O Recuo-Refluxo do Brasil-Juazeiro

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“De pê, cristão brasileiros! Guerra de morte aos que empunham a bandeira vermelha do liberalismo para estancar em nossos almas a fonte perene da fé e entregá-la inerme nos braços de Satanás!” –Padre Cícero, Carta Aberta, 1929

Os jornais mexicanos bombardeiavam a gente com um fluxo quase sem fim de revelações bizarras que — a não ser que você aprendisse a ler com uma alta dose de ceticismo —  deixavam a gente em um estado permanente de agitação. O problema era que a gente não podia simplesmente passar por cima delas. De vez em quando, eram verdadeiras. Ser um correspondente estrangeiro tentando separar a realidade da fantasia bem podia virar uma tarefa frustrante. — André Oppenheimer, Bordering on Chaos (1995, tradução desse blogueiro)

Nas eleições de 2006, acompanhei a minha mulher à PUC-SP para ver como é votar no Brasil.

Tive estado no Brasil durante as eleições de 2002 e até fiquei no mesmo hotel do que o presidente-eleito em Porto Alegre nas vésperas da sua chegada ao Fórum Mundial Social! Tenho fotos comprovando minha presença! Troquei brindes com Genoíno no bar do saguão, sem saber quem ele era!

Na época, o dolar era de R$3.50 e eu vivia como nem um rei.

Em 2006, bem no amâgo da cidade mais desenvolvida do Brasil, a rua estava cheio de santinhos do candidato por um Brasil decente, e havia boca de urna disfarçada por parte de pessoas vestindo narizes de palhaço, incentivando as pessoas a anularem o voto.

Havia uma banca no outro lado da rua onde as revistas da semana já estavam à venda.

Tanto a Veja como a Época, me lembro, estamparam as capas com a narrativa de «um país dividido», enfatizando divisões geográficas as custas de demográficas para apresentar um cenário de equilíbrio desmentido pelas urnas: A oposição levou uma surra de 20 pontos porcentuais.

O infográfico que eu cheguei a ver ontem anoite na Globo apresentou o cenário de dois blocos geográficos consolidados, azuis e vermelhos — os mesmos «dois Brasís» de 2006. Já falava-se do «Brasil dividido». Claro que falava-se. Foi só abrir um arquivo morto e tirar a poeira.

Me lembro do reitor da Mackenzie escrevendo no blog dele, em 2006, que a reeleição de Lula seria um juizo divino por causa dos pecados da oposição, encabeçada por um militante confesso se relutante do Opus Dei.

Na época, a Folha divulgou uma matéria sobre um médium que alegava ter previsto a queda do vôo da Gol na Amazônia.

Duas previsões de Jucelino não se confirmaram: um atentado contra o papa Bento 16, em março do ano passado, e a vitória de Geraldo Alckmin nas últimas eleições presidenciais. Sobre o papa, afirma que o Vaticano mudou a agenda do pontífice. Sobre Alckmin, diz que há uma margem de erro nas premonições e que houve fraude nas urnas eletrônicas.

Essa vez foi de 12 pontos, ou seja, a situação cedeu 4% do eleitorado de quase 100 milhões de brasileiros.

Haverá — seguindo o manual do estilo neocon de Dick Morris e meu bararlho de tarô — questionamentos sobre a lisura do voto, aproveitando casos pontuais de irregularidades na tentativa de levantar dúvidas gerais. Sugiro que vocês confirem as eleições na Quênia de 2006 e o papel do International Republican Institute para ver esse procedimento em ação.

As palavras de Paulo Uebel do IEE e o Instituto Millenium foram claros:

Evidentemente, essa ideia de que a democracia pode tudo é totalmente incompatível com os direitos das minorias. Se fosse aplicada, teríamos uma democracia totalitária. Entretanto, o reconhecimento dos direitos das minorias por si só já anula o entendimento de que a democracia não possui limites … [Quanto à democracia,] não exista um sistema melhor para gerar prosperidade e desenvolvimento humano, [mas] isso não significa que se tenha de aceitar todas as decisões democráticas como legítimas.

Pelo discurso do filme de ficção-científica Dilma 2012, prevejo um movimento paulista-separatista — de inspiração federalista— de discurso senão de ato, nos anos que vem. O movimento martelará no medo de ser vitimizado pelo governo federal, por conta de denúncias, chamadas de espúrias, de corrupção e crimes de colarinho branco contra a ordem tributária.

Morrerá de ironias diante novos casos de polícia nos moldes de Têmis, Pandora e Furacão-Hurricane. Não haverá mais como relativizar o patrocínio político de bicheiros e milicianos, nem nos grotões.

Eliane Tranchesi, em romaria à Terra Santa vestindo traje de luto Gucci, será beatificada pela imprensa paulista. Mas a vitória contundente da situação no Rio e no Minas provocará uma racha no eixo tradicional de uma mídia que ainda nutre esperanças de voltar a um economia política regida pela café com leite.

A cachaça que serviu de combustível às inconfidências dos jagunços antropófagos do Padim Ciço virá combustível renovável do trem-bala. A marca registrada «crise» entrará em crise perante o desejo de normalidade.

