A Festa Imóvel: Boas Notícias Para Bichos-Preguiças?

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Eu e a patroa enfrentamos uma decisão difícil nesse momento.

Precisando de liquidez, temos que vender um de nossos dois imóveis — ou o apartamento em Brooklyn ou a Casa Dos Gatos Demais aqui na Vila.

As considerações sentimentais não são pifias.

Eu batalhava dez anos para conseguir minha casa própria, num bairro lindo perto do Memorial do Exército da República, do grande artista de século XIX Winslow Homer, o Arc de Triomphe de Brooklyn — a não falar em um dos parques urbanos vitorianos mais bonitos do país e a proximidade a um dos núcleos de transporte mais importantes da região.

Além disso, o mercado devastado de imóveis nos EUA agora vai resultar num preço pouco acima do que pagamos em 2004, quando compramos nossa participação no condomínio — um tenemento com oito apartamentos no estilo wagons-lits, construido em 1920.

Foi o room of one’s own sem o qual você não consegue escrever, segundo Virigina Woolf.

Eu sempre planejava manter o apartamento por décadas, recebendo uma renda modesta do aluguel e aproveitando, na plenitude do tempo, o desenvolvimento do centro de Brooklyn, que vai tornar nosso bairro um núcleo residencial para quem trabalha no novo centro comercial de Atlantic Yards.

Entretanto, na Samboja, já recebimos uma oferta para nossa casa de cinco vezes o que pagamos, em 2003 — dez vezes, levando em conta o efeito do câmbio.

Mais eu ainda desconfio que, mantendo o imóvel, nós não o veremos valorizar cada vez mais, como sonha minha mulher.

O mercado imobiliário sambojano, para mim, é uma loucura total.

Ouvindo o argumento de um dono de apartamento na Nova Luz, por exemplo — de que o Disney Hall sambojano ia fazer do bairro um Rive Gauche sambojano em pouco tempo — eu fiquei meio cético.

Que eu saiba, o badalado Lincoln Center de São Paulo tem sido um lugar ermo faz tempo e vai continuar assim por mais tempo ainda. Parece a ilha de Iwo Jima após duas semanas de bombardeio naval.

Pensando naquela hora numa estratégia centro-roça — quer dizer, um apartamento no Centrão de São Paulo para trabalho e um sítio na mata para a contemplação dos búgios que por sua vez nos contemplam a nós  — visitamos alguns loteamentos no interior.

Lá cruzamos como uma corretora — uma amável senhora, auditora aposentada — que reforçou meu preconceito sobre a volatilidade do mercado sambojano.

“Eu estou temendo uma bolha lá na cidade,” disse. “Os preços são uma loucura, e não podem ser sustentandos enquanto a disponsibilidade de moradia começa a se equiparar com a demanda.”

Fez sentido. Foi assim que eu — que aprendi economia daqueles livros do gênero “para todos nós” — pensava.

Mas não.

Agora, o PDG Realty está negando a possibilidade, segundo uma reportagem de Reuters.

Penso de inmediato em um reportagem que eu li outro dia.

Tratou dos maiores casos nos quais apostando na contramão das grandes tendências comemoradas pela imprensa resultou em lucros enormes.

Em qualquer caso, traduzo.

(Reuters) – PDG Realty (PDGR3.SA), a maior empresa de empreendimentos imobilíários no Brasil, não enxerga risco algum de uma bolha no mercado habitacional, apesar da explosão de venda e uma economia aquecida. Falando no Reuters Brazil Investment Summit no Rio de Janeiro, o diretor-executivo Zeca Grabowsky acrescentou que a PDG investirá R$ 10 bilhões em novos empreendimentos em 2011 — 33% a mais em comparação com a a meta mais otimista para 2010.

Enquanto o Brasil cresce com a maior rapidez em tres década e uma crescente classe média assumindo números inéditos de empréstimos é hipotécas, os preços estão em alta na maior economia da região, alimentando preocupações sobre uma bolha em formação.

Mas em um país onde o mercado de hipotecas ainda está na sua infância e milhões de pessoas viram consumidores pela primeira vez, Grabowsky acredita que é a demanda, e não a especulação, que está determinado os preços.

“Está longe de ser uma bolha,” disse ao Reuters. “É um demanda real, e a primeira compra de casa própria, com o propósito de morar lá..”

Sim, mais na minha experiência, são os mercados jovens que são os mais voláteis.

Olha, eu já frequentei conversas de festa e botecão suficientes para ficar sabendo do febre especulativo que já tomou contou de tantos paulistanos da classe média alta. São eles que me preocupam — assim como o fato do prefeito da cidade listar sua profissão civil de “corretor de imóveis.”

E confesso um preconceito: de que qualquer coisa saindo da boca de um corretor de imóveis deve ser o contrário da verdade.

Embora tudo isso, a mulher descorda comigo, dizendo que nosso canto pacato não muito longe do Alto do Pinheiros “está virando um Beverly Hills.” Pode ter razão. Espero que sim. Ele é minha guía sempre confiável em todo que me parece imcompreensivel nessa nossa Samboja.

Só quero registrar uma certa tristeza com a perspectiva de perder minha “sala própria” no coração da maior concentração de caribenho-americanos fora do Mar Caribe no mundo.

Não me sinto à vontade nessa cidade dominada pelo automóvel.

Se eu estivesse em Brooklyn agora, eu pulava da minha cadeira Aeron, andava 50 metros ao metrô, e chegava no Radio City Music Hall, ou Little Italy, ou SoHo, ou minha livraria preferida no Astor Place, dentro de 25 minutos.

Eu vivo de impulso lá. Intempestivamente. A vida do flanêur.

Se eu de repente quissesse tomar um whiskey Bunnahabhain de 21 anos no melhor bar da cidade — d.b.a. — eu pegava o cachecol do gancho e estava no trém antes de pensar melhor.

E se eu por ocaso quissesse saber todas as nóticias do mundo, é só atravessar a rua ao bodega dos dominicanos, onde tem tudo desde La Corriere della Serra até o Economist — além dos tabloides “Uma OVNI comeu meu cérebro.”

O que mais amo na minha cidade é seu gênio pelo reaproveitamento de imóveis históricos. O que já era fábrica de blusas no século XI virou a Factory de Andy Warhol e hoje é um palácio vitoriano hospedando o que deve ser o maior Barnes & Nole do mundo.

São Paulo me parece uma cidade que odeia o seu passado e gostaria apagá-lo o quanto antes. Ou assim me parece em momentos de melancolia.

Ao lado do histórico Cooper Union, durante a Bolha da Internet, construiram o Prédio Mais Ligado do Mundo — um linha T1 em cada sala! Hoje, não tem mais consumidores de banda larga naquela escala.

Aqui, o Metrô Vila Madelena está accessível — mais só subindo a ladeira da Travessa Tim Maia, uma Himialaia impensável e impassível em dias de calor, ou de chuva, ou, entre novembro e março, de chuva e calor juntos.

Eu penso e penso em como eu podia reproduzir essa liberdade em outro canto do Brasil.

E se eu mudasse para Fortaleza e abrisse um sebo e LAN house?

O melhor, na Recife Antiga, lá perto da Bolsa de Valores de Pernambuco e Paraíba?

Virando que nem o velho dominicano do bodega, vestindo seu chapéu panamá, sentado numa mesa na calçada, fumando os charutos, tomando uma Coca, estudando as corridas de cavalo, bisbilhotando na vida de todo mundo?

Seria um jeito bonito de envelhecer, eu acho.