A Virada, Inovada?

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De uma hora para outra, o ar desanimado de Serra e dos tucanos foi substituído por um largo sorriso, a campanha errante tomou prumo, o programa de televisão ganhou vida, aliados que vinham se estranhando passaram a falar a mesma língua. Em apenas duas semanas, os papéis se inverteram, tudo mudou. —Kotschko

Tarso compara campanha de Serra a preparação do golpe de 64 | Notícias Terra. Notado deveria ser que segundo Tarso,

… está havendo “uma campanha de golpismo político só semelhante aos eventos que ocorreram em 1964 para preparar as ofensivas” contra o então governo estabelecido.

Assim dizia o governador eleito e ex-ministro da Justíça hoje. E foi além:

Tarso fez críticas duras aos adversários de Dilma na eleição, avaliando que hoje a ameaça é mais grave, porque inclui a “manipulação da informação com cumplicidade da maior parte da grande imprensa”. O governador eleito finalizou seu discurso avaliando que a situação pode “redundar em uma eleição ilegítima”, na qual um candidato quer se eleger “com base na mentira, na inverdade, na calúnia e na difamação”.

Ora, ainda não ouvi nenhuma das cabeças de planilha de costume comentando o fato, mais será que alguém além de mim notou que assim como nasceu o novo chavão da campanha anti-continuismo — «Chegou a hora da virada» — um virada começou a aparecer nas pesquisas de opinião?

Como se estivesse reagindo à deixa de Antunes Filho.

A situação realmente é de perigo, se bem que o aviso de uma eventual deturpação do processo eleitoral será chamado de exagero pelos colunistas. Ainda assim, a tendência é da subida de tensão, embora guardando um tom moderado.

Assim, o vice da campanha continuista ansiava-se hoje a negar que o termo «empate técnico« aplique-se aos resultados da última pesquisa CNT-Sensus.

E por boa causa: o empate técnico é a situação de medo, incerteza e dúvidas por excelência, e faz parte integral do «estilo neocon» empregado em várias eleições mundo afora desde o empate técnico de 2000 — quando nosso STF escolheu como presidente o candidato menos votado nacionalmente.

Também bem típico desse estilo: levantando barreiras processuais contra a participação de eleitores mais pobres, como a obrigatoriedade de dois documentos derrocada pelo STF após um pedido de vistas pelo ministro Mendes — um pedido dito pedido pelo candidato da virada.

Continuo achando o fato remarcável: A imprensa internacional entrou no primeiro turno com a expectativa sólida de uma vitória folgada do continuismo. Deu no Reuters. Deu no Bloomberg. Deu no Economist e no Financial Times. Deu até na revista Exame, que começou a fazer cobertura farta — e razoavelmente boa — sobre a luta livre entre ministeriáveis de Dilma.

Não somente apoiavam-se nas intenções de voto inmediatas, mas também nas pésquisas de intenções caso houvesse um segundo turno — mostrando Dilma com farta vantagem sobre ambos os opositores.

De repente, entre o dia 27 de setembro e dia 11 de outubro, uma virada que espelha quase geometricamente a descida, e liderada por um crescimento repentino na candidatura verde, que recebeu o dobro dos votos previstos.

Para o candidato contra continuismo, a estratégia viral original da campanha em rede — o «seja um multiplicador» do MobilizaPSDB — ganha conotações de milagre. Serra quer você torne um pescador de almas.


A simetria não é marcante? Os eventuais conflitos de interesse de Erenice por ocaso expliquem o fato?  Após as primeira auditorias do CGU, chatas e até agora exculpatórias, o assunto mais ou menos sumiu ds manchetes, fora uma no Estadão ainda nessa semana.

Mas é longe de ser novo capítulo parecido com o dos “aloprados” — quando o presidente do TSE diz publicamente, fora dos autos, na presença de microfone do JN, que o episódio chamava o Congresso ao impedimento inmediato do presidente da república. Depois, ouviu e inocentou o Freud — segundo o Estadão, o “Fraude” — Godoy.

Além disso, houve a perda de deputados pelo PSDB e DEM na Câmara e os ganhos do bloco de continuismo no Senado.

Difícil quantificar essas coisas — especialmente dado as fontes dos números e os métodos aplicados, apesar de abandonados em outras partes do mundo — mas eu tenho uma forte impressão de estar diante um enorme post hoc ergo propter hoc fictício.

Como eu estava comentando com amigos inglesfalantes hoje, por exemplo, vimos um efeito muito parecido ainda nesse ano na Colômbia também.

O Empate Técnico como Enredo de Novela

Durante o segundo turno naquele país, vários institutos de pesquisa apontavam um empate técnico — 47% a 47% —  levemente favorável ao candidato verde e desfavorável ao candidato de uribismo — que acabou ganhando com folga de 30% ou mais.

A história de pesquisas manipuladas durante a década passada é longa e cansativa, mais tome por exemplo as pesquisas ‘criativas” de John Zogby, circa 2003, dos quais Chris Mooney da revista The American Prospect concluiu,

“What these polls have in common is that they reveal “findings” that their sponsors wish the public to believe as facts.”

