À Toa na Rede: Uma Ontologia de Interentidades

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“Redes tem seu lado escuro. Podem facilitar o conluio e corrupção, com as externalidades sociais negativas que estes implicam. … A falta de vontade de examinar criticamente o nexo Mercado-ONG apresenta uma ameaça mortal à ONG como um mecanismo alternativo de desenvolvimento.” –Lynn Ilon

Atualização 20-12-2010: o que eu deveria fazer é começar com os esquemas dos projetos OpenCyc e DBPedia.

O que que é essa tal de Wandora, e em quais encrencas e confusões posso me meter com ela?

Sinceramente não sei dizer ainda.

É supostamente capaz de navegar uma página de HTML, recolher todos os hiperlaços, e fazer desses dados um «topic map»  — ou seja, uma classificação dos individuos naquela amostra.

Vocês vão lembrar o exemplo de Aristóteles: o homem é uma criatura viva e bipede, mas sem penas. So metaforicamente ele é um urubu.

Mas quando das funções da Wandora, não consigo fazer nada daquilo com qualquer éxito até agora.

A única coisa que eu consegui fazer foi recolher dados sobre minha própria interexistência no Facebook.

Meus contatos de Facebook me informam que o músico vangardista-barulheiro Captain Beefheart — Tom Zé me lembra do capitão do coração do boi às vezes — está morto com 69 anos.

O algoritmo sabe que minha conta fica dividida entre grupos, amigos, coisa das quais gosto, laços, atualizações, fotos, e tudo aquilo.

Pergunto porque, primeiro, domingos eu passo fazendo coisa inúteis que mal entendo, brincando com novas gambiarras.

E um coisa que eu gostaria de poder fazer é criar uma ontologia — taxonomia, se qusier — das interentidades que me interessam.

Nem sei muito bem onde começar. Fiz um pesquisa para taxonomias e ontologias de organizações em rede, de organizações em geral, de várias coisas, eu não desobri nada.

Então, como é que ficaria?

Começamos com organizações e desorganizações, suponho — fundamentado numa memoria bastante vaga de uma leitura de Weber anos atrás.

Sociedadades são desorganizações gerenciadas por organizações como governos e mercados?

Mercados são organizações ou desorganizações?

Em qualquer caso, faço o rascunho de um grupo de categorias, pensando naquele modelo tridimensional de redes que são

  1. abertas ou fechadas
  2. hierarquias ou não-hierarquias
  3. compostas de pessoas físicas ou pessoas jurídicas

Deixa eu dar um exemplo. As milícias de Rio, compostas de agentes do estado trabalhando por conta própria, seriam o quê? Coletividades fechadas de pessoas físicas que são

  1. Hierarquias?
  2. Quase não-governamentais?
  3. Informais?
  4. Ilícitas?
  5. Com fins lucratívos?
  6. Que recebem por obrigação — «pague ou vou estourar seus miolos, e nem pensar em Sky, é GatoNet ou nada»?

Então, uma rede ou grupo fechado, hierárquico, de indivíduos, seria um tipo de consórcio, segundo o modelo. Talvez podiamos falar de um “empreendimento” no caso de pessoas físicas e “consórcios” no caso de coletividades de pessoas jurídicas. Não sei.

Seria uma organização quase não-governamental, por assumir funções do poder público sem licitação.

Em qualquer caso, podiamos falar, por exemplo, no caso da “organização em rede” do qual o Instituto Millenium é um nó, de uma OSCIP fechada, sem hierarquia evidente — parece ser uma rede quase que informal de associações voluntárias –e composta de pessoas jurídicas — ou melhor, de pessoas atuando na sua capacidade de representante de pessoas jurídicas, ou ainda melhor, na penumbra entre estes dois papeis, de indivíduo livre e de representante-contratado-interessado..

Apesar de se dizer aberto, lembremos-nos, o Instituto, na sua política editorial, impõe a condição de “valores compartilhados” sobre a participação.

Um partido político com algum processo de democracia interna seria um consórcio de pessoas físicas– cada um com seu voto — fechada, com hierarquia mas sem fins lucrativos. Pode-se argumentar que serve a finalidade de um projeto de poder, e teria-se razão, eu acho. Pode-se fazer a piada pronta sobre a política como um empreendimento com fins lucrativos, e haveria casos citáveis apoiando este ponto de vista.

