Equador: Índios Golpistas ou Tea Party Tropical?

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Como sabemos, é quase impossível conseguir da imprensa brasileira um relatório completo e sem frescuras sobre qualquer acontecimento do outro lado da Tríplice Fronteira ou da Cordilheira Andina.

Portanto, eu li com interesse a reportagem de A.L.M.C. Costa na Carta Capital a semana passada sobre a confusão — tentativa de golpe mal organizada, é o veredito do jornalista — que rolou no coitado de Equador ultimamente.

Agora, sou amigo de Facebook de Al Giordano, acompanho o NarcoNews, editado por ele, faz tempo, e jamais sei o que pensar da sua vida e obras.

Nesse caso, um fato relatado por nosso intrépido A.L.M.C. Costa está sendo denunciado com grande vehemência — a vehemência sendo o samba de uma nota só de Giordano & Cia. — pelo narconoticiário: que o movimento indígeno Pachakutik teria recebido recursos do National Endowment for Democracy e a USAID.

Textualmente, Costa:

Ainda assim, não se pode concluir que Washington incitou o golpe, como acusaram Venezuela e Bolívia — mesmo se  Pachakutik recebeu recursos do NED e USAID e a polícia de Equador recebeu recursos e treinamento dos EUA. O próprio Correa diz não acreditar nisso, embora não descart que estadounidenses possam estar envolvidos sem conhecimento da Casa Branca.

Agora, Al Giordano, apresentando um texto pelo “presidente do CONAIE, Marlon Santi.”

Nós defendemos a mais importante coalizão de movimentos sociais, a CONAIE, de uma campanha brutal de calúnia impetrada contra ela por norteamericanos como Eva Golinger, Jean-GuyAllard, e … Essas pessoas acusararm os indígenos e indígenas do CONAIE, sem fundamento, de serem agentes do imperialismo e recipientes de fundos da USAID e NED.

De fato, o movimento Pachakutik faz parte do Foro de São Paulo — aquele projeto do PT de transformar movimentos armados em projetos de poder por via eleitoral, como aconteceu em El Salvador com o FMLN no passado.

A mesma firma de marketing política, Pepper, do PT fez a campanha digital dos vitoriosos Martianos.

Giordano continua:

Nos dias seguindo [o incidente], abanando “provas” frágeis e mal-contadas, Golinger e Allard continuavam sua cruzada para desmoralizar o CONAIE numa série de artigos fartos de retórica e boatos e famintos quanto aos fatos.

Se a questão virar um embate entre a credibilidade dessas vozes norteamericanos e a voz digna do CONAIE, nós daremos o crédito às vozes do Equador, que já comprovaram durante duas décadas que valorizam os interesses do povo e do seu país e que organizavam-se, lutavam e conseguiram vitórias reais.

Minha primeira impressão é que um povo indígeno de qualquer parte do mundo seria temerário no mínimo se aceitasse do governo dos Estados Unidos conselhos sobre como lidar com uma horda colonizante-imigrante.

Soberanos em tése, tantos tribos indígenos dos EUA vêm vendendo essa soberania aos interesses excusos dos cassinos — como no caso de Jack Abramoff, operador Republicano notório flagrado construindo uma caixa dois com dinheiro extorquido de um desses tribos.

Deu cadéia.

Teria, no entanto — vamos pensar maquiavelicamente por um minuto — um certa expediência política efémera nesse repentino «empowerment» de povos indígenos, agora que as obras de PAC no Alto do Xingú estão perturbando tanta gente de cunho verde — minha mulher e sua prima, e minha sogra, só para começar.

A ser levado em conta, também — qual o peso a ser-lhe dado, sei lá — é o fato do site do movimento Pachakutik ser hospedado em Canadá.

Eva Golinger é aquela advogada e jornalista de Miami que opõe-se aos movimentos nebulosos anti-Chávez daquele caldeirão conspiratório, como ORVEX e Fuerza Solidária, ao ponto de aceitar ser redator-chefe de um jornal patrocinado pelo governo venezuelano.

