Não Estamos Mais No Kansas: Azenha Sobre Juventude e a Contracultura Digital

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Segundo o ViomundoO PT, o marketing político e a guerra assimétrica — a série sobre marketing político desenvolvido nesse espaço seria um desperdício de tempo.

Em vez de ficar aqui com minha conexão de Net — um modo de acesso compartilhado com apenas uma pequena fracção dos internautas brasileiros —  fumando quem nem maria-fumaça e bebendo baldes de café, eu deveria estar na rua, colhendo panfletas e pasquins e fazendo a antropologia presencial nos «lanhouses».

A observaçao é parecido com algo que o mesmo jornalista, ex-Globo, comentou em 2006, sobre a importância não levada em conta da imprensa nanica regional, segundo um levantamento feito por um amigo dele — comentário que me tornou fã do jornalista.

Agora, como eu também insisto, não estamos mais no Kansas.

Nos Estados Unidos, a infraestrutura da banda larga tornava o acesso praticamente universal. Os vídeos rodavam nas casas de todos os eleitores.

No Brasil isso não é fato. O alcance da rede é menor.

Concordo, embora estar crescendo, fazendo das tendências desse crescimento interessante para quem quiser saber o melhor jeito de aproveitar esse crescimento.

Estava comentando com os amigos gringos dia desses a estranha variabilidade das estimativas sobre a «penetração» da Internet no Brasil, por exemplo

Aqui ô:

Ah, mas existe uma grande diferença no Brasil: as Lanhouses. Na periferia das grandes cidades, as lanhouses são mais que lugares para frequentar a internet. São clubes. Onde os jovens se reúnem, jogam uns contra os outros, checam o e-mail e assistem ao vídeos no You Tube. Uns chamam a atenção dos outros para as notícias que recebem. Quanto mais tosco o vídeo ou mais “bombástica” a informação — verdadeira ou mentirosa –, melhor. É assim que os boatos se espalham como fogo, através dos jovens.

Claro, meu propósito, apolítica na media possível, é outro: estudar o marketing político como o consumidor mais sofisticado de propaganda e marketing em geral.

A indústria brasileira, em franco processo de crescimento, concentração e internacionalização. revela-se pelo jeito de promover os produtos-candidatos.

Nesse sentido, então, o Azenha confirma o que eu estou sentindo: que o marketing almejando uma juventude com crescente poder acquisitivo por meio de um apelo ao «movimentarianismo» tem sido o maior investimento de marketing nessa campanha, especialmente da oposição.

Não dá para apontar uma polarização situação-oposição nesse quadro, porém. As técnicas de marketing político de todas as tendências tem sidos feitas com tecnologia e estratégia de ponta.

A frase seguinte em particular destila em poucas palavras tudo que eu queria dizer sobre o marketing da oposição conservadora como contracultura:

A desconexão que eles sentem em relação aos governos, o ímpeto próprio da juventude, a volatilidade de opiniões, o desejo de subverter a ordem — tudo isso conta.

Bem dito.

Para muitos destes eleitores, não pesa a “credibilidade” da Folha, que eles não assinam. Pesa a credibilidade dos amigos e parentes nos quais as mensagens se originam. É credibilidade por associação a alguém confiável.

O movimento que levou Marina Silva para o segundo turno teve um componente disso. E foi a internet que deu consistência à expressão dele em diferentes regiões do país e especialmente nas regiões metropolitanas.

Quantos comícios Marina fez presencialmente nos lugares em que foi mais votada?

Não sei. Boa pergunta.

O Cordel Artesanal a Estética de Elite

Para além disso, temos outra grande diferença em relação aos Estados Unidos, que é a diferença de renda.

A elite é identificada não apenas por um padrão de consumo, mas estético.

A estética da elite está presente nas campanhas de Dilma Rousseff e José Serra. São formulações distantes, de centros de poder imaginário (Brasília, São Paulo) na cabeça dos jovens, emitidas por meios eletrônicos (TV, internet).

Daí a importância residual, no Brasil, dos panfletos.

A concretude física lhes confere credibilidade.

A palavra escrita, os desenhos e as charges tem um impacto simbólico que não deve ser desprezado. São a linguagem “do povo”, em anteposição à imagem limpa das superproduções, associada à elite.

Muito bem-pensado, aquilo.

Sabem, saí outro dia para uma reunião presencial sobre a venda de nossa casa e na sala de espera, pela primeira vez em muito tempo, fiquei foleando os Folha de S. Paulo e Estadão. Como são bonitos e bem-feitos!

De certa maneira, a estética do novo jornal e a Rede 2.0 — especialidade da consultora Innovation International e seu sucursal brasileiro, a Consultora di Franco — tem virado o meio de aumentar sua credibilidade.

A Veja pratica em certas seções um jornalismo próprio à agitprop de grupos radicais, feito a mão, mais é bonita por caralho, como se fosse a revista Time ou Newseek, e em muitos outros aspectos é até de alta qualidade jornalistica — especialmente no guia cultural das edições Rio e Sampa. clones da revista Time Out.

À mesma vez, na medida que campanhas visando desmoralizar a “velha mídia” são bem-sucedidas com alguns setores da sociedade — dando lugar à estética artesanl do «Eu, A Mídia» — essa sofisticação vira a marca registrada do sofisma.

As pesquisas de mercado — o Trust Barometer de Edelman Worldwide é importante nesse sentido  — mostram que propaganda sofisticada gera desconfiança, e portanto vemos campanhas «guerrilha» propositalmente apresentando uma cara faux-amadora, caseira.

Como observei na nota Teorias de Conspiração e o Análise de Redes Clandestinas, dá para identificar profissionais sofisticados trabalhando propositalmente no modo de samizdat para aproveitar essa confiabilidade que Azenha aponta.

Apontei um caso de midia guerrilheira em Goias,  o caso de Larissa de Morais — uma jornalista com muito moral, ou melhor, muitos morais — que, além de articulista no Observatório da Imprensa e jornalista profissional experiente, também aparece num «samizdat» de Goiás — sob pseudônimo.

Essa tal de Larissa Gonçalves, guerrilheira do samizdat goianiense, consta num exemplar de Revolução em Cadeia com o e-mail larissa.morais@usa.net.

Portanto, essa luta pela autenticidade — pelo moral — entre a estética de profissionalismo e do amadorismo e artesanal, é importante à tentativa de entender o apelo mais importante — tanto no sentido comercial quanto o político: o apelo à juventude.

O movimentarianismo difuso de juventudes é um moinho de vento posicionado para capturar e aproveitar a energia difusa dessa nova geração.

Eu, velho rabugento que sou, continuo insistindo que um fato sólido divulgado pela pixação de um latrine campestre vale mais que uma mentira divulgada na Paris-Match pelo Jean Manzon.

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