Tio Sam: Gastos Fastos e Nefastos

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Tenho novo brinquedo e ando brincando.

O serviço USASPENDING.GOV é o mais novo projeto do governo estadounidense oferecendo acesso relativamente fácil a uma riqueza de dados sobre a execução do orçamento federal durante a última década.

O «jornalismo do banco de dados» vira cada vez mais acessível a todos nós — nós norteamericanos, pelo menos — o que eu acho uma tendência salubre.

Colhei um mexerica de casos interessantes e não tenho pensado ainda em como os juntar numa matéria coerente.

Vou recorrer à solução preguiçosa de sempre: a livre associação de ideias.

Eu li, por exemplo, que a diplomacia de Tio Sam começou  em 2009  pagar R$ 175.000 por ano à empresa Metaverse Mod Squad “pelo monitoramento em tempo integral da rede social ExchangesConnect” — rede social montada pelo Departamento de Estado e hospedado no domínio STATE.GOV.

Naturalmente, como um antropólogo marciano das redes sociais, não pude deixar de me cadastrar nessa rede — acima.

Além do governo, o Mod Squad serve principalmente a indústria de entretenimento.

Não é à toa. Na última década, o marketing de entretenimento paulatinamente tomou conta da nossa “diplomacia pública” — tanto que a diplomata responsável pela pasta hoje deixou o Discovery Channel e uma carreira na MTV para entrar no serviço público.

Um diretor graúdo de comunicações na Casa Branca de Bush veio do marketing de esportes, me lembro — um reflexo do fato do chefe ser dono dos Rangers de Texas, equipe histórico de beisebol.

Não foi dificil achar dinheiro do contribuinte pagando propaganda clandestina, como, por exemplo, a montagem de “operações psicológicas” na forma de jornais editados pelas forças de ocupação sem assumir a autoria.

O Exército gastou $2,5 milhões durante o segundo trimestre de 2007 em «PSYOPS Newspapers» no Iraque — ou seja, a manutenção de jornais divulgando propaganda clandestina.

Outro contrato, de quase o mesmo valor, não tem data.

Uma das maiores categorias de entidades recebendo repasses do governo são os anônimos «diversos contratados estrangeiros».

Este embocanharam US$43 bilhões — com b — desde 2007.

É meio difícil não imaginar que em muitos casos a frase se traduz por «recipientes de propinas».

A promoção de mídias livres, independentes e democráticas no Iraque está sendo construida na base da reportajabaganda.

O Departamento de Estado também tem programas desse tipo — como, por exemplo, o portal colombino La Silla Vacia.

Uma empresa local, Blogosfera Produccionas SAS, recebeu $15.768 ainda nesse ano pela montagem de uma redação virtual no site, “ensinando ao cidadão os padrões de jornalismo.”

Divide um servidor nos EUA com outro site colombiano — fora do ar no momento — PAISPOLITICO.COM. Apesar de algumas ofuscações, são hospedados pelo notório  GODADDY.COM.

O American University em Cairo recebeu quase US$500.000 no ano eleitoral para subsidiar a montagem de blogs fazendo cobertura das eleições nos EUA. Os blogs não são identificados.

Os diversos contratados estrangeiros receberam $22.000 no ano passado para promover o evento Pesta Blogger em Indonésia — um patrocínio devidamente divulgado.

O evento oferece um concurso para Microsoft Bloggerships, quem pagam um salário a blogueiros para divulgar informações sobre a empresa.

Num relatório sobre o orçamento de 2009, a USAID explica que

os fundos permitirão ao Departamento de Estado a começar a distribuição de vídeos em língua persa pela Internet, financiar mais blogueiros em língua persa, e continuar a financiar o site Parsloop.com, o que permite aos iranianos relutantes a visitar um sítio do governo acesso a informações precisas sobre os EUA.

No momento, o site configurado naquele endereço é uma pequena consultora com dicas pela reforma da sua casa.

Communications Research Strategies (Pvt) Limited de Islamabad, Pakistan, recebeu US$491.000 por “monitoramento e publicação de notas em blogs.”

