O Método Fé Pipoca e o Antijornalismo Orgulhoso

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ATUALIZE-SE OU MORRA!

Eis o tema do «segundo blog brasileiro por influência» é o «maior coletivo não-jornalistico do País».

Como eu estava comentando com o leitor gringo mon semblant hoje, eis mais um caso nítido do método Faith Popcorn, descrito em anotações anteriores.

Os colaboradores do blog são “consumidores obsessivos da vida” — gente que nem a gente.

Ofuscado é o fato dos colaboradores serem profissionais de propaganda. Mas este fato fica meio óbvio sem grandes aprofundamentos.

Num primeiro momento, um projeto gráfico que lembra o estilo de times de beisebol denuncia o desencontro cultural do qual a campanha pretende fazer uma virtude.

O fundador do projeto é o «profissional de criação» Wagner Brenner

O projeto seria uma «empresa-movimento».

Somos uma empresa de updates. De gente.

De marcas.

De empresas.

Update or Die é, antes de tudo, um movimento, um manifesto que celebra a inovação e a constante atualização pessoal através de exemplos da verdadeira criatividade que se manifesta diariamente no planeta e que provoca e estimula o comportamento através do exemplo e não do discurso teórico.

Os malabarismos semânticos de sempre são empregados para evitar o bom é velho «recebemos para promover os produtos de nossos clientes com comunicações sociais divertidas e criativas».

Ou seja, «somos uma agência de propaganda qualquer com clientes X, Y e Z e uma tabela de preços» — o equivalente funcional exato do bom e velho PR Newswire ou PR Web, só que embrulhado em uma algazarra de discurso para doi dormir.

A aposta é que, com um condicionamento adequado, o consumidor de informações não ligará mais para questões como  «donde veio o dinheiro?»

Como disse uma vez o Richard Edelman — abra a boca; insira o pé — este consumidor não sofrerá mais de um «medo ultrapassado da propaganda, herança maldita da Segunda Guerra».

Textualmente.

Como é comum nos mais variados projetos do «jornalismo de inovação», este depende da percepção de um suposto crise no jornalismo técnico — o mito d«a morte do jornalismo tecnológico criterioso».

«O jornalismo investigativo já morreu, por ser caro demais».

Não é bem assim, ainda se você tenha que mergulhar no submundo dos sebos para conseguir dados na contramão desse mito, aqui no Brasil..

Não é por ocaso que foi a Faith Popcorn, no Dicionário do Futuro, que cunhou a frase «o consumidor-vigilante»

Definindo-o como o inimigo mortal de propaganda pós-moderna — um inimigo a ser reprimido de qualquer jeito.

Tudo que já foi velho é novo de novo

Na verdade, a “atualiza-se ou morra» trata-se de uma campanha de longa data, voltando à tona agora que seu governo novamente eleito promete reformas no regulamento do setor de informática.

Eu estava lendo últimamente um livro muito interessante sobre este assunto, ganhador do Prêmio Jabuti de 1989:

Vera Dantas, Guerrilha tecnológica: A verdadeira história da Política Nacional de Informática | São Paulo: Livros Técnicos e Científicos Editora Ltda., 1988

Um trecho significativo, datilografado à mão por mim:

Nas eleições de novembro de 1982, o distante e atraso estado de Mato Grosso do Sul enviou para o Senado Federal, pela legenda do partido governista, o embaixador Roberto Campos. Desde que ajudou o presidente Juscelino a montar seu Plano de Metas e formou o primeiro grupo de trabalho para estudar uma política para computadores, Campos cumpriu uma longa e coerente carreira, sempre defendendo a total abertura do país aos investimentos estrangeiros, a não intervenção do estado na economia, o alinhamento incondicional do Brasil aos Estados Unidos.

Da tribuna do Senado e em artigos nos jornais, passou a liderar uma campanha contra a informática brasileira. … em um época em que a sociedade em que a sociedade brasileira abria caminho para conquista a conquista da democracia, a SEI constitiu-se em alvo sob medida: a política nacional de informática foi denunciada como uma criação de coronéis do mal-afamado SNI.

Os argumentos de hoje em dia não são muito diferentes, segundo várias matérias sobre a questão resumido pelo Nassif hoje sob a manchete «A compra de equipamentos nacionais pela Telebras».

Por exemplo,

Para a multinacional francesa Alcatel-Lucent, a exigência de que 100% da fabricação seja feita no Brasil restringirá o acesso a produtos mais avançados. Além disso, diz, parte dos equipamentos solicitados pela Telebrás já está obsoleta.

Noutras palavras, atualize-se ou morre.

Entrentanto, a questão de segurança nacional também entre o debate de novo:

Para o presidente da Telebrás, Rogério Santanna, o uso de tecnologia desenvolvida no país impedirá que a rede “tenha portas” que exportem informação estratégica para outros países.

Segundo o executivo, a estatal não pode correr o risco de ficar à mercê de “um serviço de espionagem”.

Poxa! Uma certa franqueza inédita está aparecendo desde a vitória do continuismo ainda nesse ano.

