Os Hifenizados

Padrão

Embora eu não ter cidadania brasileira, tenho o direito de ficar aqui com minha mulher paulistana-dondoca de nascimento– direito agora divulgado até no Diário Oficial.

A orientação do consulado é que eu deveria respeitar a legislação do País — a qual, que eu consigo saber, me impede de pedir o voto para determinados candidatos ou partidos.

Em compensação, gozo dos direitos humanos garantidos pela Constituição de 1988 — entre eles, a liberdade de expressão.

Concordemos: por enquantos, vocês — a não ser que seja seu antigo Ministro do Futuro — não sabem nada sobre nossa política, e vice versa.

Posso, por exemplo, opinar sobre se a legislação seja contrária a esses direitos. Em minha opinão, o Programa Nacional de Direitos Humanos brasileiro levanta assuntos inéditos na nossa vida política nacional — por não termos passados, ainda, por um ditadura militar, por exemplo, assim como pela especifidade da Constituição de 1998.

Entrentanto, lá em casa, a legislação garante aos cidadãos com dupla cidanania o direito de se opinar sobre assuntos políticos no país de origem.

O assunto assimiu dimensões inéditas nesse ano eleitoral quando o presidente Obama lamentou a suposta influência indevida de recursos estrangeiros.

Não custa muito decifrar a mensagem: o maior lobby de um governo estrangeiro advoga pelos interesses do estado de Israel. O caso do agente do FBI que passou informações sigilosas a um lobista pro-israelense — que as passou ao Mossad, a ABIN israelense — é de conhecimento geral.

Assim, a proposta entrada de Turquia na Comunidade Europeia vira assunto doméstico, uma vez que o governo de Israel trabalha no sentido de evitar a entrada de um país musulmano na comunidade.

Segundo colocado: latinoamericanos em exílio, liderados por hifenizados cubanos.

A campanha resume-se no subdomínio de samizdat digital

DIRTY.ARABS.PAJAMASMEDIA.COM

Após os atentados de 2001, vimos o crescimento de ativades de lobby por parte da comunidade árabe e musulmana nos EUA — que tinha votada em bloco para os Republicanos nas eleições de 2000, principalmente por causa do conservadorismo social do partido.

A campanha contra “árabes sujos” deste latifúndio de samidzat digital do movimento neoconservador tem como alvo principal o CAIR — sigla em inglês do conselho sobre relações entre os EUA e o mundo musulmano.

Com a forte participação dos exiliados e hifenizados brasileiros nas eleições desse ano no Brasil, pode-se dizer, no mínimo, sem entrar nos méritos de tendências políticas, que esta é uma questão de governança que nossos países têm em comum.

O caso apresentado pelo Sunlight Foundation Reporting Group, a seguir, levanta outra pergunta importante: se o respeito à verdade deveria impor limites sobre a liberdade de expressão.

Quem disser que nós gringos não os imponha está promovendo mais um mito “assim se faz no Gringolândia” sobre a gente.

O caso:

Embora Jean Schmidt não integrar a comissão responsável pelo relatório sobre uma resolução que definiria como genocídio a massacre de armenianos pelo governo turco, ela é nitidamente a menina dos olhos da comunidade turca nos EUA.

Recebeu $18.450 de três PACs turcas desde 2007, muito mais do que congressistas com muito mais antiguedade, e duas vezes do dinheiro recibido pela segunda colocada, Virginia Foxx, cujo genro é turco.

Uma lista de eventos da Turkish Coalition USA PAC mostra que a organização montou vários eventos que angarariam fundos de terceiros para a campanha de Schmidt. Entretanto, quatros chefes de PACs turcos doaram $8,700 como individuos à campanha de Schmidt.

Agora, o fiscal estadual de eleições do Ohio deve determinar se a propaganda da opositora, Krikorian, tivesse razão quando descreveu as PACs pró-turco como “patrocinadas pela Turquía.” A denúncia por afirmações falsas contra Krikorian segue a censura do fiscal contra a campanha da Schmidt por causa da “desconsideração temerária da verdade” — reckless disregard for the truth.

Lobistas registrados do governo de Turquia, entre eles o antigo deputado federal Bob Livingston, já fizeram mais que 2.260 contatos com legisladores — uma campanha inédita contra uma resolução que definiria os eventos do século passado como genocídio. Embora isso, porém, os grupos de lobby não têm nenhum laço direto com o estado de Ohio.

