Os Admiráveis Novos Reportajabagandistas: Vincent J. Breglio

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Michael Deaver, o marqueteiro do presidente Ronald Reagan nos anos 80, costumava dizer — para desespero dos jornalistas que eram setoristas na Casa Branca — que não se importava com o texto das reportagens de TV sobre Reagan, desde que ele controlasse as imagens. E ele controlava. As aparições de Reagan eram milimetricamente organizadas para ressaltar o melhor ângulo, a melhor luz e um cenário que reforçasse as palavras do presidente.

Azenha acertou com essa leitura do marketing político à la americana entre Ronald Reagan e George W. Bush ibn Bush.

Curiosamente, o septuagenário era vendido como um jovem a energizar um país que lidava com a sindrome da decadência relativa. O “vigor” de Reagan não derivava de seu estado de saúde (ele tinha enfrentado vários problemas, inclusive câncer de pele), mas da associação do presidente aos caubóis míticos do Oeste. Sempre que aparecia em seu rancho Reagan tinha nas mãos alguma ferramenta a sugerir que estivesse preparando terreno ou cortando lenha. Em viagens para o interior, dava entrevistas ou fazia discursos cercado por fardos de feno. Usava chapéu, botas, cinturões e a camisa de flanela xadrez dos interioranos.

Lembra as bombachas do bom e velho Getúlio, não lembra? Eu estava relendo o livro do historiador Hélio Silva — 1954 — recentemente sobre o encontro histórico com Samuel Wainer.

Não deve ser esquecido o problema de saúde mais importante do presidente — o Alzheimer’s.

Deixei um comentário na nota do jornalista, ex-Globo e agora Record, querendo fortalecer a comparação.

Na verdade, o principal arquiteto da imagem de Reagan, desde que era governador do estado de California nos anos 1960s — quando tentou esmagar o movimento de liberdade de expressão dentro da Universidade de Califonia — era o Richard B. Wirthlin.

Wirthlin é uma figura com laços mais diretos à temporada eleitoral desse ano no Brasil.

Foi fundador da consultora Wirthlin Worldwide, adquirida em 2004 pela Harris Interactive. Continuava na chefia da agora divisão da Harris até 2007, quando se aposentou.

Em anos recentes, Wirthlin Worldwide foi contratada pelo Atlas Economic Research Foundation, uma incubadora de «think tanks» — institutos de pesquisa — pregando o evangelho de Ayn Rand.

Era para Wirthlin coordenar as atividades internacionais da fundação.

Esta, e vários dos seus avatares — RELIAL, OrdemLivreCato — foi um patrocinador direto do congresso do Instituto Millenium sobre liberdade de expressão.

Contrado pela Atlas como diretor de iniciativas no estrangeiro foi o vice-presidente executivo e chefe de equipes internacionais da Wirthlin, Vincent J. Breglio, veterano das campanhas de Reagan em 1980 e 1984.

Breglio acumula — o acumulava — o papel de consultor ao ínfame Lincoln Group, segundo SourceWatch. Esta fonte às vezes anda meio desatualizada, seja dito. Sobre este grupo:

Em novembro de 2005, o grupo foi denunciado por ter corrompido jornais iraquianos, que divulgavam artigos e editorais escritos por militares estadounidenses sem divulgação da fonte.

Em março de 2006, uma investigação desse programa de propaganda clandestina, presidida pelo almirante Scott Van Buskirk, foi concluída mas não divulgada.

Segundo fontes dentro das FFAA, “O caso foi julgado seguindo critérios estreitamente técnicos. Foi concluido que o Lincoln Group não cometeu delitos. Isso porque o pagamento de propinas para inserir matérias escritas por militares do grupo de operações psicológica não era proíbido explicitamente, nem pelo contrato nem pelas regras das FFAA.

O relátorio deixou de investigar, segundo SourceWatch, “como uma empresa nanica e jovem, embora com boas conexões políticas, conseguiu contratos daquele tamanho.”

Tampouco explicou como, “num mundo moderno interligado por satélites e a Internet, essas informações enganosas podem facilmente migrar do mercado-alvo aos veículos da imprensa norteamericana.”

Essa última questão contribuiria em parte à queda do Secretário da Defesa, Rumsfeld.

Este determinou que se a intenção da referida propaganda clandestina não era contagiar a imprensa nacional — existe legislação expressamente contra isso — as Forças Armadas não podiam ser responsabilizadas por este “efeito colateral” …

Se você plantasse uma matéria na rede Al-Hurriya e esta chegasse a ser repercutida pelo New York Times, não seria com Rumsfeld. Caveat lector.

Na mesma época, o governo Bush foi denunciado pelo CGU de lá — o GAO — por duas campanhas de propaganda clandestina doméstica.

Produziu matérias jornalísticas pagas defendendo políticas do governo.

Estas foram divulgadas por veículos de notícias sem atribuição à fonte.

Como costumamos dizer, praticava a arte da «reportajabaganda».

Em 1969 Breglio foi sócio-fundador da Decision Making Information, mais tarde a Wirthlin Worldwide, junto com Richard Wirthlin.

Segundo uma nota biográfica, em 1983, Bregilio fundou uma empresa de pesquisa e relações públicas na Washington, D.C., a Research/Strategy/Management, Inc..

Breglio é chefe de  Equipes Internacionais na Wirthlin Worldwide, “comandando as atividades de sete escritórios no exterior, entre eles Wirthlin-Europe, WirthlinWorldwide Asia and WirthlinWorldwide Australasia. Também chefia o Wirthlin Worldwide Asia, com escritório em Hong Kong e Singapura.”

“Como presidente de consultora própria, tal como diretor-executivo da National Republican Senatorial Committee (NRSC) e presidente da DECISION MAKING INFORMATION (o instituto de pesquisa utilizado quase exclusivamente por Ronald Reagan e seu governo), ele tem livre passagem nos corredores de poder,” segundo sua biografia.

Breglio foi vice-diretor para estratégia na campanha de Reagan em 1980 e consultor principal na campanha de 1984. Breglio foi diretor de pesquisa na campanha BushQuayle em1988.

Na sua biografia, Breglio também relata os trabalhos feitos para a Ford Foundation e a Kellogg Foundation,além da RJ Reynolds (tabaco), Geneva Steel (aço), Kraft Foods (alimentos), o Wall Street Journal e a NBC News (jornalismo).

Parece que o parceiro princpal desse projeto conjunto Harris-Wirthlin-Atlas na América Latina seria o CADAL — Centro para a-la Abertura-Apertura e-y Desarrollo-Desenvolvimento de América Latina — com sede em Buenos Aires e escritório de Montevidéu:

A única ligação brasileira parece ser o professor a Universidade de Brasília Eduardo Viola.

Roberto Eduardo Viola fora presidente-general da Argentina por um breve período em 1981, indultado pelo Presidente Menem em 1990.

O CADAL fica nas margens de nossa amostra da rede política latinamericana, centrada no Brasil, desse ano, mas apresenta uma ligação direta, num primerio momento, com a NED, por intermediário do World Movment for Democracy — acima.

Proponho por tudo isso, e mais ainda, que outro documento importante ao entendimento do apelo emocional que dominava a mercadologia política no Brasil nesse ano é a seguinte palestra de Breglio, de 2004, à fundação Atlas:

Longe de ser o produto de mero ocaso literário, o «estilo neocon» é um discurso institucionalizado, em escala industrial.