Enquanto Isso, Lá em Casa

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Destacando uma virada estarrecedora no que trata da transparência de doações políticas nos últimos anos, o presente relatório documenta o fato de que dois-terços dos gastos de terceiros com comunicações sociais nas eleições de 2010 não divulgam donde veio o dinheiro.

Enquanto isso, lá em casa, dinheiro anônimo — possibilitado pela determinação do Supremo Tribunal ainda nesse ano de que doações anônimas são protegidas pelo princípio da liberdade de expressão — está sendo apontado como fator relevante na virada que retornou a Càmara às mãos da oposição. .

Acima, o Public Citizen — «cidadão público» — testa a hipótese de que, após a liberação de dinheiro anônimo provindo de fora dos distritos eletorais, haveria uma correlação maior entre vitorias e o dinheiro gasto por terceiros “independentes” em campanhas de apoio indireto.

Esse tipo de gasto alcançou mais que $1 bilhão, segundo estou lendo. E segundo o PC, houve uma correlação significativa em vitorias de ambos os lados.

A reportagem é de Michael Issikof da revista Newsweek e a rede de televisão NBC.

Uma campanha cuidadosamente orquestrada por grupos Republicanos, liderada pelo marqueteiro politico Karl Rove e alimentada com decenas de milhões de contribuições anônimas feitas por fundos de capital de risco e outros doadores ricos, ajudou a assegurar a grande vitória do partido nas últimas eleíções.

Liderando os gastos foram dois grupos — American Crossroads e seu afiliado, Crossroads GPS — ambos estabelecidos por sócios egressos da Casa Branca de George W. Bush: Karl Rove e Ed Gillespie.

Juntos, os dois — que não são, tecnicamente, parte do partido — gastaram uns $38 milhões em propaganda negativa e panfletagens pelos correios, segundo a fundação Sunlight, grupo apartidário que acompanha gastos de campanha.

Grande parte do dinheiro gasto pelo Crossroads GPS veio de um círculo pequeno de barões do setor financeiro, entre capital de risco e «private equity», segundo fontes dentro do partido Republicano que falaram sob condição de anonimato.

Estes doadores são figadalmente contrariados pelo projeto de lei, proposto pelos Democratas na Câmara — proposta apoiada pelo presidente. aliás — para aumentar os impostos sobre a compensação paga aos sócios desses fundos.

Quer dizer que se você morava, digamos, na cidade de Fargo, Dakota do Norte, e seu deputado estava em favor de uma medida contrária aos interesses particulares de  quem mora nos Hamptons, na Ilha Comprida de Nova York — os vizinhos do Grande Gatsby — estes podiam trabalhar para a derrota do candidato.

Se for o caso que o eleitor podia saber do patrocínio e o jogo de interesses, tudo bem.

Talvez alguns eleitores de Fargo enxergariam algum benefício na aliança com capital de risco.

Sem a divulgação do patrocínio, porém, não haverá como debater o assunto, que permanece na moita. Carbonários enraivecidos do Tea Party acabam alinhados com os inovadores das hipotecas podres das quais são as maiores vítimas.

Posso testemunhar pessoalmente o quanto é chato ser eleitor em un distrito que atrae a atenção dos partidos nacionais.

Segundo um levantamento feito pela NBC, o bombardeio de propaganda aparentemente deu certo. Candidatos apoiados pelos grupos ganharam 9 das 12 eleições do Senado e 14 de 22 eleições da Câmara onde os dois grupos gastaram dinheiro.

O fato foi motivo de orgulho nessa quarta-feira, quando os grupos comemoravam seu papel decisivo nas eleições.

Resumindo, a campanha foi possibilitada pela determinação do Supremo Tribunal. Ambos os partidos aproveitaram, mas os gastos foram desiguais.

Houve uma polarização partídaria expressiva entre gastos pelo patronato e os setores anarcoliberais e gastos pelo sindicalismo — algo que não era o caso antigamente.

Como sindicalistas previam, e como foi argumentado contra a determinação do Supremo Tribunal, os gastos dos setores mencionados foram múltiplos expressivos dos gastos pelo sindicalismo — um movimento em franco declínio no país, aliás.

A reportagem da NBC continua, na minha tradução.

O resultado foi que as redes de televisão e rádio transbordavam com milhões de dólares de propaganda agressiva paga por doadores escondidos. Dos quase $300 milhões gastos por ambos os partidos em propaganda eleitoral, 42% foram financiados por doadores não-divulgados, segundo um estudo do CRP, o Centro para Política Responsável.

O Public Citizen explica o critério pelo qual definiu propaganda tecnicamente apartidária — aproveitando brechas no código tributário — como partidária.

Propaganda “independente” foi considerada propaganda partidária se criticava o opositor ou elogiou o candidato.

Faz sentido, né não? Segundo esse critério, não são contabilizados as campanhas “ideológicas” tipo “liberdade de expressão” ou “contra o socialismo” … a «assuntologia» dos «institutos de pesquisa» …

Os maiores patrocinadores dessa propaganda no lado dos Republicanos, fora os grupos de Rove, foram o Chamber of Commerce ($31 milhões) e a American Action Network ($14 milhões), segundo a Sunlight apurou. Nenhum dos dois divulgaram a identidade dos doadores.

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Continuando a reportagem …

Grupos independentes do lado dos Democratas tentaram colar da campanha oposta, mas foram goleados.

America’s Families First Action Fund, grupo parecido com os Crossroads estabelecido por antigos estrategistas do partido, só foi organizado em julho desse ano e gastou aquem de $5.5 milhões — $1 milhão do qual veio de uma ONG afiliado que não divulga os nomes de doadores, ainda segundo a Sunlight.

Os maiores terceiros doadores aos Democratas foram sindicatos como a AFSME ($10.7 milhões) e o SEIU ($10 milhões).

O FactCheck.org, entretanto, contabiliza o tipo de propaganda paga por grupos de anônimos covardes.

A propaganda agressiva — attack ads — e a desinformação que a acompanha, continua enchendo as rede abertas de TV e rádio.  Gastos com propaganda nesse ano eleitoral chegarão aos $3 bilhões, segundo Evan Tracey, cujo Campaign Media Analysis Group, do grupo  Kantar Media, acompanha propaganda eleitoral em rede nacional. Os gastos ultrapassaram o recorde dos $2.7 bilhões gastos em 2008 – ano de eleições nacionais, que costumam consumir muito mais recursos.

Temos a opção pelo financiamento público de campanhas, sim, mas vêm com condições que fazem com que vira uma proposta pouco atraente; os partidos sempre optam pelo contrário.

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