O NarcoNews quase culpou a jornalista Naomi Klein pelo mesmo pecado, mas se corrigiu, dizendo que foi uma má-interpretação de «tweets» entre Klein e Golinger.

Ainda assim, uma declaração dito por GIordando do próprio CONAIE não contradiz a reportagem da CC, salvo no que diz respeito ao apoio financeiro norteamericano.

Não são exatamente o que o ex-presidenete José “ET fez o 11-M!” Aznar disse dos movimentos indígenos da Iberomérica: inimigos jurados da civilização ocidental.

Mas tampouco estão felizes da vida.

Estou confiando no Giordano pela procedência deste pronunciamento, e continuo um pouco confuso entre o CONAIE e o movimento Pachakutik. Acontece aqui um equívoco aqui: uma confusão da parte com o todo. Explico.

O CONAIE não têm presença própria na internet, somente um laço morto, desde um site chamado NativeWeb, a um domínio à venda.

Naquele site do CONAIE no NativeWeb, não constam documentos do movimento que não são dos anos 1990, muito menos o comunicado passado adiante pelo Giordano — que também não consta no site do Pachakutik, que fica sem atualização desde Abril de 2010.

Levando essas dúvidas em mente, eis o pronunciamento reproduzido pelo NarcoNews, minha tradução:

Energeticamente negamos que houvesse golpe de estado, muito menos sequestro. O que vimos foi um evento respondendo ao gestão frágil do governo, o qual provoca desaforo entre o povo por causa da agressão permanente, discriminação e a violação de direitos consagrados na Carta Magna.

Recusamos reconhecer essa “democracia” ditatorial porque falta-lhe liberdade de expressão, por causa do secuestro dos outros poderes pelo executivo … o qual não cria espaços de debate sobre os projetos e legislação emanando do setor indígeno e outros setores da sociedade.

Negamos categoricamente que o CONAIE, o movimento Pachakutik, ou qualquer povo ou nação tivesse qualquer ligação com a USAID, antigamente NED, nem ontem nem hoje nem nunca. Ao contrário, sabemos que essa organização financia os “programas sociais” desse governo, tal como a parceria das florestas, e isso, sim, condenamos.

Há uma pequena confusão aqui entre NED — um ONG financiada pelo Congresso — e a USAID, uma agência do executivo, ambos dos quais continuam a existir.

Agora, como Costa conta — eu vou resumir, o texto não estando disponível no site para uma Ctl-C, Ctl-V seletiva —  apoiadores deste Gutiérrez, do Partido Sociedade Patriótico, junto com alguns policiais, vandalizaram a emissora estatal, invadiram-na, e revindicavam o direito de fazer um pronunciamento no ar.

Dois governos de provincia, entretanto, foram tomados por uma frente liderada pelo Partido Comunista Marxista-Leninista — “afim ao Partido Comunista Revolucionário (PCR) do Brasil” — onde se declararou o poder popular.

E relata, “o líder do movimento indígena Pachkutik emitiu um comunicado responsibilizando o presidente por ‘grave crise política e comoção interna” e chamando o legisltivo a destituí-lo.

Acho que isso seja errado e merece um erratum.

Qual líder? O Marlon Santi?

Ele consta no site do movimento Pachakutik somente como um coordendor provincial  fazendo uma apresentação,  durante uma convocatória urgente de 2008, ao “conselho político nacional.” Além disso, nada consta.

Coordinadores Provinciales

Humberto Cholango, Ecuarunari;
Rodrigo Collaguaso, Confeunasse-cnc;
Marlon Santi, Conaie

Googleamos CONAIE

Agora, quanto ao assunto controvertido — ajuda do NED ou da USAID aos «inimigos da civilização ocidental» de Aznar — estas agências na verdade são bastante  transparentes, vamos ver que podemos «raspar» dos sites delas.

Parece possível que houve uma confusão com um movimento de Bolíva com o mesmo nome.