O elemento que eu quis acrescentar foi aquele de motivos, ou incentivos, e finalidades — juntos com modos de moblização ou persuasão, que vão entre armas de fogo engatilhados a campanhas de propaganda clandestina.

Eu deveria pensar melhor nas categorias gerais nas quais caberiam “promoção de inclusão social” e “promoção do bem-estar geral” — coisas que facilmente podem ser feitas com fins ou lucrativos ou sem-lucrativos.

A torredeira funciona bem, ajudando a me alimentar. O preço foi justo. Estou satisfeito. Meu bem-estar avançou, assim como entre os outros donos desta ótima ferramenta. Ganhamos, e a empresa ganha.  Talvez ouvimos falar do aparelho num infomercial do Polishop, ou foi indicado por um vizinho ou amigo.

Suponho que o caso que tenho em mente explicar seria a OSCIP quase não-governamental formal, mas ainda assim ilícita.

O desvio de finalidade parece ser um esporte segundo somente ao futebol, e não somente no Brasil.

Casos de desvio de finalidade não são raros, e é o Fisco amiúde que identifica e pune estes desvios.

Nos EUA, alguns anos atrás, o diretor do fisco ameaçou igrejas cujos pastores recomendavam o vote em um candidato durante o sermão com a perda de incentivos fiscais. Que coisa!

A hipótese no fundo desses pensamentos soltos vem de um estudo de 1998 sobre os riscos de deixar mecanismos de mercado operararem livremente dentro de projetos designados de utilidade pública.

A sustentabilidade de uma ONG muitas vezes corre riscos dentro de uma economia de mercados . A necessidade de fazer crescer a participação no mercado de doações, e, para isso, aumentar o perfil públic, faz com que uma ONG virar vulnéravel a influências externas. Uma ONG que começa, digamos, alfabetizando mulheres do lugar pela oferta de curso bem pode, embora sem querer, gastar cada vez mais recursos na busca de apoio financeiro. Assim, NGO pode mudar suas finalidades e métodos iniciais para não desagradar doadores de peso. Nossa ONG de alfabetização pode ter começada com o objectivo de inclusão social por meio de alfabetismo. Um doador externo, como o Banco Mundial, porém, foi fundado pela finalidade de criar e viabilizar mercados. É bem verdade que alfabetização ajuda estabilizar pessoas e abrir o caminho ao livre mercado. Alfabetização tem seu valor para ambas as organizações, mas nesse contexto, uma ONG facilmente adotará os objetivos do doador por meio do que parece ser mundanças modestas no método o entrega de serviços. Assim, as duas compartilham um meio, mas tem fins divergentes. E os fins originais da ONG são muitas vezes subordinadas.

O process de fundir os interesses da ONG com os do doador pode ser atraente, por por em jogo todo o poder de um sistema global econômico. Muitas ONGs já fizeram essa adequação — muitas vezes sem saber e sem querer. Dependência em fundos dessa fontes posam um dilema para a ONG, que vira pouco mais que um mecanismo eficiente e legitimizador pela produção de objetivos orientados ao mercado  Um militante de Oxfam explicou o ponto assim: “Se não jogares segundo as regras, não receberás a grana.”

A pressão de ceder espaço cresce cada vez mais. Doadores e agências multilaterais estão pressionando as ONGs no sentido de propagar seus próprios valores e pauta. O fim da Guerra Fria teve o efeito de desviar a finalidade desde persuasão ideológica e no sentido da construção de mercados globais.  Por tanto, a importância de trabalhar com atores governamentais diminui quando o foco muda à economia. O estado agora é pensado como sendo ineficiente. .ONGs, ao contrário, são vistas como dutos que canalizam dinheiro diretamente nos bolsos de pessoas que participam em mercados. Assim, dinheiro que antigamente foi gasto por governos com outros governos no nome de influência geopolítica vai às organizações locais.

Outro estudo de caso da mesma época:

Hearn, J. (1998). The ‘NGO-isation’ of Kenyan society: USAID and the restructuring of health care. Review of African Political Economy, 25(75), 89-100.

Dez anos depois, podemos também falar da cooptação de organizações sem fins lucrátivos públicos — ou seja, governos — pelo setor privado cujos grandes jogadores buscam condições de mercado que lhes são favoráveis, mas que não são necessariamente favoráveis a concorrência, pluralidade, e inovação.