São Paulo Confidencial | Démarche à Comunidade Musulmana

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CONFIDENTIAL SAO PAULO 000653, divulgado por Wikileaks, é um telegrama informativo para a Representante Especial a Comunidades Musulmanas do Departamento de Estado, enviado pelo Consulado São Paulo dos EUA em novembro de 2009..

É um dever rotineiro preparar relatórios informativos sobre assuntos locais para excelências que visitam.

Este é muito interessante.

O Brasil oferece um quadro inédito para uma aproximação a comunidades de musulmanos locais. O país tem uma minoria musulmana significativa (400 mil a 500 mil) que convive com uma sociedade marcada pelo orgulho na sua tradição dediversidade e tolerância religiosa e cultural. A maior comunidade é aquela de São Paulo, uma mistura de imigrantes mais velhos com mais novos (principalmente de Líbano) além de alguns africanos and conversos brasileiros. Aproximando-se a essa comunidade dentro do “melting pot” do Brasil poder gerar oportunidades de fazer ligações indisponíveis em outros lugares e provavelmente terá uma repercussão positiva entre brasileiros não-musulmanos.

Eu aparentemente estava enganado na minha primeira nota tratando dos dados do censo sobre  essa comunidade.

Observadores bem-informados estimam uma população entre 400 mil e 500 musulmanos no Brasil. A comunidade costuma lamentar a falta de números confiáveis, devido, em parte, dizem, a falhas na metodologia do censo brasileiro. A maioria são sunnitas providnos de Líbano. Muitos dessas famílias chegaram décadas atrás e tem fortes raizes no Brasil. Um grupo mais recente tem aumentado essa comunidade mais velha. Os novo imigrantes também vêm do Líbano, mais são mais pobres e mais shiitas. Sua política é mais radical e tornam frequentemente ao Hezbollah para orientalção política. O consulado não mantém contato com esses recem-chegados, que tendem a manter uma distância de nós.

De novo, que eu saiba, um relatório sobre a imigração libanesa que não cita jesuitas e turcos invasores e a forte tradição cristã daquele país não pode ser muito útil.

Para ser justo, o consulado anota o fato.

Imigração libanesa pesada ao Brasil, a maioria cristã maronita, tinha papel importante na formação da comunidade musulmana brasileira.

Como assim? Olha, eu já li o Alqurão, mas continuo protestante frila, como dizem. Mas tudo bem, muitos tupilibaneses

são de uma geração mais velha que comemora as virtudes de um Líbano tolerante com uma convivência confortável entre judeus, cristão e musulmanos.

Beirut já era a Paris da Oriente Média, é verdade. No século XIX.  Dizem que Assuncíon já era a Beirute de América do Sul. Antes da guerra com a Tríplice Aliança.

Deixo com vocês o problemático da tradução de melting pot — metáfora culinária segundo a qual nossa própria tradição de receber imigrantes faz da nossa cultura, sei lá, uma feijoada ou moqueca ou que seja.

Tudo vai na panela para compor o sabor. Trata-se de um mito universal nos textos escolares — mito bastante verosímil, decerto, e até saudável, mais mito em qualquer caso.

Me parece, em geral, que a feijoada brasileira precisa guisar mais tempo ainda até se misturarem todos os sabores. Vocẽs foram o último país do mundo a por fim a escravatura.

Mas vocês me conhecem, sou um cara que vive apontando a fraqueza e risco de analogias fáceis — especialmente as históricas e culturais.

Também deixo com vocês o problema de como uma minoria de meio milhão — digamos 0,25% da população, geograficamente concentrada em um punhado de centros urbanos — podia ser chamada de “significativa.”

Vocês em 2000 eram 130 milhões de católicos professos e 150.000 seguidores de umbanda, segundo o censo — mas o que pensar quando minha mulher católica queima arruda e tudo mais, por exemplo, dentro do merecidamente famoso sincretismo brasileiro?

Continuo achando curioso que, uma década após o 11 de setembro, e na luz da suposta importância dessa minoria no Brasil, os diplomatas — admitindo, como bom profissionais, as lacunas no conhecimento do assunto — ainda não colheram mais dados.

¶4. (U) O relatório a seguir é uma descrição de tendências gerais nas comunidades musulmanas do Brasil, encima de dados desenvolvidos da nossa própria experiência. Os dados incluem tão somente duas viagens fora de Sao Paulo, deve ser dito, uma lacuna que pretendemos fechar no ano que vem enquanto promovemos o engajamento com musulmanos brasileiros como parte do trabalho rotineiro na nossa região de responsabilidade.

Obviamente o trabalho a ser feito é poder ouvir o que essa comunidade pensa sobre as atenções nem tão bem-vindas do Tio Sam — que, vamos encarar os fatos, tem má fama de sequestrar pessoas innocentes e sumir com elas, que nem um bando de generalíssimos argentinos. É um vexame.

Me surprende não haver alguém no consulado vasculando a Internet, recolhendo as expressões dessa comunidade.  A CIA muito provavelmente faz. Não é tão difícil assim. Qualquer um com acesso ao Google num país sem censura à rede pode fazer bastante apenas de fontes abertas.

Aposto que eu posso achar vozes falando abertamente do assunto.

Quando der tempo, eu traduzo o telegrama inteiro.

