Hillary e Yoani | As Desautorizadas

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Dois casos de campanhas montadas para solapar a credibilidade de informações quase como se fossem não-oficiais ilustram os estragos feitos ao bom nome dos EUA pelos recentes vazamentos de telegramas sigilosos e quase-sigilosos.

  1. A pretendida desmoralização da diplomacia norteamericana pelo governo chileno de Piñera.
  2. A pretendida desmoralização da blogueira cubana da Generación Y — também almejando o que parece uma iniciativa de “diplomacia pública” norteamericana

Segundo a Folha de S. Paulo, a diplomacia norteamericana já repudiou uma análise técnica e bastante interessante, da campanha montada contra a rescuscitção de antigas denúncias de corrupção em torno do então candidato chileno Piñera.

A campanha até conseguiu forçar a demissão do presidente do sucursal chileno da ONG Transparency International, segundo o telegrama vazado pelo WikiLeaks.

Habanos Impuros e o Jardim Banda-Larga de Faça-Clique

Mas primeiro, se botar o nome da blogueira polémica Yoani Sánchez no Google News — em inglês — você recebe de volta centenas de resultados citando-a como fonte acreditável de informações e opiniões.

Quem defendem a Cuba dos irmãos Castro, entretanto, alegam um esquema clandestino de promoção, em escala industrial, da blogueira — ou seja, uma campanha no estilo astroturf de moralização da heroina de jornalismo cidadão.

Infelizmente, a crítica está cada mais convincente — independentemente da avaliação que você fizer do Reino da Barba.

O primeiro resultado crítico, digamos, que eu consegui tirar de uma busca recente sobre a jornalista cidadã foi do diário suiço  Le Temps — en français — por exemplo.

A entrevista com o antigo responsável pela secção de interesses do Tio Sam na Habana traz revelações que fortalecem essa crítica.

Numa entrevista com o jornal suiço, o encarregado da missão quase não-oficial à Habana comenta, textualmente,

«Eu ficaria muito chateado se o grande número de conversas que já mantive com a blogueira Yoani Sánchez fossem divulgadas», disse o ex-encarregado norteamericano.

Fonte: LeTemps.ch | Ma rencontre avec l’auteur de câbles sur Cuba.

Tradução minha do francês.

O surprendente, no meu ver, continua sendo o fato de que os documentos livremente disponíveis sobre  a chamada “diplomacia pública” demostram um reconhecimento claro dos riscos inerentes na percebida dependência de vozes dissidentes no apoio do contribuinte norteamericano. 

Antes de ser condenado a 20 anos de prisão pelo governo iraniano no ano passado — no momento continua livre após pagar uma fiança de um milhão de euros — o Hoder, autor do blog canadense-iraniano Editor:Myself, costumava avisar integrantes da blogosfera dissidente daquele país contra os perigos desta dependência, ainda que apenas aparente.

Na Habana, entretanto, deentro da missão diplomática, um jardim de faça-clique.

Na secção de interesses dos EUA na Habana, uma sala equipada com 40 computadores era accesível por cubanos autorizados.

O fato não pode deixar de alimentar suspeitas.

Levanta também a bola de uma censura alegadamente hipócrita:

Uma dúzia de visitantes à sala que não respeitavam as regras pelo uso da «biblioteca» eletrônica foram impedidos de acessar a sala um dia, provocando a ira de alguns dissidentes como Vladimiro Roca e Elizardo Sanchez. Os dois se reuniram com o Michael Parmly e as conversas foram divulgadas pelo WikiLeaks.

O telegrama original está aqui.

Mandem bala.

Por enquanto, ressalto alguns trechos, que traduzo.

Na reunião dia 24 de abril [de 2006], os dois [Roca e Sanchez] criticavam a prática de USINT de barrar a entrada de cubanos que repetidamente têm causados ditsúrbios nos centros.

Agora são dois os telecentros patrocinados pela diplomacia ianque na Cuba.

