O Pós-Voto: Empates Técnicos nos Grotões

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O pior resultado eleitoral no Brasil é o empate. —VS

Um fato interessante sobre as Eleições 2010 foi o número expressivo de pleitos estaduais que acabaram em empate técnico, apesar das margens definitivas para cargos nacionais.

  1. Tocantins | PSDB, 50.52%
  2. Maranhão | PMDB, 50.08%
  3. Roraima | PSDB, 50.41%
  4. São Paulo | PSDB, 50.63%
  5. Acre | PT, 50.51%

Enquanto no São Paulo — onde um voto em bloco PT-PSB podia ter forçado o segundo turno —  essa márgem representa um número expressivo de votos, nos chamados grotôes o caso é outro.

Vitórias que se deram por márgens inferiores aos 3%

  1. Paraná | PSDB, 52.44%
  2. Santa Catarina | DEM, 52.72%
  3. Mato Grosso | PMDB, 51.21%
  4. Goias | PSDB, 52.99%
  5. Sergipe | PT, 52.08%
  6. Alagoas | PSDB, 52.74%

Teria sido legal se o TSE, na divulgação de resultados, tivesse divulgado o voto estadual para os candidatos nacionais.

G1/Globo fornece esses números, não obstante sua apresentação por uma página dinámica que dificulta o acesso, pelo menos em meu navegador.

O cenário parece ser do voto divido entre a situação nacional e a oposição estadual. Isso pode acontecer, é claro. Eu mesmo já dividi meu voto assim, lá em casa.

A chacina de Minas é o exemplo mais nítido: 60% dos eleitores votaram na situação mas elegeram dois senadores da oposição com nomes históricos, Neves e Franco — esse ultímo por meio milhão de votos sobre Pimentel, o terceiro colocado.

Eu, é claro — tal como os mineiros são, relativamente falando — sou cidadão de Kansas.

No caso do “grotões” — peço desculpas aos brasileiros de lá — ainda trata-se de pequenos reinos de Oz.

Não queiramos ser temerários nessa análise, em fim, mas vamos levar em conta essa questão dos “dois Brasis” ditos equilibrados.

A margem estreita entre partidos nacionais de oposição e situação em regiões dominadas pela situação chega a ser levemente surpreendente.

Uma exceção foi Goias, onde o resultado estadual e o resultado nacional —  foram iguais dentro da márgem de erro — 53% e <51%, respectivamente — foram consistentes.

Fora isso, ganhos de governos estaduais pela oposição parecem ir na contramão da tendência geral, que foi de deputados e senadores de menos.

Em Roraima, a oposição nacional teve dois terços do voto enquanto o estado foi vencido por 50%+1, por exemplo. Em Pará, a situação nacional obteve 53.2% do voto enquanto o governo estadual da situação apenas 44%.

No mínimo, podemos prever que as márgens estreitas levarão a processos questionando a lisura do pleito nesses estados, justificados o não.

Assim reza a bíblia de política eleitoral do bom e velho Dick Morris.

Empates técnicos geram uma confusão que bem pode levar os resultados ao judiciário para ser resolvida, como no caso das eleições nacionais de 2000 nos EUA e de 2006 no México.

O diabo mora nas detalhes. Com isso, apenas quero dizer que as pós-eleições costumam ser uma extensão jurídica de lutas políticas no Brasil, embora não receberem a cobertura devida.

Uma vez que essa tendência está sendo utilizada para apontar um «país dividido» — a oposição ofusca perdas no Congresso e aponta ganhos de governos estaduais — a fluidez da situação pós-voto deveria nos interessar.

O caso de Alagoas 2006, por exemplo — acompanhado de perto pelo grêmio de tecnologistas do Voto Seguro — ficou sem definição ainda nesse ano, quando foi reeleito o alvo das denúncias de fraude.

O caso de Maranhão é também exemplar. Apesar de deter uns 2% do voto nacional, o estado tem um enorme peso simbólico por causa da polêmica clã Sarney. Cujo paterfamilias ocupava por tantos anos a coluna extrema-direita da página 2 da FSP, uma vez por semana.

Se a imprensa brasileira tiver marca registrada, seria a preferência desmedida para símbolos às custas do peso real dos fatos.

Esperem ver, portanto, grande publicidade de casos nebulosos nos grotões em uma tentativa de levantar dúvidas sobre um resultado nacional razoavelmente contundente.

