Desastre! Vergonha! Gritaria! Exagero!

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Manchete do dia:

A Associação Internacional do Transporte Aéreo (Iata), que representa mais de 200 companhias, fez ontem uma violenta crítica ao estado da infraestrutura do setor aéreo no Brasil, falando de “desastre” e de “vergonha“.

Não foi bem assim.

Tabela de vôos atrasados, Alitalia. Fonte: FlightStats

Eu tenho aqui os comentários de Giovanni Bisingnani — ex-CEO, Alitalia e, naturalmente, formado pela Harvard — no evento realizado ontem em Panamá.

Brazil é a maior economia da América Latina, com as maiores taxas de crescimenti, mas a infraestrutura do setor de aviação é um desastre crescente. Treze dos maiores 20 aeroportos domésticos não conseguem acompanhar a demanda com os terminais de passageiros existentes. No São Paulo, o núcleo internacional mais importante do país, a situação está crítica..Ainda nesse ano o INFRAERO propus o fechamento de uma pista no  Guarulhos durante parte significativo de 2011 para realizar reformas. A media teria cortada capacidade pela metade. Gritamos.e agora o governo busca outra solução.

Para evitar um constrangimento nacional, o Brasil precisa de maiores e melhores facilidades para a Copa de 2014 e as Olimpíadas de 2016. Eu não estou vendo progresso, e o tempo está se esgotando. A hora para debate acabou. Temos que reunir todas as partes, finalizar um plano, e começar a trabalhar.

O custo da infraestrutura também é problemático. INFRAERO propunha um aumenta nas tarefas cobradas de aeroportos deficientes de 200%. Gritamos e fomos ouvidos. ANAC lançou o projeto de novo marco regulatório, que esperamos que seja o modelo para outros paises da região.

Entretanto, IATA está dedicando mais recursos ao Brasil. Eu indiquei Carlos Ebner como o diretor da IATA para o Brazil. Ele começa trabalhando dia 1 de dezembro. Sua missão é entregar um plano compreensivo pelo sucesso do setor no Brasil.

No release sobre o evento — “América Latina está indo muito bem, embora o Brasil precisar aumentar capacidade” — a palavra “desastre” não aparece. Presumo que a assessoria do evento quis minimizar afirmações inflamatórias.

Eu não estou vendo a violência nessa mensagem.

Ninguem chamou a infraestrutura brasileira de uma vergonha — só que sem melhoras em capacidade, corre o risco de um constrangimento nacional daqui quatro e seis anos.

Brazil is Latin America’s fastest growing aviation market but its infrastructure capability is not keeping pace with the growth in demand.

O IATA é um grupo de lobby incorporado na Canadá em 1945.

Como qualquer grupo de lobby, quando se oponha a uma política púbica contrária aos interesses dos representados, grita até ser ouvido. É seu sagrado direito e Deus o abençõe.

Voltamos, então, ao pânico moral de alguns anos atrás sobre o caos aéreo no País.

Mas se vamos entrar nisso de novo, acho justo também destacar que a mais importante região do pais, o São Paulo, estaria em crise.

Aeroportos de São Paulo na UTI, segundo lobista!

Quando da taxa de atrasos e cancelamentos utilizada para alimentar a sensação de crise no passado, eu fiz um levantamento nos dados — livremente disponíveis — de vôos atrasados e cancelados nos EUA.

Eram perfeitamente comparáveis com os dados sobre o Brasil.

Eu até acho justo dar um desconto aos brasileiros por causa da virulência da natureza na gigante pela.

As águas de março fechando o verão: jamais vi o igual!

Em compensação, vocês jamaism viram o iqual das nevascas de Chicago fechando o inverno.  Vamos concordar que as condições são comparáveis o suficiente pra jazz.

Como escrevi na época, sobre uma viagem Gringolândia-Samboja

Eu uma vez fez uma comparação dos dois sistemas de transporte aérea ao vivo, durante uma viagem dupla: (1) de Nova York à San Francsico, ida e volta, seguida pelo (2) famoso vôo de meia-noite de TAM, JFK-Guarulhos.