Do Pachakutik de Ecuador, somente os dados sobre seu desempenho em eleições de 2004:

Quanto ao Bolívia, mais uma vez, só a citação do movimento como parte às eleições:

During the span of this project, several significant electoral events took place. On December 18, 2005, elections were held for president and Congress. To the surprise of many political observers, Evo Morales of the Movement for Socialism (MAS) Party was the elected by an absolute majority with 54% of the vote, defeating Jorge Quiroga, leader of the Democratic and Social Power (PODEMOS) Party and former head of the Acción Democrática Nacionalista (ADN) Party and Felipe Quispe, of the Pachakutik Indigenous Movement (MIP).

Quer dizer que o candidato do Movimento Indígena Pachakutik — MIP — boliviano foi derrotado por Morales em 2005. Não tem menção de apoio pelos EUA.

Entretanto, há 30 resultados citando o CONAIE no site de USAID, ao lado dos 3 ao movimento Pachakutik.

Até tem um documento detalhando o que podia ser o referido plano florestal — documento produzido em 1990.

Podia até tratar-se de mais um «chá de Boston» — com manifestantes fantasiados de índios jogando a mercadoria na bahia.

Estamos tentando resolver um problema básico de lógica aqui: Se o CONAEI seja uma coordenação regional, então seria uma parte do movimento como um todo.

Assinando, em 2008, como lideranças nacionais do MUPP-NP, são Jorge Guamán Coronel, coordenador nacional, e Patricio Quezada Ortega, secretária nacional.

E se bem que fosse isso, então foi um líder regional de um integrante da frente ampla que se pronunciou e não o líder da coalizão — e nossa Costa nos deveria uma nota modesta de esclarecimento do detalhe.

Um blog em inglês sobre Ecuador relata a seleção «por consenso» do Señor Santi à presidência de CONAIE em 2008. O blog se diz parte de uma «rede solidária Austrália-Equador».

Fala-se num relatório do IIRR de 1995 — International Institute for Rural Reconstruction — de «pedidos por apoio» e contando o crescimento de «uma relação mais estreita» entre o CONAIE e o IIRR.

Complicado, hein?

Finalmente, apareceu uma nota sobre Marlon Santi aparece no site NDI Partidos — um projeto do National Democratic Institute, um dos quatro fundos — dois partidários, um empresarial, e outro trabalhista — do NED.

A nota reproduz uma matéria de La Hora, jornalão nacional e parte interessado no embate entre Correa e o que passa pelo PIG de lá.

Data: Julho de 2010. Segundo Santi, entregando um relatório à ONU,

“Ha habido un retroceso en la democracia, en los años sesenta en América Latina se vivía un régimen dictatorial, ahora regresamos a lo mismo, ya no podemos aplicar el derecho a la resistencia porque existe un Estado que criminaliza la protesta social”, indicó.

O Rafael Correa está criminalizando a manifestação da sociedade civil?

A averiguar.

Embaraço de Caciques

Um parallelo: Alguns dos líderes regionales do Partido Verde do Brasil, por exemplo, já contrariaram sua própria candidata e seu plano de negociação política durante o segundo turno.

Tem o Movimento Marina e tem o Partido Verde.

Quais os índios e quais os caciques?

A última nóticia provindo do site do movimento Pachakutik, entretanto — abril de 2010 —  fala de vitórias eletorais do MUPP-NP:

En las elecciones del 26 de Abril  nuestro glorioso Movimiento, reafirmó su presencia a nivel Nacional, al alcanzar un considerable número de dignidades a lo largo y ancho de nuestro País, en especial se destaca la alta participación ideológica y estructura de las Provincias Amazónicas, y de la Sierra donde hasta el momento tenemos alrededor de 26 Alcaldías, 5 Prefecturas, 5 Asambleístas y decenas de concejalías confirmados.

Pelos indícios, o Santi é obrigado, sim, a esclarecer as afirmações sobre seu movimento e seus laços históricos com instituições de assistência do governo estadounidense que, se não são USAID, são dela.

E mais uma coisa: SInto vergonha quando a pior baixaria que pode ser trocada entre adversários políticos é «você tomou grana do Tio Sam, não, você que tomou ….»

Apesar de tudo, eu gostaria pensa no meu país como uma força pelo bem. Não duvido que alguns programas desses foram úteis e as pessoas agradeciam.

Coitado do meu dolar de contribuinte, tão murcho ultimamente.

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