Os dois entregaram um a carta de uma página com a lista de 10 jornalistas independentes descritos pelos autores como “gente de credibilidade comprovada, tanto politica como civicamente” que “trabalham cada dia pela democracia na Cuba” mas que têm sidos impedidos de ingressar nos dois centros de internet do USINT desde 2004.

Na versão divulgado pelo Wikileaks, os nomes são redatados do texto, embora mantidos no título, vale observar.

Possivelmente pretendendo desmoralizar o colega XXXXXX, com o qual se desentendeu, o XXXXXX reclamou da aparente exclusão de alguns ou todos os 10 jornalistas, produzida em 2004.

XXXXX disse que os jornalistas foram excluídos após recusarem a fazer cobertura do programa XXXXX Pela Promoção da Sociedade Civil, ou darem uma cobertura negativa. XXXXXX pediu ao COM a reconsideração da lista negra, chamando-a de draconiana e alegando que tinha posta jornalistas independentes, já perseguidos pelo governo cubando, em uma posição paradoxal.

O «COM», segundo o telegrama, defendia-se de denúncias de favoritismo. Traduzo.

O COM defendia a necessidade de disciplina nos telecentros, dizendo que o USINT não pratica politicagens nem favoritismo quando do acesso aos telecentros Lincoln e Roosevelt.

Agora ficamos sabendo dos nomes dos dois telecentros.

Não seria mais culturalmente senśivel dar o nome de patriotas latinoamericanos? Todo mundo, desde liberais até comunistas, comemoram o Marti, por exemplo.

O diplomata entrevistado pelos suiços muda o assunto desde o constragimento à diplomacia norteamericana — flagrada praticando uma censura “aparente,” nas palavras do próprio autor do telegrama — para o suposto contrangimento às fontes citadas.

«Estes são nomes conhecidos internacionalmente. O vazamento lhes custa pouco. Mas se tratasse de um pai de família pouco conhecido,,aparecer no relatório vazado é capaz de perseguí-lo a vida inteira. Eu ficaria muito chateado se o grande número de conversas que já tive com a blogueira Yoani Sánchez fossem divulgadas», disse o ex-encarregado norteamericano.

O senhor acaba de divulgar que este aconteciam.

O diplomata também faz questão de alegar a imparcialidade na escolha de pessoas permitidas a acessar a “fazenda de faça-clique” da missão.

Um diplomata até chegou a ser convidado por meio de uma Comissão de Defesa à Revolução. «Ele me perguntou se podia passar por lá. Eu não vi porque não. Devemos ouvir o povo cubano.», insiste Michael Parmly, que contava com o apoio da secretária de estado Condoleezza Rice e despertou o interesse do presidente George W. Bush durante uma reunião no Gabinete Ovalado.

Uma lição importante que você aprende vivendo fora dos EUA é que só porque as pessoas não gostam de governos dos quais a gente também não gosta não quer dizer que gostam da gente.

Se se confirme a censura a vozes cubanas críticas da nossa política, a explicação dada pelo entrevisado parece bem mambembe:

«A divulgação dos documentos pelo WikiLeaks traz o risco de que os cubanos relutem a falar conosco.. Assim, o Washington pode acabar menos bem informado. Diplomatas intimidados podiam acabar se autocensurando. Se eu tivesse previsto o vazamento, eu teria reduzido o volume de relatórios pela metade. Antes, tinhamos um plano para baixar o nível de sigilo dos telegramas. Agora, o reino do sigilo fica reforçado.»

Os censurados «baderneiros» por ocaso relutassem a falar da sua opiniãio?

Piñera x Hillary

Entretanto, vindo do centro-direita durante o atual governo de Obama, outra desmoralização da nossa diplomacia.

A Folha de S. Paulo revela um suposto pedido de desculpas tão surprendente que pretendo aguardar a resposta oficial da diplomacia de Tia Hillary antes de acreditar nele.

Na verdade, a matéria só tem uma fonte: a diplomacia chilena.

Até agora, temos apenas o jornalismo de “disse que disse.”