«O que essas pesquisas têm em comun é que divulgam «resultados» que os patrocinadores querem que o público reciba como fatos».

Traduzo um trechinho:

Uma pesquisa de Zogby International em 1999, encomendada pelo site de extrema direita Newsmax.com achou que dois-terços do público queria que o Congresso instaure um segundo processo de impedimento contra o entaão presidente, Clinton. O resultado foi manipulado com perguntas sondando a reação do respondente a denúncias especulativas, como, «e se o Clinton tivesse entregado tecnologia nuclear aos Chineses em troco de doações de campanha?»

Um dos maiores clientes desse Zogby é o Instituto Cato e seu sócio, o Atlas Economic Research Foundation — patrocinadores do Instituto Millenium e inúmeros redes alianças de institutos de pesquisa.que são, na maioria, «blocos de eu sozinho».

Zogby, entretanto, fundou ou Instituto Disocvery, que mora num enorme latifúndio de sites martelando dos conflitos entre fé e a teoria de evolução, e denunciando violações do “liberdade de pensamento” dos que negam o darwinismo, por exemplo.

A ligação mais direta à política brasileira é a afiliação entre Newsmax e o sucursal norteamericano da Tradição, Família e Propriedade. Olavo de Carvalho agora ganhou coluna no Blog Talk Radio, maior foro de quem escuta radialistas da extrema direita norteamericana.

Uma coluna mais recente do autor da matéria sobre Zogby é a resenha de um livro entitulado «A Manufatura de Incerteza». — “como indústrias norteamericanas compraram cientistas para minar fatos comprovados quando estes fatos ameaçavam seu lucro.”

Como fazem? Lavam o dinheiro pelos institutos de pesquisa clientes de Zogby.

As Sombras das Dúvidas

Não consigo achar o nome agora, mas foi uma observadora uspiana das eleições em México de 2006 que fez a correlação entre o empate técnico e a janela de oportunidade para fraude eleitoral. E tinha razão. Aquele eleição foi a repetição de 2000 — empate técnico e um tribunal elegendo o presidente do país.

Nas mídias hispanas nos EUA, uma cobertura farta desse processo, com direito a uma confissão realmente imopressionante de um antigo «mapuche» eleitoral do PRI, que contava em detalhe como o esquema funcionava e continua funcionando.

O Brasil fica especialmente vulnerável à tentação de fraude eleitoral pelo fato, constado no relatório recente pelaa turma de Voto Seguro, de que

Desde 1996, no sistema eleitoral eletrônico brasileiro É IMPOSSÍVEL PARA OS REPRESENTANTES DA SOCIEDADE AUDITAR O RESULTADO DA APURAÇÃO DOS VOTOS. Em outras palavras, caso ocorra uma infiltração criminosa determinada a fraudar as eleições, restou evidente que a fiscalização externa dos Partidos, da OAB e do MP, do modo como é permitida, será incapaz de detectá-la.

Chame-me de parcial, mas o Engenheiro Amilcar Brunazo Jr. continua me impressionando como uma nas cabeças pensantes mais confiáveis e sensatas do seu País.

Tanto depende da fama — não merecida, um artefato da verba de publicidade do TSE — da urrna-E brasileira como uma caixa-preta maravilhosamente inviolável, como alguma vírgem santa.

Os paraguaios, porém, fraudearam uma ao vivo em rede nacional de televisão, e as indicações de fraude em Alagoas em 2006 foram que as máquinas foram simplesmente clonadas e substituidas após o fechamento da votação — a entrega de máquinas ainda sendo feito por carro, com escolta da PM.

A PM que mantêm currais eletorais fazendo bico como empreendedora social armada, no caso das milícias.

Entretanto, deu no DCI Comércio, Indústria & Serviços:

A possibilidade de um empate técnico apontado na pesquisa CNT/Sensus divulgada ontem influenciou a decisão dos investidores na Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa) em relação aos papéis das estatais.

“A maior beneficiada com ascensão do candidato José Serra na pesquisa CNT/Sensus foi a Petrobras. Os papéis da companhia subiram hoje [ontem]”, declarou o consultor econômico da corretora Win Trade, José Góes.

Eu achava essa declaração exdrúxula também.

Na semana passada, o boletim da Agência Dinheiro Vivo, de Nassif, fez um análise prevendo que a maior possibilidade de mudança de governo teria o efeito contrário nas ações.

O homem que seria responsável pelo estatal tinha dito que favorecia o modelo de concessão sobre o regime a ser adotado pelo continuismo, que será de participação nos lucros a ser leiloada, com a vitória indo aos lances menores.

A entrevista alimentava uma onda de boatos sobre uma suposta capa da Veja á vir, denunciando irregularidades na megaoperação — que fez da BM&F-Bovespa de noite para dia uma das maiores bolsas do mundo em termos de capitalizção das empresas vendidas e compradas na sessão de cada dia.

A tendência é de estabilidade dentro de uma volatilidade ondulante.

Vou deixar vocês, os «home brokers», medirem o «rebote do gato morto« da coisa.

Nesse momeno, os papel trocados em São Paulo, PETR3.SF e PETR4.SF, fecharam o dia em baixa — de 1,75% e 0,38%, respectivamente.