«Para Onde Foi o Bom e Velho Cid Moreira?»

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Where have you gone, Joe Di Maggio?
A nation turns its lonely eyes to you …
What’s that you say, Mrs. Robinson?
Joltin’ Joe has left and gone away?

Eu sempre era tipo um esquilo de fontes — o bicho que entre nós da zona temperada simboliza a armazenagem obsesiva de nozes ou que seja contra o inverno por vir.

Assim, uma leitura das palestras do congresso internacional da SECOM sobre o regulamento de mídias convergentes da semana passada provocou um novo surto de buscas no sentido de construir uma bibliografia plural e completa sobre a polêmica.

A busca, no Google Académico, fortaleceu duas impressões que tenho sobre a pesquisa do jornalismo nativo:

  1. Fica dominada pelo Brazilian Journalism Research | Universidade de Brasília
  2. Fica dominada por traduções de péssima qualidade

Deixa-me fazer um breve apelo interesseiro quando do segundo ponto.

Tenho grande e abrangente experiência na tradução de matérias acadêmicas e técnicas. Já fiz traduções para a USP, o APEX, e o IPq, da Hospital das Clínicas, entre muitas outras. Posso lhes ajudar.

Um bom estudo traduzido mal é uma tragédia, desmoralizando o pesquisador nos olhos do leitor estrangeiro..

Fim da publicidade.

Tres leituras que achei interessantes hoje são

  1. Marcia Benetti Machado e Sean Hagen, «Jornalismo e o mito da perfeição andrógina» | UNIrevista, Vol. 1, No 3 (julho 2006)
  2. Mauro Pereira Porto, «New Political Strategies in Brazilian Television? Globo’s Jornal Nacional in Comparative Perspective | Apresentado no Congresso da LASA-Latin, Universidade de Pittsburgh (EUA: 1997)
  3. Elizabeth Saad Corrêa & Francisco Madureira, «Citizen journalist or source of information? An exploratory study about the public’s role in participatory journalism within leading Brazilian web portals» |

Uma leitura que consta nos resultados da pesquisa mas não está disponível no site do Brazilian Journalism Research foi

  1. Siliva Moretzsohn, «Citizen Journalism and the Myth of Redemptive Technology» | BJR, 2006

A professora Moretzsohn, como aparece, é uma acadêmica brasileira da UFF com uma bibliografia extensa em jornais portugueses — entre outros, o artigo «O caso Tim Lopes: O mito do “jornalismo-cidadão”»

Para o público em geral, o caso prestou-se acima de tudo para reiterar a enorme mistificação que esta mesma imprensa promove em torno de si própria, contribuindo especialmente para sedimentar a imagem da maior rede de televisão do país como defensora — e, no limite, até mesmo a verdadeira expressão — dos valores e direitos da cidadania, evidentemente vinculados aos sagrados ideais do jornalismo. A classificação do assassinato como um atentado à liberdade de imprensa e a elevação do repórter à condição de mártir, a ponto de passar a figurar num — como se verá — igualmente mistificador memorial erguido nos EUA para homenagear aqueles que morreram supostamente em nome do direito de informar, são aspectos significativos desse embuste.

Embuste mesmo. A questão da responsibilidade da empresa pela presença do repórter em zona de risco jamais foi respondida, embora ter sido levantada por eventuais vozes minoritárias dentre da FENAJ.

Me lembro de quando o repórter da BBC foi entrevistado durante uma invasão do Complexo do Alemão. Vestindo colete antibala, explicou à imprensa local que as regras de segurança da empresa impediam ele de entre em zona de tiroteio.

Mas estou divagando. Voltemos ao estudo de Pereira Porto sobre a mudança de comando no Jornal Nacional em 1996.

A tradução é um horror, mas os dados e tabelas estatísticas são muito interessantes.

Antes da substituição do bom e velho Cid Moreira após 27 anos, o teor informativo do notíciario era de 91% — quer dizer, afirmações de fatos.

Candidato X, 55%
Candidato Y, 45%

Depois, este caiu aos 53% enquanto o teor interpretativo, direta ou indireta, subiu dos 9% aos 43%.

Candidato X ameaçado
Candidato Y esboçando uma virada

O Cid Moreira passou a ser responsável pelo editorial — fato inédito até então, embora seguia o precedente de noticiários norteamericanos, como o editorial de Eric Sevareid no CBS Evening News nos anos 1970s — uma prática abandonada em 1977.

Arnaldo Jabor foi convidado para injetar uma perspectiva pornopolítica.

Embora eu não ter sido desmamado pelo JN na minha infância, fiquei sabendo do Cid Moreira graças ao YouTube, onde ainda hoje se acha o direito de resposta de Lionel Brizola.

Outra hipótese levantada pelos autores colhidos hoje é a situação do “jornalismo participativo” ou “jornalismo-cidadão” entre as grandes empresas de jornalismo e portais de nóticias.

Diferentemente da imagem promovida, por exemplo, pelo G1, da Globo, o autor do estudo argumenta que em geral essas iniciativa não promovem o maior engajamento do leitor, ouvinte e telespectador no processo de produzir as notícias.

Rotular estas práticas de “jornalismo-cidadão” é uma inverdade … tal como chamar participantes em programas de “conteúdo gerado pelo usuário” não passa de uma ficção …

Uma exceção honrada, com ressalvas, segundo o pesquisador, seria o VC Reporter do portal Terra.

O critério usado é a discriminação entre a “mera testemunha” e a incorporação de informações devidamente apuradas fornecidas por “cidadãos-fontes” na construção de um contexto realmente jornalístico.

O vídeo amador da OVNI atingindo a cabeça do candidato foi um exemplo da “mera testemunha.”

O fato de que dois aviões chocaram com as Torres Gêmeas não ficou enriquecido pelas milhares de imagens tiradas de todos os ângulos que o confirmaram. Em certos casos, porém, fotógrafos amadores conseguiram captar detalhes inéditos.

A celebração da “mera testemunha”fornece um pretexto de deixar de agregar dados à reportagem para apresentá-la no contexto devido. “A imagem fala para sí.”

Em constraste, o pesquisador aponta uma reportagem do VC Reporter que começa com uma reclamação contra Sabesp, enviado, com fotos, por um freguês. Confirmam o problema e perguntam à empresa o que pretende fazer.

Em outros casos, o VC Reporter é criticado por confundir o papel do jornalista com o papel da fonte.

A matéria retrata a drama do morador Cristiano Gregório, cujas afirmações dão-se entre aspas ao mesmo tempo que ele mesmo assina a reportagem — tomando suas percepções como se fosse do bairro inteiro sem a apuração devida. A matéria não informa ao leitor sobre quantas pessoas foram afeitadas pelo problema e não fornece qualquer estimativa das soluções a serem adotada pela empresa estatal.

No futuro, o pesquisador propõe um estudo sobre o fenônomo do jornalista-cidadão como publicitário clandestino. Cita o exemplo do organizador de um evento tratado pelo jornal como “jornalista-cidadão” sem citar o interesse da fonte na promoção do evento.

Outro caso que me ocorre são os relatórios de trânsitos enviados pelos ouvintes do Rádio Eldorado. “Tá díficil aqui no Marginal na altura da Bandeirantes».

Mas quem fica enfiado no meio do engarrafamento jamais terá o ponto de vista priviligiado do piloto do helicóptero do CET. Todo um trabalho de cruzamento de relatórios tem que ser feito antes de julgar a confiabilidade de relatórios pontuais.