O relátorio em questão visava explicar como a campanha política bem-sucedida de Piñera logrou minimizar denúncias, ente antigas e nem tantas, contra o candidato.

Piñera pagou uma multa e pediu demissão como diretor-executivo da LAN Chile em 2006 por conta de uma compra de ações com timing suspeito.  Como de praxe nesse tipo de acordo com reguladoras de bolsas de valores, não admitiu responsibilidade pessoal.

O epiśodio é chamado pela autora do telegrama de um escândalo relativemente menor.

Segundo a diplomacia chilena informou à Folha, a diplomacia da Hillary agora desemente e desautoriza a análise.

“Valenzuela assinalou que isto não representava a opinião dos EUA nem de sua diplomacia. São funcionários que enviaram relatórios como fazem muitos funcionários no mundo todo”, acrescentou o chefe da diplomacia chilena em relação aos documentos divulgados esta tarde pelo jornal espanhol “El País”.

«Assinalou»?

«Assinalou»?

Precisamos aqui das — e temos o direito ás — entre-aspas letras-mortas.

Na verdade, o relatório em questão é uma análise padrão das relações públicas da candidatura de Piñera, no que diz respeito a antigas denúncias de comportamentos criminosos –algumas feitas ainda sob a ditadura de Pinochet.

Eu até acho-a uma boa e competente análise — especialmente após conversas minhas com uma co-cunhada chilena que trabalha nas RP no páis vizinho.

Neste novo vazamento foi colocado ênfase em Sebastián Piñera quando este foi candidato à Presidência, sobre quem os Estados Unidos mostraram interesse após ter aparecido nas pesquisas como o provável substituto de Michelle Bachelet (2006-2010).

“Homem de negócios competitivo e político que tende a tomar riscos, Piñera esteve vinculado no passado a questionáveis ações sobre seus negócios, mas os eleitores parecem relativamente desinteressados por estas acusações“, indica a embaixada americana em Santiago.

A publicação acrescenta que é “tenaz e competitivo, maneja tanto seus negócios como sua política até os limites da lei e da ética”.

“Até os limites” não é “fora dos limites.”

A avaliação polêmica:

Algumas de suas ações, como emprestar dinheiro a empresas fictícias, parecem atravessar claramente a linha da incorreção legal. Outras vezes, no entanto, parece mais uma vítima das circunstâncias, da negligência ou da imensa extensão de sua fortuna“, acrescenta o documento.

Esses comentários, redigidos pela número dois da embaixada, Carol Urban, também foram comentados pela ministra porta-voz, Ena Von Baer, que sustentou que “opiniões de funcionários pouco criteriosos e mal informados afetaram líderes, incluindo a ex-presidente Bachelet”.

Na verdade, que eu consigo saber, a Sra. Urban foi muito bem informada sobre a situação, e muito ligada à realidade de uma campanha política moderna.

Especialmente notável nesse episódio foi o successo da campanha política em virar a mesa, redirecionando os holofotes no Chile Transparente e afastando o debate da denúncia original.

Tal inversão se explica por três fatores: um equipe de campanha impressionante e entusiasmado; a estratégia murcha de comunicações do opositor, Eduardo Frei, e o viés conservador da imprensa de Santiago.

Se não fosse o caso que as relações públicas podem, sim, virar o maré da opinião pública, apesar dos fatos, não seria a profissão tão generosamente remunerada que conhecemos.

O que vale pelo desinteresse dos eleitores no caso do mensalão também vale para denúncias da responsibilidade executiva de Piñera: há sempre uma certa ambiguedade em questões deste tipo, entre a responsabilidade pessoal e a responsabilidade abstrata para ações feitas no nome da autoridade.

No abstrato, o presidente da república — ou da empresa — é responsável para tudo que acontece na sua administração.

Na prática, a teoria é outra.

Em fim, na minha opinião do momento, o relatório sobre a agressividade empresarial e político de Piñera não apresenta motivo algum para constrangimento — peca apenas pela franqueza — enquanto a possível censura a vozes inconvenientes da dissidência cubana apresenta bastantes.