Deixo com vocês o roteiro geral do interesse na aproximação com as comunidades seguidoras do Profeta — e seu escolhido, Ali — do Brasil.

Por vários anos, o Consulado tem procurado uma aproximação com os diversos grupos de musulmanos do São Paulo(Refs A-E). Em colaboração estreita com o Consulo Geral de Líbano, Joseph Sayah, devenvolvimos uma rede crescente de contatos com sheiks e líderes comunitários sunnitas, inclusive a capacidade de dialogar com fundamentalistas sunnitas com opiniões altamente críticas sobre os EUA.

Mas já foi dito que os radicais são os shiitas. Não foi?

A gente nunca tinha problemas com o diálogo com sunnitas fundamentalistas. Estes nossos grandes amigos — os príncipes sauditas — gastam inúmeros milhões em educação religosa mundo afora, espalhando o wahhabismo.

No Iraque, peça chave da contraguerilha tem sido oferecer garantias à minoria dominante histórica, sunnita, contra a ameaça de uma população shiita com direito ao voto em eleições livres e lisas.

Ainda assim, na gíria popular, vocês também caiu no hábito de se referirem às posturas inflexíveis e dogmáticas como “shiitas,” não é?

Continuamos a ter sucesso na aproximação com grupos de mulheres e juventude , mas é difícil em uma comunidade conservadora e hierárquica onde até os sheiks amigáveis mantém os rebanhos afastados,a juventude frequentemente assume empresas familiares e mulheres ainda não tem papel de liderança. Sua visita oferece uma oportunidade de melhorar essa aproximação,  destancado programas desenvolvidos em Washington e comunicando ao Washington novas ideias que desenvolvemos localmente.

Pensar numa “comunidade musulmã” desse jeito corre o risco de, por exemplo, pensar na Globo e Record como integrantes da “comunidade de emissoras, ou os seguidores de Martin Luther e Savonarola  como “integrantes da comunidade cristã.”

Acho que os telegramas vazados ultimamente  não vão ser muito úteis para quem quiser saber do monitoreamento de supostos radicais no Brasil pelo fato que só vão até, quando? 2005? O que falta são os telegramas do governo anterior, não é?

Meu Démarche de 2001

Poucos lembram, mas a benção do congresso que ia passar a lei PATRIOT em 2001 foi dada por um imam. Bush andava insistindo que a Islã é “religião da paz” até enquanto a máquina do Cheney estava ocupadíssima apelando a preconceitos primordiais como parte do marketing da invasão do Iraque.

Vocês sabem.

Aqui, quando der tempo, eu reciclo uma pauta que eu pretendia fazer e vender ainda em 2001 — sem sucesso. Eu acompanhava um ex-congressista republicano de Illinois — estado com grandes comunidades árabes e musulmanas, assim como o Michigan — numa visita a Nova York.

Este congressista — Paul Findley — tinha uma história de ajudar essas comunidades a organizar-se em lobby, o Council on American-Islamic Relations — para equilibrar a grande influência do AIPAC.

Representa uma comunidade na vasta maioria conservadora-Republicana até recentemente.

O livro de Findley, uma crítica contundente ao lobby israelense, circula ainda na Internet.

Por isso, é claro, foi tachado de antisemita e alvejado, com sucesso, para derrota.

O CAIR tem sido o alvo de campanhas sistemáticas difamatórias pela turba de DIRTYARABS.PAJAMASMEDIA.COM.

Findley também foi um autor da importantíssima War Powers Resolution — resolução limitando os poderes do executivo para declarar um estado de guerra sem o consentimento do Congresso, rasgada na esteira e histéria do 11 de setembro. Mais tinha um certo receio de abordar o assunto, me lembro.

Que posse lhe dizer? Eu gsto de pessoas que andam na contramão da multidão e desafiam caricaturas.

Infelizmente, na prática, isso queria dizer que eu não venderia a pauta.

Me lembro de visitar uma mesquita em Brooklyn com o congressista para um encontro entre essa comunidade e ativistas de paz judios.

Provavelmente consto em algum relatório do FBI. Eu estava muito nervoso, pode imaginar. Fiquei sentado ao lado desse homem vestido na tradicional dishdasha e tudo, aguardando o começo do programa de palestrantes.

Começamos a conversar e aconteceu que estavamos juntos no Berkeley na mesma época — ele na Educação, eu nas Letras. Frequentavamos os mesmos café estudantis. Foi lá que eu fiz o intensivo da língua árabe com a colega Umaima Abu Bakr.

Eu tinha ambições a fazer toda a filologia do semanário — grego, latin, hebréu, aramaico, e, por que não, lingua árabe.

Romance é romance.

Língua semita é lingua semita — mas não tem muito a ver com a língua persa, salvo no fato de 70% do vocabulário moderno desta vir da árabe.

Essa estória da visita do Findley faria um boa crónica no estilo “eu sou uma máquina fotográfica” — vou ter que desenterrar meu caderninho da época.

Entretanto estão dizendo que a Hilary deveria se demitir.

Aposto que apareceria que a grande culpa da senhora não foi as práticas condenadas, mas a continuação de práticas anteriores  mas vergonhosas ainda. Vocês lembram do embaixador ao ONU, Bolton, não lembram? “I am the Walrus”? Talvez o pior diplomata na história do país.