Embaixo da Lona Preta | MST e o Proconsulado

Padrão

O quê pensar do MST? Além do mais, eu e a bicha-preguiça somos criaturas urbanas, tendo pouco contato com pessoas interessadas na rinha.

O que pensar, quer dizer, após rejeitar  o rótulo “inimigo da civilização ocidental” imposto pela direitona, na pessoa de figuras como José Maria “ETA fez o 11-M” Aznar?

Seja o caso que for, este não deixa de ser um exagero histérico e imperdoável.

Não temos nada de parecido com o movimento lá em casa, faz tempo. O único exemplo do que posso pensar foi a luta sindical dos trabalhadores rurais nos anos 1970, liderada pelo César Chávez.

Além de ganhar o direito à negociação coletiva, o UFW de Chávez também militava contra o uso de agrotóxicos, alegando que perjudicavam a saúde dos trabalhadores.

Tenho uma certa simpatia, confesso, Meu pai era fiscal estadual de agrotóxicos em Colorado. Após trabalhar muitos anos no campo, estacionado ao lado das roças sendo regadas com estes venenos, morreu de um cáncer no pulmão.

Mas esta foi uma luta que sempre admitia que a consolidação do posse de terras nas mãos do agronegócio — do Vale Central de California — era fato consumado.

Que eu consigo entender, o MST e aliados compõem um movimento que promove atos de desobediência civil para criar pressão política e jurídica no sentido de fazer valer uma reforma agrária favorável aos clientes-militantes.

O fator desconhecido, para mim, é a indefinição jurídica da questão de posse. Isto é algo bem brasileiro.

O assunto deu no jornal ultimamente, em matérias sobre a atenção prestada pela diplomacia norteamericana ao movimento nos telegramas vazado pelo WikiLeaks.

O MST reclamou de uma cobertura enviesada.

O jornal O Globo publicou uma reportagem sobre esses telegramas, no domingo passado (19/12), dando destaque a existência de espiões do MST dentro do Incra e sobre uma suposta prática dos assentados “de alugar a terra de novo ao agronegócio”.

“Nunca falei e jamais falaria algo assim. No primeiro lugar, a palavra ‘espião’ é invenção do Globo, porque não aparece nos relatos diplomáticos disponibilizados pelos jornais”, denuncia Welch.

Na verdade, eu quis apontar, o único telegrama sobre o assunto que eu li até agora foi muito útil.

O telegrama é de março de 2008 e foi preparado pelo Consulado Recife.

A fonte principal foi uma autoridade da Igreja que trabalha no Pastoral da Terra — exatamente o tipo de fonte pouco ouvida pela grande imprensa. Pelo menos nossos diplomatas estão se apoiando em fontes diretas. Traduzo.

¶1. Resumo: Assim como no Sul do Brasil, o MST e seus apoiadores no sempre carente região Nordeste parecem estar mudando de tática; sendo o confronto menos atraente, parecem estar se posicionando para minimizar o confronto e aproveitar o “trem de alegria”. governamental.  Os números de militantes anda diminuindo por causa do programa Bolsa Familia, que faz pagamentos em dinheiro vivo aos pobres. Impedidos de invadirem fazendas “não productivas” na medida que o agronegócio aumenta produtividade, os ativistas de reforma agrária estão se reinventando como campeões de desenvolvimento rural em escala pequena e de energia alternativa, segundo fontes da Igreja Católica.

¶2. O Padre Herminio Canova, chefe da CPT para a região Nordeste do CNBB, reuniu-se com o agente principal em Recife o dia 21 de maio. Ele e um advogado da CPT deram uma visão geral do MST. Padre  Herminio participou numa passeata recentemente na Brasilia, e depois visitou zonas de conflito na fronteira com a Venezuela no Roraima, onde aconteceram conflitos entre povos indígenos e criadores de arroz. O sacerdote disse que a CPT lanzava uma campanha nacional para limitar a extensão de terras “na defesa de reforma agrária e a soberania territorial and alimentar.” Ele explicou que essa campanha de longa data, visando a invasão e divisão de plantações “não produtivas” tem chegada num beco sem saida; na economia atual, o agronegócio estava utilizando a maioria de terras capazes de aumentar produtividade. Assim, segundo Herminio, o movimento vai concentrar na consolidação de terras já invadidas, reivindicando rapidez na outorga de empréstimos aos integrantes do movimento e incentivando militantes a se envolverem na questão de combustíveis renováveis, e biocombustiveis em especial.

¶3. (U) O mercado de etanol tem atraido um bom número de assentados nas plantações do movimento. Estes buscam criar produtos capazes de gerarem combustiveis ou outras formas de energia em escala pequena. No ver da CPT, que se opõe às represas hidroelétricas e às condições “análogas à escravidão” de trabalhadores precŕários nas fazendas de azucar, a preservação do meio ambiente e a região amazônica recomenda o uso exclusivo de energia produzia em pequena escala. O Padre Herminio disse que aseentados na região do Rio  Sao Francisco gostariam trabalhar com a Petrobras para montar experiências nesse modelo  de produção. A zona de agronegócio nos arredores de Petrolina também possui grandes concentrações de sem-terra.

