Ja fez parte de uma chapa buscando a liderança da FENAJ.

Oferece um curso sobre o jornalismo na Idade de Informação que o revela como um daqueles semióticos achando que a Internet muda tudo.

Não ha dúvida alguma que a assessoria de imprensa, que paga melhor e costuma atraer os melhores talentos, é capaz de de produzir textos tecnica, teorica e estéticmente superiores ao produto do chamado «jornalismo de redação».

Isso não tem nada a ver. Melhor um fato sólido comunicado por um semianalfabeto que uma peça linda e profissional que iluda o leitor.

Ainda assim, é por isso que vale a pena assinar e ler um bom serviços de «release».  Um bom assessor de imprensa — são muitos — não mentirá, não esconderá seu laço com o cliente, apresentará uma riqueza de fatos apurados, e terá antecipado todas as perguntas céticas sobre a notícia encomendada pelo cliente.

Não terá a obrigação de destacar o contraditório, por ser advogado e portavoz do cliente, porém.

Mas esse argumento da superioridade “técnica, teorica e estética” serve como a premissa básica do modelo MOSCOU — mídia orquestrada pela sociedade civil de oligopólios unidos. Este é tipificado pela atuação dos «pesquisadores» do Instituto Cato, que tem substituidos jornalistas especializados como «cabeças-falantes» nos noticíarios das grandes redes de TV, rádio e imprensa nos EUA.

No PBS News Hour, por exemplo, virou cada vez mais rara a entrevista com jornalistas possuindo décadas de experiência sobre um assunto e cada vez mais comum a entrevista com algum «pesquisador» de um instituto de pesquisa financiado, na moita, pelos mesmos doadores que mantém o noticiário no ar.


É quando chegamos à questão ética que a deontológica do professor me deixa fora, portanto.

Sobre a questão ética, na medida em que os valores profissionais históricos são coagidos pelo conjunto de acionistas, anunciantes e proprietários que não o são só de empresas da área – com os interesses globais de produtos outros – ela poderia mesmo estar ainda mais limitada do que nas assessorias e nas novas mídias, desde que se veicule e dissemine bem o conjunto de fatos e de versões produzidas por quaisquer setores …

O que estou ouvindo é a boa e velha comemoração da desintermedição de informações — a morte do jornalista como o guardião do portal.

Estava na moda dentro do PBS e NPR durante os anos de Bush ibn Bush, e agora, como todos os modismos, chega à orla brasileira com bastante atraso no vapor anual Nova York-Rio.

Além disso, está apresentando a corrupção da Velha Mídia como um fait accompli, por ser uma necessidade econômica férrea imposta pelo Mercado. Eu não acredito no determinismo económico de proponentes deste arguemento.

É o mesmo argumento que recebi uma fez como reposta de Diego Escosteguy da revista Veja, quando eu reclamava com ele sobre o fato de uma matéria dele conter inverdades gritantes e uma falta absoluta de qualquer tentativa de assegurar a qualidade da informação.

Nós produzimos apenas uma versão, a qual você é livre de aceitar o rejeitar, respondeu.

A verdade não existe. O que existe é a soma de versões, e portanto, caveat leitor.

Eis a ética do governador romano de Judea, que lavou as mãos: «O que é a verdade?»

O que se produz segundo esse jeito de raciocinar e racionalizar é o efeito comentado pelo assessor político no filme de Robin Williams — que faz um comediante de televisão que vira candidato à presidência, um Tibirica de lá.

O que se produz, como observa esse assessor, é a tela da TV dividida igualmente entre um professor de história especializado na Solução Final nazista e uma figura nebulosa que nega que esta aconteceu.

«Como se fossem iguais, ambos com uma legitimidade comparavel e iqualmente digna de nossa atenção», o assessor lamenta.

Eu concedo , no entanto, e com boa vontade, ao professor, que esse desintermediação teria outro valor no Brasil que talvez tenha em paises aos quais não faltam-lhes tanto a diversidade de fontes de informação jornalística.

Diante de tal perspectiva, os indivíduos e os movimentos sociais, os setores segmentados, entidades e instituições públicas e privadas preocupados com a informação do tipo jornalística teriam um cenário favorável para a realização de projetos que apontem para a democracia e para a melhor consecução da atividade jornalística. Esta “oposição ao jornalismo” das redações vem se dando por meio do legítimo jornalismo por fora delas.

Aí, descordo. Legítimas relações públicas não são jornalismo legítimo.

As comunicações que multliplicam-se até encher a rede e saturar a capacidade do navegante não são todos exemplos de legítimo jornalismo no interesse público. Muito ao contrário.

Muitas são exemplos de legítima assessoria de imprensa, relações públicas e propaganda.

Muitas outras de propaganda ilegítima, prinicipalmente pela falta de divulgação de patrocínio.

Um punhado ainda disperso de jornalistas praticam légitimo jornalismo na rede, separando o trigo do joio e mantendo vivo um circuito crítico que parte da premissa de que o sensato é o «nonsense» não merecem destaque iqual.

Um exemplo ao que sempre retorno é a onipresênça do iPad, o iPhone, o iMac, o iTunes, e o tratamento de celebridade dado ao iSteve nos cadernos de tecnologia.

Um estudo recente da fundação Pew gerou alguns dados interessantes sobre esse fenómeno no mundo inglesfalante.

«Quando a tecnologia dá manchetes: a visão dupla da mídia sobre a nova época digital»  | Pew Research Center, 27 setembro 2010, inglês, PDF)

A dominação do noticiario por um punhado de empresas é um tema central do relatório.

