WebCitizen: Pravda em Portungluês

Padrão

De certo jeito, a campanha digital desse ano resume-se no diagrama acima, o «fluxo máximo» entre MTV e o Instituto Millenium dentro da amostra de sites fornecida por nossa exploração da rede política brasileira nesse ano eleiitoral.

Realmente, o método vem de longa data. Desde o começo do presente governo, observava-se uma campanha de definir a oposição a esse governo como uma contracultura, pegando carona na postura de rebeldia da cultura pop.

Jamais me esquecerei daquele primeiro desencontro cultural.

Durante um jantar, batendo papo com uma amiga de uma amiga, a gente descobre que temos gosto muito parecido quanto ao bom e velho hroquenró.

No próximo momento, ela está me dizendo que legislação sobre quilombos seria um complôt cubano para instaurar «sovietas de crioullos». De repente, tenho a sensação de estar convesando com integrante do Klu Klux Klan.

Na sua forma mais extrema, é uma cultura de jovens nerds embutida com uma mistura de valores verdes e neoliberais, salpicada com os delirios da FTP e empregando táticas de guerrilha da cultura hacker. Estas ficam justificadas pela sensação aterrorizante de pertencer a uma minoria oprimida branca da classe A — o mito central da revista Veja.

Desde o começo da Guerra Global Contra o Terror, entretanto, tem sido a estratégia dos EUA tentar contrapor a cultura pop às influências que tendem a radicalizar a juventude da Oriente Média. Fala-se em estudos militares disponíveis ao público da «Convocação da Avenida Madison» como parte da estratégia de derrotar os insurgentes, psicologicamente.

Quem resiste o poder de uma de Motown?

Assim, vemos jovens especialistas em «contraradicalização» trabalhando simultâneamente no Departamento de Estado e no MOVEMENTS.ORG, a Associação Para Movimentos de Juventude, como anotei outro dia.

A Rádio Sawa, por exemplo, foi uma emissora nos subúrbios de Washington, administrado pelo Broadcasting Board of Governos do Itamaraty gringo, que misturava os grandes sucessos do pop americano com “notícias” que na verdade eram propaganda clandestina das forças armadas. Segundo estudos apresentandos ao Congresso, a jovem audiência curtia as músicas e mudou de frequência quando começou a propaganda, que ficava irrisóriamente óbvia.

Nosso admirável internauta do dia hoje tipifica esta estratégia e, nas suas relações com vários outros projetos, revela um esquema parecido alvejando o jovem eleitor brasileiro.

Trata-se de Webcitizen.com.br, um blog alimentado por uma nuvem de projetos pela «exportação de democracia» do governo estadounidense.

Como tantos outros projetos desse gênero, apresenta o domínio .br mas mora nos Estados Unidos.

Seu responsável, Fernando Barreto Assunção, consta na lista dos participantes de um seminário da ONU que tomou lugar em Barcelona entre o 21 e 23 de junho desse ano sobre “como engajar cidadãos na gestão de desenvolvimento e na governança pública pela realização das metas de desenvolvimento do Millenio.”

Também representando o Brasil eram pessoas do governo federal, do estadual da Bahia e do municipal de Porto Alegre — além da Fundação Odebrecht. Quase conseguiam conversar com o pessoal da Generalitat de Catalunya, quase que não.

O site mora no Bluehost — fazenda da servidores associado com a igreja Mormon — dizem alguns — mas em qualquer caso notório por hospedar campanhas direitistas-doidas nebulosas e anonimizadas.

Por exemplo, segundo o Washington Post, Bluehost hospedou um site atacando um opositor Republicano do copartidário, o ex-governador Mitt Romney, nas prévias presidenciais de 2008.

Em lugar algum no site foi indicado quem seria responsável por ele, mas uma série de apurações levou diretamente ao site Under the Power Lines, da consultora política de Warren Tompkins, consultor de Romney em Carolina do Sul.