Ambos eram cheios de chatice, com malas perdidas, atrasos, a mais completa falta de informação por funcionários das empresas — a empresa comparada com TAM foi American Airlines — e tudo mais.

Não dava para dizer que em um país havia caos enquanto no outro havia o reino de eficiência.

Na verdade, para dizer algo positivo sobre o Brasil, eu tenho experiências muito boas com a Polícia Federal na fila de alfândega e imigração — até quando tirado de lado para uma vasculação nas malas — enquanto posso contar histórias para Zé do Caixâo filmar sobre o TSA, responsável pela segurança nos aeroportos de lá.

Tá certo, foi um caso isolado, e ainda hoje guardo o maior bode possível contra a funcionária da TAM que infernalizava nossa vida enquanto tentamos embarcar nosso gato.

O chefe dela depois confessou que ela estava simplesmente mentindo, por pura maldade.

Quando finalmente conseguimos embarcar, a gente trocou um olhar.

Eu vi a vergonha e medo nos olhos dela, e fiquei feliz.

Agora, para ter uma noção dos projetos de evitar o constrangimento de 2014 e 2016, a Agência T1 fornece um bom mapa das obras dos PAC-1 e PAC-2.

O Globo enxerga os projetos do PAC 2 nesse setor como um vilarejo de Potemkin:

BRASÍLIA – O Brasil vai sediar, num espaço de dois anos, a Copa do Mundo de 2014 e os Jogos Olímpicos de 2016. Mas a segunda fase do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC-2) destinou apenas R$ 3 bilhões para investimentos em 14 aeroportos a partir de 2011, 60% dos quais desembolsados pela Infraero. Para se ter uma ideia de como o número é modesto, o projeto de construção de um terceiro terminal de passageiros no Aeroporto Internacional de Cumbica, em Guarulhos (SP), que dorme na gaveta do governo, está projetado em R$ 1,5 bilhão

Me perdoa se eu confiro os relatórios oficiais do governo sobre o assunto. A compra de gatos por lebres naquele parágrafo me deixa com o polegar atrás a orelha.

O balanço estadual para São Paulo do projeto até abril de 2010, por exemplo, mostra projetos em execução ou preparação no Guarulhos, além de várias obras completas no Congonhas, e quatro obras em preparação no Viracopos.

Os gastos até agora no setor:

Segundo o décimo balanço do PAC-1, R$272 milhões foram gastos em 9 empreendimentos beneficiando 8 aeroportos, dentro de um orçamento de R$ 13,2 bilhões para projetos de logística — aeroportos, ferrovias, portos, hidrovias, e a marinha mercante.

Então, se quiser brincar com números, o PAC-2 vai desembolsar 11 vezes o já gasto na melhoria de aeroportos, e gastará em número reduzido de projetos, aliás.

Beneficiados foram cidades como Salvador, João Pessoa, Fortaleza, Boa Vista — naquele estado que não consigo identificar no mapa, Roraima, pode ser? — além de Congonhas, Confins, e Santos Dumont.

Eu me lembro de passar uma noite divertida no aeroporto internacional de Recife uma vez — um vasto palácio completamente vazio. Perguntei a novo amigo de boteco se o projeto não seja um “elefante branco.”

“Não,senhor” Você vai ver! Essa cidade vai fervilhar!”

Assim que a Copa vai mandar torcedores para cidades no país inteiro, faz sentido cuidar dos aeroportos regionais também.

Não sei, não.

Jornais com um linha editorial em favor de disciplina fiscal falando de “apenas” bilhões de gastos. Estranho.

Só sei que manchetes nos moldes de

Lobistas de determinado setor industrial exageram no uso de adjetivos alarmantes!

não são apenas constrangedoras quando aparecem no melhor jornal empresarial do Brasil.

São vergonhosas!

A matéria não passa de um ato de ventriloquismo por uma única parte — o lobby em questão. sem o outro lado, ou lados.