A Ética dos Echos

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Um dos jornais empresariais não-norteamericanos de que eu sempre gostava muito é o Les Echos, da França.

Quando este, beirando a falência, fora adquirido pelo group francês LVMH — Louis Vuitton Moet-Hennessy, fabricante de toda que é necessária á Dolce Vita, entre calchinhas e a champanha — houve dúvidas se os novos donos não seguiriam nos passos, por exemplo, da NEWS Corporation.

Seguir nos passos do Império Murdoch implica aquela “captação de sinergias” entre o veículo e os interesses econômicos do grupo ao qual pertence. Estudos recentes sugerem que leitores e telespectadores dos veículos da empresa são mais aptos a serem desinformados.

Resume-se no famoso dito do barão da imprensa colombiana que teria dito, segundo a sua biografia não-oficial por um jornalista do Miami Herald,

Um jornal é parecido com uma pistola. Vale a pena té-lo no coldre quando chegar a hora de abrir fogo.

Em princípio, não seguiram, segundo a Charte Ethique des Echos, a «alvará ética» da nova sociedade. Eu traduzo.

A Sociedade de Jornalistas da Empresa Les Echos — daqui por diante «a SDJ» — composta por jornalistas de carteirinha da empresa, excetos os gestores e diretores de redação, tem como objeto, conforme o artigo 2 do seu estatuto, vigiar pela defesa da independência e o respeito às regras éticas dentro dos jornais da empresa.

Por sua parte, o dono da empresa, LVMH,  affirma, respeitando os valores tradicionais dos Echos, seu compromisso com os padrões de qualidade e insenção do jornal, levando em conta que tais princípios e regras são necessárias aà elaboração de um jornal econômico e financeiro da maior qualidade.

Pelo o presente Acordo, que obriga as partes e que fica refletido exoressamente nos estatutos da empresa, a SDJ, a LVMH, os redatores, a empresa Les Echos (daqui por diante, «as partes ») pretendem incorporar seu entendimento profundo dos princípios fundamentais de independência, liberdade, confiabilidade, e qualidade de informação.

A natureza perene desses princípios é imprescindível à qualidade de um trabalho de informação confiável e riguroso, o que dá aos jornais da empresa seu valor-agregado.

Agora imaginem a seguinte substituição.

A Sociedade de Jornalistas das Organizações Globo — daqui por diante «a SDJ» — composta por jornalistas de carteirinha da empresa, excetos os gestores e diretores da redação, tem como objeto, conforme o artigo 2 do seu estatuto, vigiar pela defesa da independência e o respeito às regras éticas dentro dos jornais e outros veículos da empresa.

Seria um cenário de ficção-científica, eu sei — embora o fato do novo presidente da FENAJ ser chargista freelance possa ser um sinal positivo.

Justa ou não, minha impressão sempre era que o sindicato sofria da doença de “Roberto Marinho, Jornalista”-ite.

Ou seja, que era um sindicato de praças, cabos e sargentos encabeçado por majores e capitães-de-fragata, senão por almirantes e brigadeiros. .

Ou nao.

Não vou fingir que eu entenda da política interna da categoria, que no ano passado elegeu a chapa continuista à liderança, derrotando a chapa do uspiano Pedro Pomar.

De uma entrevista com o candidato mal-sucedido ao Vemelho:

Os jornalistas são vítimas de assédio moral, têm sofrido achatamento salarial, têm suas condições de trabalho precarizadas. Estamos sendo aniquilados. Os patrões querem nos impedir de pensar. Querem nos impedir de exercer livremente a profissão. Sabemos que para rever essa situação é preciso lutar muito. É preciso mobilizar os colegas e trazê-los para essa luta em defesa de melhores condições de trabalho. Em defesa da nossa dignidade!

A defesa da cláusula de consciência — os jornalistas podem se recusar a fazer um matéria por estar em desacordo com seus princípios –, o combate ao assédio moral nas redações e locais de trabalho, o combate à “pejotização“, que é a burla das relações de trabalho que transforma assalariados em supostas pessoas jurídicas, são questões fundamentais para nós.

Eu acho o apelo à consciência individual desnecessário e contraproducente, ao lado de princípios claros e objectivos de qualidade.

Ouça o outro lado — ainda que minimamente.

Não omita fatos relevantes — ainda que enterrados no pé da página.

Coisas deste tipo.

Agora: «Pejotização», alternativamente «pejutização»?

É o comportamento empresarial de exigir que os trabalhadores constituam pessoas jurídicas para a prestação dos serviços.

Ah, okay, PJ querendo dizer «pessoa jurídica» — Você S/A, para cunhar uma nova e bela frase.

Segundo uma decisão do TJ do ano passado, repercutida pelo Correio Forense, a pejotização

… visa a fraudar a legislação trabalhista.

Fenómeno parecido já virou alvo de uma brincadeira nos Simpsons, inclusive.

O Patrão, o maléfico Sr. Burns, promote fornecer um convênio médico a todos os trabalhadores de carteira assinada.

Corte rápido ao Homer dizendo a Marge,

«Boas novas! O Sr. Burns me contratou como consultor independente! Uai, o que será essa caroça no meu pescoço?»

A famosa «vaia da Globo» é oferecida pelo ex-Global Rodrigo Vianna como o símbolo de um sentimento entre profissionais que talvez gostariam poder ecoar a alvará dos Echos.

«Boas fontes – que mantenho na Globo»[, o Vianna relatou na época] «– contam-me que o constrangimento foi tão grande que um dos chefes de redação da sucursal paulista preferiu fechar a persiana do “aquário” (aquelas salas envidraçadas típicas de grandes corporações) de onde acompanhou a reação dos jornalistas. O chefe preferiu não ver».

«A vaia dos jornalistas, contam-me, não vinha só de eleitores da Dilma. Há muita gente que vota em Serra na Globo, mas que sentiu vergonha diante do contorcionismo do  “JN”, a serviço de Serra e de Kamel».

Realmente, o episódio irrisório do Assalto na Careca de José Serra foi um dos mais ridículos e vergonhosos que já tive a sorte de observar.

Fosse o Serra, eu teria demitido o assesor responsável pela articulação na hora — alegando o pecado de bebericar no serviço.

Fonte da imagem, um paródia photochoppeada: DSG Online.