O site é hospedado por uma empresa chamada de Bluehost, na cidade de Orem, estado de Utah. Uma busca sobre o site phoneyfred.org retorna a seguinte informação: “Este domínio ainda está ligado a sua conta politicalnetroots.com como um site adicional …”

Eu morava um ano no capital de Utah uma vez — bem perto da encruzilhada das ruas Igreja e Estado, onde tem um arco misturando símbolos religiosos e patrióticos. O ano será contado no capítulo 13 da minha autobiografia não-autorizada.

Politicalnetroots.com leva diretamente à página principal da consultora de Romney, com Tompkins, Terry Sullivan e Welsley Donehue.identificados como sócios e consultores.

Um latifúndio de faça-clique ideológico do mesmo género é o Red State, já discutido nesse espaço.

Além de tirar sua visão do mundo exclusivamente do Globo e a revista Época — embora uma amostra maior pudesse ter identificada outras fontes — o projeto tem laços com o Global Voices Online, do Centro Berkman, Faculdade de Direito de Harvard, do qual o CTS-FGV é um xerox desbotado.

Patrociniou o Instituto Millenium.

O WebCitizen é «parceiro» do TEDAmazonia, junto com Colmeia, Guia MKT — cliente: Estado de Minas Gerais — e o Banco Santander, além da revista Superinteressante da Abril — aquela com as capas sobre «intelligent design» ….

Colmeia

… é uma empresa de conteúdo e entretenimento digital. Premiada e reconhecida internacionalmente, realiza projetos interativos a partir do tripé storytelling, software e design. Atua em publicidade, a partir de associações projeto-a-projeto com agências, e em conteúdo, entretenimento e serviços, desenvolvendo plataformas de conteúdo e interatividade para empresas como Petrobras e Grupo Santander Brasil. A Colmeia é responsável pela captação e edição de todos os vídeos do TEDxSP.

Sua presença na rede parece ser como um agregador de blogs cheio de reportajabaganda.

Agora, sobre o WebCitizen, quase não dá para perceber que trata-se de uma empresa, com clientes e faturamento e folha de pagamento e impostos de renda e tralha e tal:

Informação muda o mundo, e as novas tecnologias da informação têm o potencial de acelerar essas mudanças de maneira astronômica. A Webcitizen se dedica a explorar esse potencial transformador, a espalhar ideias que merecem ser espalhadas, a semear educação informal, que é hoje talvez a mais importante das educações. O TEDxAmazonia é mais do que “um projeto” para nós: é a manifestação concreta daquilo que acreditamos que deve ser uma “plataforma educacional” no futuro.

Quer dizer: a grana é boa, mais nós fariamos até de graça! A mininimzação do professionalismo faz parte íntegra da propaganda enganosa.

NB: O projeto do site, meio único no tratamento tipogáfico empregado, é perfeitamente igual, artistica e tecnicamente, ao site da Iniciativa Verde, do Abril e ESPM.

Acho que o sistema de gestão de contéudo empregado seja o TypoLite.

Além dos laços ao Global Voices Online e vários projetos relacionados com este e com Harvard, WebCitizen também mantém algum tipo de laço com MediaCloud, empresa de Ethan Zuckerman, ex-USAID, ex-empreteira militar, e eminência parda do centro Berkman.

Mais interessante ainda é este projeto Apps for Democracy, uma mutirão de programação que produz conteúdo político para plataformas proprietárias como iPhone, Facebook e Macromedia Flash.

Mora na Alemanha na rede de 1AND1, embora o responsável ser uma agência digital de Washington, D.C., iStrategyLabs.

A iAgência recebe ampla iCobertura na iMídia.

Especializa-se no marketing à juventude.

O cliente em destaque no momento no sítio da agência é o Exército.

Certo: faz parte do complexo militar-infotenimento.

Quer dizer, nosso exército, que tem recebido críticas nos últimos anos por práticas enganosas de marketing na busca de voluntários — uma vez que alistamentos de voluntários cairam após a invasão do Iraque, quando de repente a possibilidade pela Halliburton virou uma realidade.

