Balneabilidade Rebaixada | A Vingança do Meu Cadáver

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Ainda não há novidades no caso do cadáver adotado recentemente por esse espaço, o assassinado vereador guarujaense Romazzini. Estes casos costumam levar uma década para serem resolvidos, quando houver resolução.

Segundo minha mulher disse, porém, o surto recente de diarréia no balneário paulista deve ser algo parecido com a famosa vingança de Montezuma, o último imperador azteca  — a diarréia que assola qualquer gringo que bebe das águas sem antes fervé-las.

A patroa ainda acredita em urucubacas.

… Desde domingo, 850 pessoas já procuraram rede de saúde da cidade; no ano passado, problema semelhante atingiu moradores e turistas.

A Cetesb não comentou a possibilidade de a água do mar ser a causadora da doença e disse ser preciso aguardar o resultado da balneabilidade das praias. Procurada, a Sabesp informou, por e-mail, que “garante a qualidade da água”.

O release da empresa disse textualmente isso, é verdade.

A Sabesp garante a qualidade da água do Guarujá, atendendo aos padrões de potabilidade da Portaria 518 do Ministério da Saúde. Desde o ano passado, a empresa tem aplicado um processo de filtração da água captada do rio Jurubatuba, o que atesta ainda mais a qualidade da água. A conclusão do Sistema Jurubatuba, que inclui a construção da Estação de Tratamento de Água (ETA) Jurubatuba, será neste ano e garantirá o abastecimento de toda a população da cidade nos próximos 20 anos.

É uma afirmação estranha — especialmente quando come gato por lebre, falando de potabilidade quando o escândalo potencial é de balneabilidade.

Segundo uma reportagem da Agência Estadão, então — reproduzida pela Tribuna local de Santos — pode ter sido temerário por parte da Sabesp “garantir a qualidade da água” — falando, aliás, da potabilidade de água filtrada para consumo.

Repito: o assunto aqui é a balneabilidade.

Esta determinação cabe à Cetesb, e a Cetesb acabou interditando a praia de Guarujá ontem.   

A Sabesp parece desconversar sobre o caso.

Afirmações categóricas quase sempre são mortíferas nessas situações.

Levam inegavelmente a denúncias de cara-de-pauismo.

O leitor cuidadoso saca do «release» da empresa que o sistema de filtragem está inacabada ainda. Este leitor perguntará como pode-se garantir a qualidade quando o sistema de filtragem ainda não funciona a todo vapor — deixando água escapar sem ser tratada, presumimos, o que dever afeitar a balneabilidade, hein?

Muito melhor foi a explicação da senhora engenheira da Cetesb, que traz todo um contexto ao assunto.

As condições para banho nas 155 praias do Estado de São Paulo melhoraram nesta primeira semana do ano, em comparação com o mesmo período de 2010. São 34 praias impróprias, contra 52 do ano passado — o que representa uma redução de 34%.

Houve progresso, mas este depende em parte do tempo.

No entanto, o relatório da Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb) mostra que uma em cada cinco praias permanece imprópria. Além disso, a situação deve piorar com as fortes chuvas no Estado.

De acordo ainda com o balanço, as praias do José Menino, em Santos, e Itaguá, em Ubatuba, apresentam dois pontos de medição apontando mar inadequado. Na Baixada Santista, Santos tem todas a praias impróprias. Já no litoral sul — Peruíbe, Itanhaém, Mongaguá e Ilha Comprida — todas estão liberadas para banho de mar.

A gerente do Setor de Águas Superficiais da Cetesb, Claudia Conde Lamparelli, diz que a chuva piora a balneabilidade das praias e, na primeira semana de 2010, choveu mais do que este ano.

A explicação está na metodologia da Cetesb. Os pontos de medição detectam a quantidade de coliformes fecais vivos, que indicam se a água teve contato com esgoto.

Estamos lendo recentemente de enchentes nas ruas da Guarujá.

Os blogueiros sujos do lugar, a Inconfidência Guarajaense, ironizam a situação sem tregua — acima.

Em janeiro de 2010, Guarujá enfrentou um surto de virose. Mais de 1.700 pessoas tiveram a doença em apenas um mês. Na época foi feito um levantamento para saber de onde veio o vírus, mas a resposta não foi encontrada.”

