Nova Luz | O Parque Bryant Instantâneo

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No aniversário de 448 anos, completados hoje, São Paulo retoma o caminho da Luz, bairro do centro que mais simboliza a trajetória da pequena vila que virou uma das maiores cidades do mundo. No dia 4, a prefeita Marta Suplicy (PT) e o governador Geraldo Alckmin (PSDB) assinam o protocolo do Projeto Luz Monumenta, que prevê uma reforma urbana na região.

Fonte: Folha de S. Paulo, 25 de janeiro de 2002

Minha notinha sobre a novidade da Nova Nova Luz atraiu tantos leitores que fico meio constrangido por ter deixado uma prova mais perfeita da minha ignorância sobre o assunto naquela nota.

Daqui pra frente, vou deixar os comentários para vocês.

A proposta de revitalização da região central da cidade de São Paulo conhecida como Cracolândia ignora as necessidades sociais da área, impõe padrões importados de cidades europeias que não dialogam com a cultura local e não possui informações precisas de como o capital privado será atraído para valorizar novamente a Luz. A opinião é de três dos quartos arquitetos ouvidos pela reportagem doR7 sobre o projeto preliminar da Nova Luz, divulgado pela prefeitura na quarta-feira (18).

Só quero registrar uma percepção que deixei como comentário com o colega-blogueiro ZaZnu — ZaZnu?

O Bryant Park foi designado um espaço público — isso não é erro de digitação — em 1686.

Cem anos antes do primeiro rascunho da Constituição dos EUA!

Ná verdade, exagero um pouco.

Se leia-se a bonita história do parque, vemos que as vezes foi exapropriado pelo governo — especialmente durante a Guerra da Secessão, quando virou palco de um motim contra a convocação de soldados e um linchamento em massa motivo ainda hoje de grande vergonha nacional. 

Em certa altura, foi cemitério de indigentes.

Noutra, o local da Exibição Mundial de 1854, celebrado pelo grande poeta Walt Whitman:

Around a place, loftier, fairer, ampler than any yet,
Earth’s modern wonder, history’s seven outstripping,
High and rising tier on tier with glass and iron facades,
Gladdening the sun and sky, enhued in cheerfullest hues,
Bronze, lilac, robin’s egg, marine and crimson,
Over whose golden roof shall flaunt, beneath they banner Freedom,
The banners of the States and flags of every land,
A brood of lofty, fair, but lesser palaces shall cluster.

Somewhere within their walls shall all that forwards perfect human
Life be started,
Tried, taught, advanced, visibly exhibited.

Not only all the world of works, trade, products,
But all the workmen of the world here to be represented

Isso, sim, foi um projeto urbanístico instantâneo — do qual apenas certos rastros permanecem. Quem conheçe a San Francisco conhece as ruinas da Exibição Colombiana que tomou lugar lá.

Então, o parque Bryant passou por uma rica história como um pedaço de terra dedicado à coisa pública, e sua presença lá atrás da melhor biblioteca pública do mundo continua um milagre. Como comentei como meu amigo Sopa de Alfabeta:

Portanto, representa um trabalho continuado de conservação e preservação na cara da valorização da área em que fica — na Rua 42, entre o Central e a Sexta Avenida.

É um milagre que o espaço ainda está lá para todo mundo desfrutar, contra as pressões do mercado imobiliário da cidade mais dinâmica dos últimos dois séculos..

Tem outros tantos na cidade — Battery Park, por exemplo, e a lindíssima praça no Bowling Green, onde os holandeses jogavam boliche ainda quando a cidade era Nova Amsterdã — e onde agora há um museu importante de povos indígenos das nossas Américas.

Nada mais diferente do processo da Nova Luz, de intervenções “de microondas” — e só tirar a folha de alumínio — leia-se, os proprietários e moradores — e ligar o aparelho e pronto! Pipoca-parque!

É o que me causa as maiores saudades da minha Nova Iorque — o sentido de espaços consagrados pelo tempo, orgánicos, preservados com tanto amor, expressões de uma vontade cívica que sobrevive geração após geração.

Sampa — Samboja — me dá a impressão contrária. Com cada prefeito(a), a demolição de tudo e o começa de estaca zero. Exceção honrada: O Parque de Trianon (Tenente Siquiera). Lindo lindo lindo.

E a biblioteca. Moramos junto ao sucursal de Brooklyn, este também uma maravilha. Mas uma vez quando eu queria fazer um levantamento da imprensa em língua árabe da cidade — um projeto do Gotham Gazette — um bibliotecário especializado me mostrou — eu, um vagabundo qualquer — uma riqueza de recursos inimaginável.

Eu estava contemplando a compra de um apezinho logo no meio da zona onde deveria emergir o Centro Lincoln Sambojano — a expropriação esta se alastrando por anos, parece  — e desisti.

A barra estava pesada demais, a incerteza contagiante demais.

Não me acho o único “pioneiro” possível com a mesma reação.

Quer que desse certo.

Não me leve a mal.

Mas Santa Efigênia é Santa Efigênia, para bem e para mal

.

A força de vontade de um prefeito no último mandato — ? — não muda o fato.

Acho meio curioso a mesma empresa ficar encarregada tanto da arquitetura quanto da estratégia de comunicações.

No desenvolvimento de software, há um fenómeno chamado de «brochureware» — ou seja, código que só existe como uma promessa em alguma panfleta promocional.