Fortalecendo ONGs

O caso que será mais interessante ao leitor estrangeiro, porém, é o programa Non-Governmental Organization Strengthening, administrado pelo USAID sob algo chamdado a CFDA.

Foi estabelecido e autorizado pela Foreign Assistance Act of 1961, que criou a USAID.

Sua missão tem sido

ajudar ONGs, redes e intermediários de serviços a ficarem mais eficientes e eficazes na entrega de serviços de desenvolvimento.

O mecanismo é o chamado metódo “arm’s length” — o fornecimento de recursos por um intermediário para não deixar as pegadas da fonte original.

O gasto de dinheiro público é autorizado por meio de acordos de cooperação com ONGs domésticas, que trabalham para aumentar as capacidades de ONGs em paises em desenvolvimento. .

Cerca de US$200 milhões foram gastos nesse programa em 2009.

O maior recipiente dessa verbas em 2009 foi o AIR — American Institutes for Research — acima. Dos US$300 milhões de renda declarada em 2009, US$83 milhões veio da USAID.

A rede de institutos de pesquisa tem como clientes as maiores filantropias do país, centros de excelência acadêmica, e tudo que é agência do governo federal.

Mantém um escritório da bela cidade de Salvador, Bahia, sem mais informações.

O diretor do sucursal brasileiro é o Simon Schwartzmann.

O Caso LIDER e o Modelo Promedia

Um projeto típico desse programa  é o LIDER, incubadora de ONGs de juventude na Rússia, montada por uma empresa chamada Winrock International Institute for Agriculture, recipiente de US$123 milhões desde 2007.

Além da Rússia, trabalha no Paquistão, o Sudão, e Nigéria, entre outros, em projetos abrangendo eletrificação, água, agricultura, meio ambiente, e mais.

Mas as atividades na Rússia tem levado a embates com o governo Putin, que nos últimos dois anos denunciou influência estrangeira sobre ONGs russas e baixou legislação com controles financeiros e fiscalização rigorosa.

O série investigativo Frontline fez uma bela reportagem sobre a questão.

Deixa ver seu eu consigo resumir o projeto. Basicamente, segue o velho modelo PROMEDIA, introduzido no antigo Iugoslávia nos anos 1990s.

Nesse caso, segundo a panfleta do grupo, o contratado da USAID, Winrock, trabalha por meio de um intermediário local, o Far Eastern Scientific Center for Local Self-Governance. A página deste, dito residente no DVSI.RU, inexiste.  Parece existir apenas em releases da própria USAID.

Seu objetivo será fomentar parcerias entre doadores no setor privado e 16 ONGs que trabalham com juventude, prestigiando estes com o apoio de pessoas proeminentes.

Pretende fundar 20 novas ONGS, treinando 20.000 militantes e lideranças por este fim.

Pretende fazer lobby contra cinco políticas públicas afetando jovens.

Tendências Gerais

Alguns dadóides a mais. Quem, por exemplo, é o maior propagandista do governo dos EUA?

Hoje em dia, dever ser o Grupo WPP,

Recebeu US$2 bilhões para serviços de propagand na útlima década, de um total de US$3,5 bilhões, principalmente por trabalhos feitos para as forças armadas.  Sua participação tende a crescer.

Além disso, fornece serviços de lobby e marketing a grande número de empreiteiras militares na área de TI. Não sei como você pense, mas pagando uma empresa que recebe para influenciar o processo de compras governamentais parece um pouco — incestuoso.

O Publicis Group da França recebia vultuosas verbas de propagada durante os anos dourados de Bush ibn Bush, mas deixaram de ser contratados.

As empreiteiras de TI ganham bem. O Hewlett-Packard faturou US$21 bilhões do governo nos dez anos passados, e depois tentou eleger seu antigo CEO a governadora de California.

Gastos em pesquisas sobre a teoria e prática de redes sociais, pelo National Science Foundation e as FFAA, explodiram em anos recentes.  Ainda bem. Gostaria de ler as pesquisas.

Diplomacia pública também.

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