A Idade de Relações Públicas: O Caso do Reino Unido

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«Levem em mente que a imprensa não é independente. Não passa, na verdade, de um quadro de avisos e agência de relações públicas da classe dominante … Se a matriz não quiser que você saiba algo, não aparecerá no notíciario. Ponto final.»  –George Carlin, comediante, Napalm & Silly Putty

O pesquisador inglês Simon Cottle publicou uma coletânea de estudos em 2003 com o título News, Public Relations and Power — «notícias, relações públicas, e poder».

Como meu exercício do dia na portuguesificação de ideias alheias para Índio Tupy ler, pensei em traduzir e resumir um ensaio desse livro que dá um balanço da chamada «época de relações públicas» no Reino Unido nos anos 1990s.

A análise é do Aeron Davis, pesquisador especializado nas estratégias de comunicação social do sindicalismo inglês.

Para tanto, vamos presumir de antemão o que Aeron acaba concluindo: que a democracia inglêsa virou uma “democracia de relaçoes públicas” nesse período, com resultados mistos que no entanto abrem espaço para um certo otimismo.

Mas vamos também levar em mente a ressalva de que o período sob estudo abrange apenas o começo da Idade de Democracia 2.0, o dito resultado da década de relações públicas «DYI» — «do it yourself», ou seja, «faça você mesmo».

As conclusões de Aeron sobre os ganhadores e perdedores do crescente poder de relações públicas perante a opinião pública e a pauta política e cívica da imprensa leva ao tése desse «pluralismo otimista».

Sem dúvida, grupos excluidos e faltando os recursos para comprar a inclusão da sua voz estão desenvolvendo jeitinhos para compensar essas faltas. Há uma lista crescente de campanhas publicitárias bem-sucedidas, montadas por sindicatos e grupos de pressão, contra o descaso de governos e corporações.

O fato do custo de publicar textos e produções audiovisuales ter caído a quase nada decerto apoia a criativiade dessa cinema povera de publicidade.

Mais importante ainda, campanhas continuadas de sindicatos e ambientalistas conseguiram capturar a imaginação do público e, com isso, pautar a agenda do governo trabalhista. Estes sucessos levaram vários pesquisadores à conclusão de que relações públicas trazem vários benefícios à democracia, fazendo empresas e governos mais responsivos à opinião pública e amplificando, como nunca antes na história desse país, as vozes de fontes não-oficiais.

Essa conclusão, segundo o Aeron, ignora o fato de que

grandes vitórias por sindicatos e grupos de pressão com o uso de relações públicas tem sidos irregulares e imprevisíveis, nem sempre resultando em mudanças importantes ainda quando bem-sucedidas nos termos do capital de atenção acumulada.

Agora, meu ponto, se bem que eu consigo chegar lá, é que esta análise dos custos e benefícios para todas as partes desse processo nos fins dos anos 1990s fornece um quadro útil pela análise do quadro atual — uma análise, porém, menos otimista.

Resumo um pouco agora para encurtar a lengalenga.

Para grupos de excluídos, um custo importante dessa crença de que relações públicas são indispensáveis à promoção das causas defendidas pode ser, nas palavras do pesquisador,

… as mudanças ideológicas necessitadas pelos próprios métodos das relações públicas.

Na medida que é necessário empacotá-las para a mídia, as propostas defendidas correm o risco de ficarem trivializadas.

Assim como grupos de pressão arriscam sendo incorporados no Estado na medida que alcancem seus objetivos, grupos adotando estratégias ditadas pela mídia arriscam perdendo de visto sua razão de ser.

Como diria o jornalista brasileiro Élio Gaspari, as campanhas começam a sobreviver do “folclore da corporação malvada” ou “da corrupção” e perdem o foco em propostas concretas de governança — que não sangram, choram ou assaltam os paparazzi no noticiário das oito.

Em geral, segundo o Aeron, essa Idade de Relações Públicas fortaleceu consideravelmente a posição dominante das elites inglesas, mas ao custo de um crescente cinismo do público quando de comunicações visivelmente profissionais e estrategicamente planejadas. E mais:

No entanto, apesar dos motivos para manter um pluralismo otimista, nenhuma dessas tendências podem ser tidas como fortalecendo o ideal liberal de uma imprensa independente. O fato da imprensa depender cada vez mas em relações públicas mina o ideal do quarto poder.

Foi uma característica, de fato, do Novo Trabalhismo que grupos de pressão bem-sucedidos eram cooptados e incorporados no Estado na forma de QuaNGOS — os famosos «organizaçãoes quase que se fossem não governamentais» ou, se prefira, «quase que se não fossem governamentais».

Já li disputas acirradas nos jornais ingleses sobre qual seria a formulação certa.

Em qualquer caos — me corrijo: caso — eu quis apontar esta análise para poder introduzir as orígens do elementos levando à década atual — que eu chamaria da Idade de Propaganda Clandestina, ou, da Porta-Voz Não Assumida, ou, da Ofuscão da Autoria.