No mínimo, podemos considerar a situação como um teste do jornalismo de TI no Brasil.

Com cadernos de TI lotados com notícias sobre o iPhone e as redes sociais, o assunto grita para uma melhora profunda.

Por isso, eu pretendo acompanhar os trabalhos do Voto Seguro — agora presente em todas as redes sociais! — durante essa temporada pós-voto.

Se eu tivesse que escolher um único exemplo de um jornalismo-cidadão que compensa as deficiências gritantes da imprensa profissional e comercial, bem podia ser esses engenheiros-jornalistas — brizolistas levantando a bandeira de caso Proconsult, em muitos casos — e seu projeto de muitos anos de comunicar com clareza as complexidades do assunto para todos nós.

Política aparte — e o grupo critica os partidos políticos sem favoritismo exagerado nessa questão — eu acho isso um projeto admirável e digno de imitação.

Sobre “um Brasil dividido” eu lembro vosmecês das capas da Época e Veja que eu vi na banca de revistas enquanto acompanhei a minha mulher ás urnas em 2006, numa rua afogada por santinhos ilícitos e com boca de urna mal-disfarçada pedindo o voto nul, em pleno bairro nobre, São Paulo, SP.

Tenho uma foto em algum lugar aqui, mas vocês lembram, né não?

Alckmin e Lula numa capa divida pela metade com texto promovendo a mesma noção do “Brasil divido” — preparada de antemão e portanto não levando em conta o resultado contundente, de 20%.

Portanto, fecho colando, com uma sem-vergonhice total — estando como a preguiça de sempre — as obervações bem articuladas do Biscoito sobre

… a cantilena do “país dividido”, reforçada por um enganoso mapa em que o Brasil aparecia separado entre estados azuis e vermelhos. Acompanhado por uma série de bizarras declarações de figuras como W. Waack (“a imprensa criou o mito de Lula e ele se voltou contra ela, ingrato”) ou do inacreditável Merval Pereira (“Dilma deve saber que a oposição teve uma votação muito alta”), o mapa cumpriu o papel de sugerir uma divisão que absolutamente não existe: Dilma venceu com larga margem (12%), que em qualquer democracia presidencialista qualificaria como um sacode-Iaiá. Basta lembrar que na categórica vitória de Obama sobre McCain a diferença foi 52,9% a 45,7%, pouco mais da metade, portanto, da diferença imposta por Dilma a Serra.

“Sacode-Iaiá” não sei — adjetivos devem ser evitados — mas decerto houve poucas ambiguedades.

Como apontou Alexandre Nodari no seu Twitter, a divisão por estados peca por impor ao Brasil um modelo que é essencialmente estadunidense, baseado no princípio de que o candidato vencedor num determinado estado leva todos os seus votos a um Colégio Eleitoral, numa eleição que é, para todos os efeitos, indireta. No Brasil, como se sabe, o presidente é eleito por sufrágio universal, e nele a ideia de estados “vermelhos” e “azuis” não faz o menor sentido. O mapa do Estadão, colorido por municípios e com várias gradações de azul e vermelho, esse sim, serve a um estudo sério, já iniciado pelo Fabricio Vasselai.

Concordo.

É assim, por exemplo, que minhas ferramentas preferidas, fazendo o mapeamento estatístico do grau ou centralidade estratégica de relacionamento em redes de citação, apresentam os dados: como graus intermediários de cinza entre preto e branco.

Aliás, as eleições nos EUA dessa semana testemunham a tentativa da oposição de pintar a vitória de Obama em 2008 de um desequilíbrio descomunal — uma surra eleitoral!!!! — para engendrar a percepção que agora deve-se eleger um congresso de contrapeso a “tentação autoritária” dos Democratas.

Eu, entretanto, sou aquele eleitor “do bolso” do qual estou ouvindo falar coisas ruins na imprensa nativa agora — supostamente o índice de baixa escolaridade.

Um comentário sobre “O Pós-Voto: Empates Técnicos nos Grotões

  1. tomascarvalho

    Ola Colin, sou editor de uma fanzine de cultura contemporanea e gostaria muito de conversar com voce.

    Nao encontrei seu contato no blog, acompanho ha um tempo.

    Onde consigo seu email?

    Um abraco.

    Tomas

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