A campanha contrária se encaixa muito bem, aliás, na campanha geral, “um governo socialista com políticas nacionalistas de desenvolvimento econômico é nacional-socialista.”

Vangardismo Emocionante

Em fim, o interessante nessa campanha de “diplomacia pública” é o apelo emocional — nesse caso, o incentivo a um sentimento de orgulho por ser um

  1. Não-jornalista
  2. «Early adopter», ou seja, o primeiro usuário de tecnologia de ponta

Parece pegar carona na má fama do jornalismo nativo, num primeiro momento — uma imprensa que, na verdade, se já contou com um jornalismo técnico premiado de ótima qualidade — Vera Dantas — não conta mais — o caderno LINK do Estadão.

Gente que nem a gente em queda. Fonte: Edelman Trust Barometer 2010.

Reportajabaganda somos nós.

Quer dizer que, no momento de divulgar, devidamente, o fato de ser antijornalismo, pretende despertar uma emoção positiva.

Propaganda clandestina de «gente que nem a gente» do nível mais baixo de sofisticação.

Existe uma literatura acadêmica extensa sobre essa estratégia visando a «desintermediação do jornalismo tradicional».

Se quer saber mais, é só fazer um googlez-vouz no Google Acadêmico.

A Vanguarda Digital

Pega carona também na “curva de adopção” frequentemente invocada pelo marketing de tecnologia de ponta — acima..

Fica usada na promoção de uma estratégia de “obsolescência planejada.”

Sua mensagem fundamental é resumível como

“Só com tecnologia de ponta pode-se consumir as redes sociais.”

Essa mensagem é enganosa, do ponto de vista tecnico.

Quando o Twitter entrou com o Novo Twitter, por exemplo, o dispositivo de Flash que tenho instalado deixou de funcionar.

Fui convidado mais uma vez a “atualizar meu Flash” — ou morrer

Ou sofrer a morte social de não poder passar por alto de 3.000 «twits» — inglês para “idiotas” — por dia.

Na verdade, estou cada vez mais feliz com um cliente de Twitter que roda na CLI — linha de comando.

Chama-se TWIDGE.

Não consigo entender porque seria necessário um sistema sofisticado para o consumo de animações avançada, só para engolir doses homeopáticas de 140 toques de texto simples, em ordem cronológica.

Alhos e Bugalhos: Beta e Alfa

Segundo meu texto sobre a ARS Magna, entretanto — meu guia ao uso da Pajek na Análise de Redes Sociais — este papel não costuma determinar a adoção generalizada de inovações por si só.

O exemplo dado é de novas técnicas de cirurgia e sua taxa de adoção nos anos 1950, medida pela rede de citações em jornais técnicos relatando o primeiro uso dessas técnicas.

Eu me considero um usuário ora alfa, ora beta.

Tem uma diferença que fica ofuscada por campanhas desse tipo.

Fui um dos primeiros blogues independentes do sistema Moveable Type, por exemplo — hoje a base do serviço Typepd —  e por ter adotado o Ubuntu Linux logo no começo, com a versão Anta Agitada ou que seja.

Minha inspiração — como foi de muitos companheiros amigos do Pinguim formados em poesia — foi o livro E no começo havia a linha de comandos, do romancista Neal Stephenson.

Acabei sofrendo tudo aquilo que vem junto com a adoção ainda na fase preliminar.

Em compensação aprendi bastante.

Agora, no entanto, abandonei o «distro» Ubuntu e voltei ao bom e velho Debian, por questões de compatibilidade com os recursos físicos da minha máquina.

Acabo de atualizar meu sistema.

Pela enésima vez desde que migrei para o Debian Lenny, não morreu!

Se eu pudesse dizer o mesmo do Ubuntu, eu ainda estava dentro. Se as coisas melhorarem, me informe.

Não preciso das interfaces graficamente sofisticadas do GLX e compiz.

Prefiro alocar os recursos adicionais do meu sistema atual — com os 8 GB de RAM, posso aproveitar a versão «bigmem» gora — a tarefas mais intensivas de computação avançada.

Como, por exemplo, o analise de redes sociais, muito alem do mero consumo delas.

Por isso mesmo, eu fiquei sabendo que as promessas de que você pode juntar-se à vanguarda digital sem conhecimento fundamental sobre os elementos da informática são geralmente falando enganosos.

Se vai manter um site independente, tem que ficar sabendo de FTP, pelo menos.

Nenhum usuário de Linux manterá sua higiene mental por muito tempo sem o conhecimento de «teclagagens mágicas» tal como Ctl-Alt-Bkspc — matando o servidor gráfico X — e a toda-poderosa

Ctl+Alt+SysRq+B

Queira ou não, cedo ou tarde, você vai ficar sabendo o que significa cada linha do nhemnhemnhem que antecede o lançamento da interface gráfica.

Em compensação, você vai aprendendo, gradativamente, como fazer o diagnóstico da sua própria máquina.

Mais importante ainda, você acaba passando por toda uma socialização pela comunidade de usuários e programadores.

Este processo não admite atalhos, quaisquer que sejam as promessas dos profissionais de criação.