O Uso e Reabuso de Conteúdo Patrocinado | O Caso Veja, II

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Dando continuação à nota recente sobre o controvertido reuso, dito abuso, pela revista Veja de uma matéria que apareceu na revista Scientific American em março de 2009.

O autor do artigo, Michael Lermonick, explica sua atuação profissional e fica meio ofendido pela hipótese de que o artigo podia ter sido “uma reescritura do release.”

The idea that my original article might have simply been an unacknowledged rewrite of a press release from an environmental group is not just insulting, but also false. The Scientific American article was based on my own original reporting, nothing else.

A noção que minha matéria original podia ter sido um release de um grupo ambiental, reescrito sem a atribuição devida, não é somente insultuoso mas também falso. O artigo na revista foi uma reportagem minha original.

Peço desculpas e esclareço que não tenho e jamais tive nenhuma razão para contradizer o autor quando da originalidade do seu trabalho.

O homem trabalha 21 anots na revista Time e tem legado uma alfarrábia de matérias ao público norteamericano.

Depois, ele pede desculpas por ter sido sensível demais, explicando que o modelo de jornalismo empregado pela ONG é meio novo, e apto a ser mal-entendido. Eu acho que o entendo.

Ainda assim, já houve casos do abuso de conteudo produzido por autores com interreses não divulgados que não foram atribuídos à fonte, até no jornalismo norteamericano.

Por isso, eu ainda defendo o levantamento da hipótese, se bem que dou fé ao colega quando da integridade do seu próiprio trabalho e os cuidados éticos observados.

O escândalo da repórter que trabalhava por anos na Associated Press enquanto recebia do NED, de 2005, é um exemplo.  A agência deixou de divulgar seu jornalismo.

O Dr. Lemonick  também esclarece — e continuo traduzindo:

Também, enquanto Climate Central é, de fato, uma ONG, não sou “autor de relações públicas.” Recebo da Climate Central pela produção de jornalsimo para nosso sítio e também para veículos alheios. Até agora, tenho feito matérias divulgadas na TIME, Newsweek, Scientific American, Discover e E360, entre outros.

Meus colegas na  Climate Central já produziram matérias audiovisuais para The NewsHour do PBS.

Agora, como respondi ao Michael, eu não enxergo nada de errado divulgando conteúdo patrocinado, assim que fique atribuído à fonte que o produziu.

A CartaCapital hoje em dia reproduz contéudo da Economist — apesar desta ter uma linha editorial distinta sobre as eleições brasileiras — e outras fontes, por exemplo.  Fica sempre atribuido à fonte e diagramado de maneira que é facilmente diferenciado do conteúdo original do equipe editorial.

Mas expliquei ao Dr. Lemonick — me disse que vivia no São Paulo com 8 anos de idade e sempre quis voltar — que no Brasil às vezes nem se respeita esta regra simples e nada controvertida.

Escrevi — e traduzo:

Se eu ainda estivesse dando aulas a calouros sobre como fazer a pesquisa académica, a Veja teria recebida nota zero sem dúvida. Quando da questão de ética profissional, no entanto, ainda não sei. Citou a fonte adequadamente ou deu para entender que as palavras eram da sua própria autoria.

Ainda pergunto ao autor se, se bem que o contéudo produzido para o sítio da ONG — patrocinado por agências do governo e fundações privadas — é livremente disponível para reuso, como fica o caso de jornalismo pago pela ONG que aparece na grande imprensa e também no sítio?

O assunto e meio jesuítico, sei.

Mas é importante, e nem tão complicado assim.

Utilize as palavras alheias só dando o crédito — oo demérito, caso você descordar — ao autor original.

Se defenda e advogue interesse próprio ou de um cliente, diga isso.

Ontem, por exemplo, no Dealbook, houve uma carta de um crítico da Google, um advogado que representa partes com queixas pendentes.

Ele se defende, com toda a razão:

Eu tenho interesse no assunto e jamais fingi que não era assim.

A regra não é original comigo, aliás, mas tem tantos autores que já passou ao domínio público, como um lugar comum.