O presidente do referido PAC escreveu na época de que um onda de lobby armeniano teria levado à resolução, que ele chama de uma medida “bizarra” visando fatos de um século atrás no defunto império turco, “apesar das innúmeras falhas no argumento histórico.”


Disse que o lobby armeniano gasta $40 milhões por ano na tentativa de fazer valer a resolução.

O “caucus” turco-americano no Congresso, formalmente instituido, abrange 124 congressistas de ambos os partidos e inclui o Jesse Jackson Júnior, filho do líder do movimento para direitos civis e deputado do estado de Illinois, donde surgiu o Senador Obama.

Eu não consigo confirmar esta afirmação sobre a influência armeniana, num primeiro momento — acima.

A onda milionária armeniana não verifica-se, embora a nacionalidade marcar forte presença, por exemplo, no estado de California, onde dominava o agronegócio do Vale Central durante a segunda metade do século passado. Um autor armeniano-californiano, William Saroyan, já foi consagrado como um dos romancistas mais importantes da literatura nacional.

Na cidadezeinha suburbana onde eu cresci, uma familia armeniana, os Andonian, tomavam conta da colheita de lixo.

Em depoimento, Schmidt disse aos advogados de Krikorian que não podia lembrar detalhes de todas as conversas que mantinham sobre financiamento de campanha e assuntos legislativos. Disse não ter ouvido falar da massacre de armenianos antes que a opositora — de ascendência armeniana — levantou o assunto. Disse também que ainda não resolveu como votaria na resolução, se esta chegar a ser votada.

A situação está complicadíssima, dado o apoio do governo federal à autonomia dos kurdos no Iraque, por exemplo. O nacionalismo kurdo reinvindica estado próprio — e posse soberano de recursos naturais — em terras que pertencem hoje ao Iraque e à Turquia.

Essa pretensão já serviu de estopim para uma onda de violência sectária sob noss vice-reino no país vizinho.

Também persiste o ângulo geopolítico morto-vivo da Guerra Fria, quando os misséis norteamericanos no páis chegaram a ser removidos em troco da remoção de mísseis soviéticos na ilha de Cuba.

Em fim, o modelo de governança lá em casa no que trata dos hifenizados pode ser resumido assim

  1. Cadastro e divulgação de lobistas no serviço de governos estrangeiros
  2. Cadastro e divulgação de lobistas no serviço de empresas sediadas no estrangeiro
  3. Doações apenas por cidadãos e imigrantes com cartão verde (pessoas físicas a PACs)
  4. Direito à militância política no país de origem, en tese sujeito à legislação vigente do mesmo

É isso: segundo o OpenSecrets, se o Brasil seguisse o modelo norteamericano, com o carimbo no meu passaporte e o RNE nos correios, eu podia doar a uma campanha política brasileira se eu quissese.

Não quero. A Economist pode ter razão, que um ou outro candidato faria o melhor governo — para os leitores da Economist, disponível no Brasil em tradução aos leitores da CartaCapital, que também toma partido.

Proponho a concordata seguinte: eu abro mão desse direito, se bem que exista, e em compensação concordo com a revisão inmediata do visto de trabalho de Olavo de Carvalho.

Mão-de-obra filosófica não falta. O mercado doméstico está saturado no momento, na verdade, e piorando.

O argumento de que se tratasse do asilo político de uma minoria perseguida também não procede, no meu ver.

O autor sempre gozava de farto espaço nas páginas do Folha de S. Paulo.

Os Diários de Turner

Desde o 11 de setembro, eu fico meio sensível quando da política de portas abertas a vários tipos de radicais — desde compradores de armas do cartel de Sinaloa até a brasilianização da nossa extrema-direita nativa.

O maior lobby de peso com ligações tropicais perante o Congresso de Tio Sam é a belga-belindiana InBev.

O surgimento da multinacional brasileira começou faz pouco tempo com a Swift & Co., agora do megafrigoríco JBS.

A vaca morta belindiana está virando a ARAMCO da picanha — corte que não temos lá em casa, fora alguns restaurantes argentinos, mas que não faria mal, a introdução dela.