Falta uma comparação com a mídia do Brasil, onde eu apostaria em números bem maiores.

Porque? Porque os cadernos de tecnologia nos jornais dos EUA ainda dedicam espaço a matérias sobre tecnologia que não sejam reportajabaganda sobre marcas específicas de tecnologia de consumidor, visando despertar os sonhos de consumo do leitor.

Se um bando de suiços acelerem um partículo até 99% a velocidade da luz, tem melhor chance lá de dar-se como a manchete mais destacada do dia.

Nos cadernos de TI do Brasil, a tecnologia fica tratada quase exclusivamente como objeto de consumo e caixa-preta.

Compre-o. Não precisa saber como faz o que faz ou como foi inventado.

Voltando ao assunto, o que não consta na visão de nosso professor de ética tomista é um fato demostrável: a reportajabaganda domina tanto a nova como a velha mídia, que aproveitam em escala industrial certas sinergias montadas na moita.


Campanhas de propaganda clandestina amiúde produzem falsas «tendências sociais» que viram o objeto de jornalismo tradicional, por exemplo.

Eu achei uma campanha desse tipo no qual o personagem central da campanha — um tal de Rafa Define — ganhou 200.000 seguidores no Twitter de um dia por outro. Uma anomalia estatística astronómica pela qual não consegui descubrir uma explicação verosímil que não seria um fluxo de  jabá.

Ora, não pretendi entrar num deulo de casuismo com mais um destes teólogos do Milénio.

Deixe-me terminar com o esboço de uma explicação pela «onda verde» do primeiro turno.

A campanha Verde fez o apelo mais bem-sucedido ao idealismo sincero da juventude das elites tradicionais do Brasil.

Assim como as outras campanhas, a Verde aproveitou «tendências espontâneas» do Zeitgeist para alavancar esse apelo.

Esoboço do Zaibatsu Verde

Agora: Al Gore, ex-presidenciável e estrela e produtor do filme Uma verdade inconviente, é diretor da Apple Computers.

O iMac dele foi um ator coadjuvante importante no filme.

É o alvo de campanhas de desinformação histérica — acima.

O velho chefe de Gore, Bill Clinton, utiliza sua ONG, a Clinton Foundation, para promover desenvolvimento sustentável e responsabilidade corporativa na área ambiental. A fundação faturou US$183 milhões em 2009, segundo seu Formulário 990, acima.


A fundação é presidida por Bruce Lindsey, antigo consultor jurídico em chefe da Casa Branca, que chegou a ter o apelido «ministro de vadias» — uma injustiça à coitada de Mônica, aliás — por ter cuidado de vários escândalos sexuais do Presidente Bubba.


Os mais fervorosos proponentes desse conceitos no Brasil são as empresas da velha mídia.


Hipótese: um estudo cuidadoso do «meme» de «ecobusiness» mostraria a influência, por exemplo, da indústria de agronegócios multinacional.


A hipótese verde, compartilhada com o CNA de Kátia Abréu, é que apenas o Mercado possa gerenciar o património ambiental de um pais de maneira responsável e sustentável.

Portanto, é desejável enriquecer grileiros e latifundiários que vendem suas glebas ao agronegócio, que anda consolidando terras com planos para administrá-las de maneira sustentável.

Não questiono a sinceridade dessas empresas ou a viabilidade desse planos, seja dito. Temos que avaliar isso caso por caso.

Eu não vim discutir essa teoria, tampouco para falar mal da juventude verde que votou na Marina.

Faz um caso de sucesso marcante de marketing político.

Eu até acho saudável, em tése, botar uma figura como Marina na posição de corretora honesta entre duas tendências polarizadas e meio calcificadas, promovendo uma agenda que indiscutivelmente merece uma discussão mais profunda.

Ora, minha própria mulher é apaixonadamente verde, e continua sendo apesar de uma certa desilusão.

Fazia as relações públicas de um BINGO — grande ONG internacional — ambiental no  Brasil, até a sede da ONG, na Rua K, resolver demitir todo mundo e centralizar o poder estratégico fora do Brasil.

Sua história diz muito ao respeito.

Meu objetivo nessa série de anotações tem sido detectar o uso de propaganda clandestina pago pelo contribuinte para influenciar a política no estrangeiro.

Apenas sugiro, então, que a Onda Verde não tem imunidade contra o Efeito IMIL.

Responde, de certo grau, a uma agenda que remete a Rua K e a Avenida Madison.

Tem cheiro do NED e do NDI.

Opus Dei é verde assim como ela é iPhone.

E Agora?

Agora, a independência com que a Marina jogará as fichas emprestadas por este núcleos de articulação transnacionais será interessante.

Eu não acho improvável ela jogá-las com a mais perfeita integridade.

Aliás, quem pode dizer não ao Lula pode dizer não a qualquer pessoa. Não é? Mas eu sufro de uma certa naiveté nessas questões.

O Gustavo Ferroni, escrevendo no Vio o Mundo, posa a pergunta certa:

A Marina pode ter potencial de alavancar a agenda socioambiental, ou pode ter o potencial de atrasá-la reduzindo esta a chavões típicos da responsabilidade empresarial que são conhecidos como  “greenwashing”, isto é, a inclusão de termos e conceitos no discurso e não no comportamento dos candidatos.

«Whitewashing» quer dizer pintar algo podre com uma camada de tinta branca barata. Significa soluções meramente cosméticas.

Assim, «greenwashing» é um jeito superficial de moralizar uma empresa ou outra organização como defesora do meio-ambiente.