A soma de três fatores explica essa virada.

  1. Relações públicas e fontes oficiais despertam desconfiança — fato demostrado cada ano pelo Barômetro de Confiança do grupo Edelman
  2. Relações públicas eficazes custam dinheiro, até no serviço de fontes não-oficiais e vozes excluídas
  3. Ergo, os excluidos não pode ser ouvidos numa idade de relações pública sem o subsídio de grupos endinheirados.

O que emerge dessa dinámica, então, é o «grito do excluido — um oferecimento Ford» — ou seja, a sinergia entre a filantropia global e a cooptação da voz independente.

O portavoz ideal para a idade em que nos encontramos é a fonte visivelmente quase como se fosse periférica — uma impressão de amadorismo pela criação da qual, na verdade, é preciso bastante profissionalismo.

Acima, uma campanha viral de uma gravadora do grupo Globo.

Emblemático dessa estratégia são os serviços oferecidos pela agência brasileira Santa Clara — padroeira, como sabemos, da televisão.

Na boca de qual personagem sem a percebida bagagem de inautenticidade você gostaria colocar a sua mensagem?

Depende de quem você pretende enganar.

Era uma vez que eu teria acredita qualquer coisa informada pela Linda Shirley.

Mas agora sou homem casado.

Conclusões? Nem tantas

E agora?

O Novo Trabalhismo da Rainha tem a ver com o trabalhismo do Barão de Mataporcos como?

Sempre tem sido meu palpite que com a queda de Zé Dircéu — a não falar na guerra no Iraque — o estilo político de Tony Blair sumiu do Cruzeiro do Sul.

O Brasil é um caso interessante — uma indústria de propaganda enorme e sofisticada fora de qualquer proporção com o tamanho do mercado de consumo que almeja. Além disso, apesar da velocidade da sua emergência, continua sendo o alvo da indústria de filantropia global — aluga-nos umas criancinhas

Uma aranhação que acabo de fazer desvende as dimensões gigantescas dessa indústria. Só para dar um exemplo, os 6.011 laços a 1.260 filantropias do Council on Foundations.

O Brasil também conseguiu faz muito tempo o que para os grandes anunciantes dos paises desenvolvidos permanece um sonho bonito: a desintermediação total do jornalista como «guardião de portal».

Estou lembrado de uma entrevista que li tempos atrás com a ACM, quando o Senador de Bahia, ex-Ministro de Comunicações, foi indagado sobre seu método de lidar com perguntas impertinentes da imprensa.

“Basta um certo olhar e não perguntarão uma segunda vez,” respondeu.

O que me empolga, então, naquela porção do futuro do Brasil que Deus me dará vida para assistir, é a oportunidade de observar a evolução dos mecanismos críticos já presentes em democracias maduras — impedindo algo que Paulo Francis notou nos anos 1970s, no romance Cabeça de Papel.

Cadê aquilo?

Basicamente que a imprensa brasileira já era uma subsidiária integral de grandes anunciantes multinacionais.

No famoso Dicionário do Futuro da marqueteira Faith Popcorn — jamais fotografada sem uma criança negra sorridente no colo — ela prevê a emergência de uma «Conflict of Interest Police» — uma polícia de conflitos de interesses.

Traduzo.

Assim como já estamos reduzidos a um punhado de grupos gigantescos de mídia, com vasto potencial para conflitos de interesses — nós prognosticamos a formação de uma policia interna por esses grupos, como o motivo principal de acalmar reguladoras e consumidores. Esta polícia será dispersa pelo complexo midiático, apurando casos de matérias engavetadas e fatos abafados.

Pelo jeito que o Brasil vai indo, eu prognostico outro cenário possível.

Assim como criamos, com sangue, suor e propaganda de cerveja, um mercado plural e competitivo de informações e notícias, o potencial para conflitos de interesses será vastamente reduzido. Não haverá necessidade de um policiamento desses conflitos, pelo fato de que se um grupo engavete matérias ou abafe fatos, um concorrente aproveitará para apontar a falha, construindo sua própria fama de integridade encima dos traves nos olhos dos outros.

Me chame de sonhador se quiser.

É o Brasil.

Qualquer coisa pode acontecer em qualquer momento.

É por isso que gosto tanto do lugar.

Enquanto nos EUA a Internet simplesmente produz um giro de notícias requentadas das milhares de fontes disponíveis, alg que causa certa maresia e o famoso «infoburn», no Brasil, pode até mudar as coisas!

Mas tem trabaslho pela frente.

Pena que não tive a máquina fotográfica comigo aquele dia que a gente pegou estrada para Jundiaí.

Foi uma banca de jornal vendendo exclusivamente as publicações da empresa com o monopólio sobre distribuição de materiais impressas não região.

I shit you not.