Já vimos como o Eleitor2010.com — site de denúncias de crimes eleitorais montado pelo Global Voices Online — utiliza o UShAhIDi, dispositivo de mapeamento supostamente desenvolvido na Quênia com parte do projeto de exportação de democracia àquele país. O dinheiro do contribuinte financiou seu desenvolvimentp por meio da US(h(A(h)ID(i).

Um pano rápido com Yacy, o motor de pesquisa P2P, enumera as referências principais do WebCitizen.

Eu não soube do fato, mas Olavo de Carvalho agora tem coluna no Blog Talk Radio — maior central de zumbido sobre radialistas da extrema direita que há.

Entre os sites na rede de WebCitizen, cruzamos com VoteNaWeb — outro site de política brasileira morando no exterior, e, de fato, da autoria da mesma WebCitizen Consultoria e Producao Digital Ltda — CPNJ desconhecido. Parecee que você tem que pagar a Junta Comercial de Minas para obter essas informações.

Tem outra consultora WebCitizen no estado de Oklahoma — sem relação à nossa.

Pelo visto parece um esquema-pirámide.

O eulembro.com.br é do mesmo cara da mesma agência, descrito em outro resultado de Google como «publicitário divinipolitano» …

…. o publicitário mineiro Fernando Barreto, de 37 anos, sócio da Webcitizen, que desenvolve sistemas especializados em engajamento social pela internet. Seus clientes são órgãos públicos, ONGs e empresas[Quais? Quer apostar que Globo esteja entre eles?] — interessadas em usar a web para mobilizar as pessoas por uma causa, seja ela filantrópica ou comercial.

Fernando Divinipolitano é um bloco de eu sozinho.

Esse moleque criou contas de Twitter para todos seus projetos e anda dialogando consigo mesmo.

Os seguidores do WebCitizen tendem à leitura das fontes de sempre na língua de Shakespeare e Hank Williams.

Vamos chamar isso do «Efeito House M.D.»

A grande visão de uma «cidadania da rede» que transcenderia fronteiras nacionais, culturais e linguísticas — “We are the world / we are the children …” — se reduz à programação dos canais Fox, Universal — agora de General Electric — e MTV, com legendas mambembes ou dublagem irrisória, me desculpem.

Alternativamente, podiamos até chamá-lo do efeito «Pravda em Português».

O jornal russo hoje opina sobre o iminente segundo turno:

É importante indicar ao eleitor que um eventual governo Serra representará um mergulho nas trevas, com direito a TFPs, Opus Dei, Carismáticos e outras denominações legislando o nascimento de um poder assentado em bases teocráticas. Sobre isso deveria refletir uma parcela da classe média.

O editorial de capa é ilustrado com a famosa foto do  candidato empunhando um fuzi de assalto da PM-SP — mirando as lentes da mídia.

Espero que o assessor que permitui aquela foto fosse demitido na hora.

Moral da estoria: muita propaganda está sendo contrabandeada através da Tríplice Fronteira digital.

Talvez o trâfego mais pesado é de propaganda ambientalista.

Tomemos a rede de projetos digitais no Brasil, por exemplo.

No último análise, quais as «autoridades» dessa rede?

Ora, vocês terão que resolver o que significa essa influência sub-reptícia, mas se eu fosse vocês, talvez eu pensava duas vezes antes de deixar um país que acaba de produzir o pior desastre ambiental da história ditar minha política de exploração para o pré-sal.

Tomara que vocês consigam melhorar nosso desempenho, do ponto de vista ambiental.

Se eu fosse vocês, que óbviamente não sou.

Se fosse o suficiente ser «cidadão da rede», eu não teria que aguardar na fila por duas horas para apanhar meu protocolo de RNE, ressentido ao ponto de chorar de raiva com a falta de eficiência da empresa terceirizada que cuidava do processo, lá na polícia federal, quarta-feira.

Bando de patetas. Botem as fichas em ordem alfabética e atendem as pessoas na fila uma por uma, em vez de gritar todos os nomes de 30 a 30 minutos.

Vocês, aliás, jamais moravam no Utah.

Vocês não tem a mínima ideia da profundeza da nossa maluquice — embora aquele série de HBO sobre a poligamia faz um bom começo.