A Indústria do Microempréstimo: Anjo ou Agiota?

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John Stossel da rede Fox comemora o milagre do microempréstimo no mesmo momento que o New York Times está escrevendo o atesto de óbito desse movimento de empreendedorismo social.

Segundo este, uma onda de inadimplência em protesto contra juros que alcançam os sambojanos 35% ao ano está  pode provocar um efeito parecido com o crise imobiliário na Índia. Bancos indianos têm $4 bilhões compremetidos com o setor, segundo o Times.

Segundo o Stossel — menino dos olhos de Rupert Murdoch, e menos um jornalista de negócios do que o evangelista de dogmas divorciadas dos fatos —

Gosto dos logros do fundador de eBay Pierre Omidyar e o fundador de Sun Microsystems Vinod Khosla n expansão do mercado para microempréstimos. Enquanto o Mohammed Yunus ganhou o Prêmio Nobel de Paz pela realização da microfinança dentro do Banco Grameen, um banco com fins lucrativos, o Yunus menospreza o lucro. Capitalistas de risco como Omidyar e Khosla, porém entendem que o melhor jeito de tirar grandes números de gente da miséria é oferecer a oportunidade de lucrar enquanto os ajudam.

No mesmo dia da nota de Stossel, uma notícia desanimadora do Financial Express de India:

India’s microfinance industry, which surged to prominence when George Soros-backed SKS Microfinance raised $358 million in an IPO, faces a regulatory clampdown that could erode profits and hurt growth.

Acho que fiz uma anotação tempos atrás sobre um estudo do efeito desse tipo de financiamento no Bangladesh. Não houve efeito nenhum. O país era o mais pobre do mundo e continuava sendo o mais pobre do mundo.

Os “empreendedores” criados por estes empréstimos na verdade são na maioria trabalhdores informais numa cadeia de produção de roupa em casa, num regime de «piece work» — ou seja, ganhando alguns tostões por peça acabada. Lembra a indústria de roupa no Lower East Side no fim do século XIX em Nova York.

Alternativamente, o dinheiro deve ser investido na criação de gado para vender no mercado.

Chamar de “microempreendedor” alguém em condições análogas a escravidão é Novilíngua demais.

Cindy Jaquith anota:

A maior empresa de microfinança na Índia e a SKS. “Nosso objetivo e a eradicação de pobreza” segundo sua página na Internet.  A empresa “começou como uma ONG pequenam” o sítio proclama com orgulho, mas hoje negocia com “os maiores bancos e investidores do mundo,” tal como HSBC e Citibank. Oferecendo diversos produtos de dívida empacotada, a empresa diz que “os pobres constituem um enorme mercado com vasto potencial.” Respondendo a uma onda de suicídios de deudores no estado de Andhra Pradesh,  SKS ofereceu a baixar seus juros por 2 porcent — para cerca de 24 percent.

Consumidores pegando empréstimos de bancos normais podem financiar um novo Mercedes aos 8 porcento por ano.

Segundo o Times, foi a OPA da SKS que desencadeou, em parte, a campanha contra a indústria.

A raiva foi alimentada em parte pela OPA da  SKS Microfinance, o maior microemprestadora comercial na Índia, financiado por investidores como George Soros e Vinod Khosla do Sun Microsystems.

SKS e seus acionistas levantaram alguns  $350 million na bolsa em agosto.  Renda e lucro tem crescidos 100 percent por ano em anos recentes. Em 2010, Vikram Akula, presidente do conselho da SKS Microfinance, vendeu ações próprias por $13 million.

O Times entrevista um líder do movimento de endividados recusando a pagar as parcelas. Traduzo.

Reddy Subrahmanyam, legislador que ajudou a compor o projeto de lei no estado de Andhra Pradesh, acusa as empresas de extorquir “megalucros” dos pobres, e de que a indústria não é diferente do figura, geralmente menosprezado, do agiota local que pretendiam substituir.

“O agiota mora no vilarejo,” disse. “Pelo menos você pode botar fogo na casa dele. As empresas pegam o dinheiro e saem correndo.”

O BNDES brasileiro tem oferecido microempréstimos desde 1996, com uma mudança de rumo em 2005, quando o PMC substituiu definitivamente o antigo PCPP, que visava a “formação de uma indústria de microfinanças por meio de OSCIP e SCM.”

Agora vocês têm os diretrizes do Programa Nacional de Microcrédito Produtivo Orientado (PNMPO).

Será interessante acompanhar esse programa nos anos a vir, dado, por exemplo, a meta de aumentar o número de agricultores familiares na produção de biocombustível a 600.000 até, me esqueço do ano — 2020?

Conheço o discurso da esquerda o suficiente agora para entender o signficado do adjetivo “produtivo” — o contrário do capital “especulativo” que paga as férias em Miami da maldita burguesia parasita..

Sou principiante na questão, pois não esperem grandes insights de mim.

Ainda assim, sinto o cheiro de uma boa pauta aqui.

Tantas vezes, os Stossels do mundo levantam expectativas de soluções mágicas, enquanto a diferença entre a execução bem-sucedida ou fracassada du um conceito prometedor está nos chatos detalhes.

Na bibliografia que começo a fazer sobre o assunto, parece que a primeira onda de microfinança esbarrou no fato de que, se bem que oferecia capital, não oferecia seguros — deixando o consumidor a arcar com todos o riscos.

O porco morreu? Me paga.

Se eu aprendi uma coisa sobre o mundo de negócios nas últimas décadas,. foi que quase qualquer disputa pode ser resumida pela simples pergunta, “quem assumirá quanto risco?”

Quando executivos de bancos que quebraram saem com suas “paraquedas douradas,” por exemplo, dá para perceber que, arriscando nada, não tinham os incentivos adequados à gestão responsável do banco.