¶4. O chefe da CPT no Nordeste explicou que há cinco grupos principais na região: o  MST; uma facção dissidente chamado do MLST; duas federações de trabalhadores rurais,, a FETRAPE e a FETRAF; e o «Sindicato Central».  Também tem nove grupos menores pressionando o Governo a redistribuir terras. Durante o “Abril Vermelho” desse ano, grupos dentro dessa coalizão invadiram 14 fazendas no estado de Pernambuco. Segundo a CPT, porém, o número de fazendas invadidas e familias tomando parte está dimuindo, em parte por causa do programa Bolsa Familia, o qual distribui dinheiro a mães que vacinem as crianças e mantenham-nas na escola. Herminio disse que a chave foi entregar o dinheiro às mulheres e não aos homens, assegurando que seria utilizado para compras de comida. Segundo ele: “Uma senhora de disse, `Eu luto para conseguir bicos, qualquer coisa para ganhar o suficiente para alimentar meus filhos por 15 dias; Mas é o Lula que paga os outros 15 dias.’  É assim que as pessoas ensergam a Bolsa Familia.”

¶5. (SBU) O sacerdote disse que as mulheres do MST estão recebendo a Bolsa Familia enquanto ocupam terras, aguardando a formalização de posse que possa levar anos. Embora isso, recipientes da Bolsa Familia tem pouco incentivo de fazerem o trabalho dificil de invadir terras, sem a expectativa de melhoras inmediatas do padrão de vida.

¶6. (SBU) Críticos  dos sem-terra, entre eles um administrador de escola que se reuniu com pessoal do consulado e autoridades estaduais de segurança, chamem de “um esquema de extorsão” as invasões.. Dizem que o Abril Vermelho atrai publicidade para que os invasores negociarem beneficios em troca de irem embora. Estes críticos apontam o fato dos sem-terras poucas vezes plantarem as terras invadidas — nem com feijão ou mandioca, que vingam em toda parte dessas terras.

¶7. (SBU) A visão que Herminio tem do ambiente político mostra uma frustração como a lentidão do processo de formalizar posse de terras e obter créditos para agricultores. Disse que o governo Lula e o governo estadual de Pernambuco, do governador Eduardo Campos, aliado de Lula, fala muito de apoio aos trabalhadores rurais, mas que a estes “faltam-lhes o controle.” Acredita que, apesar da falta de recursos e créditos, os assentados deveriam tornar mais produtivos. A violência como resposta a invasores pode ter diminuida, disse, mas a CPT denunciou assassinatos em disputas sobre terras em 14 estados durante o ano passado, enquanto no ano anterior foram 8 estados.

¶8. (SBU) “Escravidão” — ou seja, condições de trabalho quase-forçado — continua uma questão preocupante no ver da  CPT. Herminio insistia muito nas condições de trabalho de pessoas em fazendas sucroalcooleiras no Sul e Oeste do País. Já ouviu reclamações de cortadores de cana no Pernambuco de que são sequestrados e levados para o Sul durante a colheita, trabalhando em condições deshumanas.

No ver do sacerdote, este é o lado escuro da cana. Por isso, ele ainda gostaria ver assentados e produtores pequenos produzindo biocombustível sob um programa do governo federal.

¶9. (SBU) Comentários: O agronegócio continua a crescer no Brasil, enquanto a desigualdade econômico permaneçe. O MST e seus filhos trabalham nas márgens da economia, denuniciando latifundiários no nome dos opromidos, mas agora perdem vapor. Esperavam maior apoio do governo Lula, mas não podem criticá o governo por causa da popularidade do programa Bolsa Familia. Por isso, o jogo se faz nos bastidores; invasões são feitas para alavancar créditos ou benefíios para parceiros do movimento, assim mantendo a paz.

Chegado nesse impasse, o movimento parece estar consolidando as terras obtidas e buscando causas mais populares para defender — tal como o meio ambiente.

Esse cabo foi preparado junto como a  Embaixada Brasília.

Eu sei, eu sei: o estrangeiro que mexe com esse assunto está cutucando um vespeiro.

De novo, confesso: a questão continua algo do que tenho pouco conhecimento. Apenas comento que, entre o discurso de Stedile e a cobertura enviesada pela imprensa, a reforma agrária consta entre aqueles assuntos dificilmente entendido por forasteiros.  Pode ser que a importância dada ao movimento dos sem-terra pela nossa diplomacia parece desmentir a noção do seu declínio — embora ainda não temos telegramas suficientes para fazer o balanço de assuntos e medir a atenção prestada a vários assuntos.

Ofereço somente uma tradução rápida para o leitor saber mais ou menos o que pensam de coisas suas. Me paguem me corrijindo e ensinando.