Relativismo Para Idiotas | Sobre a Ética Profissional de Póncio Pilatos

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O PBS reconhece que o produtor de conteúdo informativo não trabalha nem com verdades absolutas nem com isenção perfeita. A informação é, pela própria natureza, fragmentária, e portanto a honestidade de um programa, página na rede, ou outro conteúdo não pode ser medida com uma precisão científica. Por isso, a qualidade de conteúdo depende no profissionalismo, independência, honestidade, integridade, juizo, abertura à vários pontos de vista, e intenção de informar, e não de fazer propaganda, do profissional. —PBS, Código de Ética, ca. 2007

Desde então, a emissora pública e cada vez mais quase-estatal tem moderada esta relativização meio radical — e barata — da noção de que a o princípio da realidade — a busca continuada da verdade — continuaria sendo a hipótese orientadora do jornalismo profissional.

Na época, eu chamava esta relativismo barato da “ética de Póncio Pilatos” — o prefeito romano que

lavou as mãos diante da multidão e declarou: Sou inocente deste sangue, isso é lá convosco.

O assunto continua pertinente, porém.

Continua vivo, por exemplo, na resposta que eu recebi uma vez do jornalista Diego Escosteguy da revista Veja, lá no Twitter.

Perguntei sobre a falta — que me parece sistemática — da revista com padrões mínimos de comprovabilidade e direito à resposta.

A resposta foi mais o menos isto: «Nós não podemos ser responsibilizados pela veracidade das informações divulgadas. O leitor é livre. Pode acreditar ou não».

Eu, hein? 

Imaginem seu contador dizendo isso sobre sua declaração de imposto de renda. «Eu não prometo nenhuma correspondência com a realidade patrimonial do senhor. Agora me pague».

Imaginem a Bovespa dizendo isso sobre o relatório ao vivo de preços no leilão.

Como vendedor de dados, depende quase por inteiro da precisão dos dados e a rápidez da apuração e divulgação.

Entretanto, numa pesquisa sobre o nível e influência de desinformação nas eleições do ano passado nos EUA, o World Public Opinion — projeto do Program on International Policy Attitudes na Universidade de Maryland — aborda o assunto logo no começo da apresentação de resultados.

O estudo de desinformação sempre leva à questão meio delicada de o que seria a verdade.

Quando lidamos com assuntos altamente politizados, costumamos recorrer à posição de que todas as percepções seriam relativas, e de que o tratamento de qualquer opinião como a verdade será político.

Nós acreditamos, porém, que a toma dessa posição vai na contramão das necessidades de uma democracia, que precisa de meios e instituições capazes de produzirem consenso sobre fatores importantes à formação de políticas públicas.

Economistas do governo, por exemplo, frequentemente chegam a conclusões sobre o estado da economia, as quais têm um peso importante na toma de decisões nos setores público e privado.  Estes especialistas deveriam ser, e geralmente falando são, abertos a comentários de fontes fora do governo.

Resumindo, o instituto acadêmico conclui que telespectadores da rede Fox — da NEWS Corp., propriedade do magnato australiano Rupert Murdoch — foram mais aptos a acreditarem em inverdades comprovadas.

No percurso da presente pesquisa, visando a identificação de “desinformação” almejando os eleitores durante as eleições do ano passado, tomamos como nossa referência algumas conclusões de agências governamentais com uma fama de ser fortemente resistentes a pressões partidárias, entre eles o Gabinete do Orçamento do Congresso, o Departamente de Comêrcio, e a Academia Nacional das Ciências.

Também observamos várias tentativas de medir a opinião de elites, tal como a pesquisa de economistas conduzida pelo Wall Street Journal, embora estas fontes serviam apenas de apoiar nossas conclusões.  Na maioria dos casos levamos em conta a resposta dos pesquisados à opinião de especialistas, junto com as opiniões originais.  Ainda se possa se concluir que um respondente que não compartilhe a opinião dos especialistas seria mal informado,  nós presumimos que alguns respondentes teriam razões válidas para não concordarem com os especialistas e não por ficarem  “mal informados.”

Destacamos que não trabalhávamos com a suposição de uma unanimidade de opinião especializada sobre determinado assunto. Sobre alguns assuntos, tal como mudanças climáticas, há uma minoria reinvindicante. Assim, enquadremos nossa perguntas em termos de se predominava consenso ou divisão. O principais resultados da pesquisa:

«Encontrei informações enganosas, frequentemente —azul — ou de vez em quando»

1. Percepção de Informações Falsas ou Enganadoras. Uma maioria esmagante de eleitores disseram ter encontrado informações falsa ou enganadosas durante as últimas eleições. A maioria disseram que isso aconteceu com maior frequência do que o normal.

2. Indícios de Crenças Erradas Entre Eleitores A pesquisa encontrou fortes indícios de que eleitores foram significativamente mal-informados sobre muitos dos assuntos ditos chaves da campanha — entre eles o pacote de estímulo econômico, a reforma de saúde, o apoio financeiro aos bancos, a condição da economia, as mudanças climáticas, as doações políticas da US Chamber of Commerce e o lugar de nascimento do candidato Obama.

Os eleitores tinham mantinham perspectivas sobre as opiniões de economistas e outros cientistas que eram bem diferentes das opiniões realmente defendidas pelos especialistas.

Apenas 8% dos respondente acreditava no que o consenso de economistas teria indicado, de que o pacote de estímulo criou vários milhões de empregos.

3. Variablididade no Nível de Desinformação, por Opção Eleitoral Havia diferenças importantes entre os niveis de desinformação acreditad por eleitores dos dois partidos políticos com respeito aos assuntos ditos importantes pelo eleitor à determinação do seu voto..

Apenas 13% de respondentes acertaram sobre a opinião da maioria de economistas sobre a reforma do setor de saúde.

4. Variabilidade no Nível de Desinformação, Por Grau de Exposição a Determinadas Fontes. Consumidores de todos os meios de comunicação apresentaram índices significativos de desinformação. O resultado sugere que a desinformação é muito difundido no ambiente midiático geral, confirmando a percepção geral dos respondentes. Na maioria dos casos, a desinformação se diminuiu na medida que o respondente foi exposto a um número maior de fontes; consumidores de certas fontes específicas, no entanto,.apresentaram maiores índices de crenças erradas.

Assim,

No entanto, assistindo alguns noticiários levou a maiores índices de desinformação, embora

… o efeito não era simplesmente uma função de preferência partidária. Quem votou nos Democratas e assistia a Fox News também era menos bem-informado do que os eleitores que não a assistiam.

Outras fontes com telespectadores mal-informados incluíam MSNBC, enquanto o PBS tinha os telespectadores menos mal-informados sobre determinados pontos de consenso entre especialistas.

Eleitores dos Democratas eram mais aptos a acreditarem, erradamente, que a Câmara de Comércio comprovadamente canalizou doações de estrangeiros a candidatos Republicanos, entre outros assuntos.

A maioria de eleitores dos Republicanos acreditam que existam dúvidas sobre se o Obama nascesse nos Estados Unidos ou não, e se a maioria de economistas acreditassem num aumento no déficit por causa da reforma do setor da saúde.

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