Profecias Nem Tão Autorealizadoras Assim

No entanto, é verdade: eu perco minha aposta de que o margem seria igual do que no último pleito — 60-40, que no entanto chegou a ser a margem continuista no Minas e no Rio — e deveria admitir que a campanha anticontinuista conquistou terreno, visto de certo ângulo.

Resta contabilizar os gastos com propaganda por ponto porcentual nacional para ver se se justifique o tipo de campanha que se deu, do ponto de vista de custos e benefícios.

Ainda assim, tá certo, venham reclamar sua cerveja, amigos pesedebistas — muitos dos quais consideram-se Democrata de Truman que nem minha vovozinha! Mas que preparessem-se para ser questionados sobre questões de interpretação de um resultado que ainda deixa pouco espaço para ambiguidades.

No balanço de cidades com população superior aos 200.000 moradores, o estado de S. Paulo fornece um contrapeso equilibrado ao resto do Brasil.

Pelos padrões de paises desenvolvidos, porém, o comparecimento de quase 80% dos eleitores nacionalmente não deixa de ser uma maravilha do mundo moderno e um grande aliviador de dúvidas.

Pessoalmente, se eu peguei uma doença tropical aqui no seu País, seria essa maluquice do voto obrigatório com multas simbólicas, e a votação marcada para evitar dias úteis.

Quantas vezes desisti de votar por estar ocupado demais com o trabalho?

Brasil, Juazeiro e Brasil-Juazeiro

Eu passei suas eleições votando nas minhas — não apresentavam-se escolhas difíceis localmente, apesar de grande empolgação no nível nacional — e relendo o notável livro do jornalista Liro Neto sobre a vida e obras do lendário Padim Ciço e seu aliado político, Floro Bartolomeu.

O jornalista, apoiando-se em documentos secretos do Santo Ofício, aponta uma extraordinária contramarcha por parte da Igreja Católica nos últimos anos quanto ao padre que morreu proibido de ministrar os sacramentos e sob ameaça de excomunhão.

Mas não obstante augúrios de violência política por vir — destacados tanto na mídia nativa quanto na propaganda eleitoral do anticontinuismo — estes não se realizaram, fora fatos isolados.

Mas fatos isolados bastam para levantar suspeitas nebulosas — com fez a revista Veja após fraudes aparentes no estado de Alagoas — com seu punhado de eleitores — em 2006.

Previsão: o trabalho do foro Voto Seguro será redescoberto pela grande mídia, como sempre é quando convir, para apoiar conclusões gerais que o Engenheiro Amilcar — admirável cabeça-pensante santista — jamais endossaria.

Meu palpite é que seria interessante uma leitura do conjunto político nesse momento organizada sob a cabeçada «Brasil-Juazeiro: Avanços e Recuos». O caro leitor pode aguardar um eventual ensaio meu nesse sentido ou pode tomar isso como encomenda de um ensaio terceirizado.

Essa nota do XTREMEPAGEFUCKER.COMG1, quero dizer — por exemplo:

O comitê evangélico de Ana Júlia Carepa (PT), que disputa com Simão Jatene (PSDB) o segundo turno ao governo do Pará, foi atacado a tiros na madrugada deste sábado (30), segundo a assessoria da candidata. O prédio fica no bairro do Umarizal, em Belém. O comitê estava vazio na hora dos disparos. Ninguém ficou ferido. …

… Na madrugada do dia 2 de outubro , um dia antes do primeiro turno das eleições, uma situação semelhante ocorreu no estado. O comitê central da campanha da candidata petista, também em Belém, foi apedrejado por homens armados.

A bolhina de papel e os capacetes dos tucanos cariocas talvez se expliquem pela necessidade de não permitir à situação o posicionamento como vítima de violência política na boa e velha tradição de Brasil-Juazeiro.

Reelege-se governador no Nordeste o filho de um político que baleou um adversário político na plena luz do dia e se safou, emprestando seu nome a um «think tank» partidário. O incidente do balaço não consta mais na biografia do santo pai nas páginas de Wikipedia.

Esse Tal de Mexicanização

Também aprovetei o feriadão para uma releitura do livro Bordering on Chaos — «beirando o caos». com direito ao trocadilho não-traduzível — do jornalista Andres Oppenheimer, sobre a presidência amaldiçoada de Ernesto Zadillo no México, 1994-2000.

A violência política que Lawrence Summers e Bill Clinton achavam ultrapassada — Salinas, formado em Harvard como toda uma geração de políticos latinoamericanos, era o grande campeão da modernidade!  — acabou derrubando os mercados financeiros da região toda, contaminando mercados do mundo inteiro.

O barulho mais interessante que ouvi durante a presente campanha foi a noção de uma suposta «mexicanização» da política brasileira com a perpetuação do PT no poder.

Para mim, foi um momento chave de «samba é rumba» — na minha análise confessadamente amadora e mambembe, o pecado capital das três últimas campanhas de oposição no Brasil.

Elementos chaves da coligação perdedora das eleições mantinham e mantém laços estratégicos quase-explícitos com tendências políticas mexicanas como o PANAL de Esther Elba Gordillo.

De olho no noticiário, faz mais sentido agora falar de um México cujos futurólogos apostaram em uma volta ao passado brasileiro-juazeiro.