Como assim, não foi encontrada? São Paulo lidera o continente em questões de saúde pública.  Foi comprovada que o suspeito mais óbvio, o coliforme fecal, não tinha a ver com o problema? A quem cabe determinar isso?

A prefeita guarujaense — onde o ex-presidente Lula deve se aposentar num triplex de Bancoop, não deve? — negou a existência de um surto na Rádio Bandeirantes, dia 4 de janeiro.

A Prefeita do Guarujá, Maria Antonieta de Brito, negou a existência de um surto de diarreia na cidade. Em entrevista à Rádio Bandeirantes, a prefeita afirmou que, por enquanto, a maioria dos atendimentos tem como causa maus hábitos alimentares e de higiene.

Não há surto, e a causa desse surto inexistente é o cidadão sujo.

Também não-balneaveis, segundo o Diário da ABC: as águas da represa Billings.

Diarréia e vômitos. Esses são os sintomas mais comuns que uma pessoa pode desenvolver após nadar em água contaminada por bactérias. Mas não são os únicos males a que os banhistas da Prainha do Riacho Grande estão sujeitos enquanto a área for considerada imprópria para banho pela Cetesb

Desde outubro do ano passado, o GAEMA investiga denúncias de crime ambiental na região, atribuído à Sabesp. As denúncias foram feitos pelo sindicalismo da região.

A Sabesp terá que dar explicações ao Ministério Público sobre denúncia de irregularidades em oito estações de tratamento de esgoto na Baixada Santista. Isto porque, o Grupo de Atuação Especial de Defesa do Meio Ambiente, o GAEMA, de posse de imagens e documentos, instaurou inquérito civil, nesta quinta-feira (21/10), para apurar possível prática de crime ambiental por parte da Sabesp.

A decisão foi amparada por denúncia encaminhada pelo Sindicato dos Urbanitários da Baixada Santista (Sintius), que mostra que litros e litros de efluentes, in natura, estão sendo despejados diariamente em rios e praias da região. E, ao que tudo indica, por pura falta de zelo da Sabesp.

Isso porque estrutura para o tratamento correto desses resíduos existe. O que falta, na verdade, é a manutenção necessária para que ela de fato funcione.

“Das nove unidades existentes, constatamos que oito delas estão operando de forma bastante precária”, disse o presidente do Sintius, Marquito Duarte, contando que nesses locais há vários equipamentos abandonados e sem funcionamento; estruturas que foram inauguradas este ano, mas que ainda não entraram em operação, entre outros problemas de ordem técnica.

Sabesp é uma empresa de economia mista com ações nas bolsas de São Paulo e Nova York.

Suas comunicações institucionais são próprias a uma empresa motivada principalmente pelo desejo de fazer subir o preço da ação — o que de fato está acontecendo, à prova do crise financeiro global.

O qual é admirável do ponto de vista dos acionistas, seja dito. Zelar pelo dever fiducíiário aos acionistas tem a importância que tem. Viuvas e aposentados dependem do bom desempenho. Não duvido de que a empresa tenha perspectivas de crescimento e rentabilidade bem animadoras.

Nesse mesmo sentido, todos nós já assistimos o bombardeio de propaganda da TV, voltada sempre para o futuro brilhante dos produtos e serviços da empresa.

É importante manter a imagem pública de uma empresa competente, avançada e bem-sucedida.

O maior perspectiva de crescimento da empresa vem da exportação de gestão e tecnologia de ponta para outros estados e  paises, que já começa a ser feito.

Mas a Sabesp continua vulnerável às manifestações dos temidos consumidores-vigilantes, e as providências tomadas são fracas.

É só ficar parado diante a Secretaria Estadual do Meio Ambiente, lá perto do Rio Pinheiros e a Editora Abril, numa tarde quente e abafada.

Não são necessários testes químicos para sentir o cheiro de merda no ar, especialmente quando chove. O que acontence constantemente.

Aqui em casa, a gente só bebe água engarrafada. A mãe do meu sobrinho vive uma ansiedade terrível pela saúde do moleque, comprando os filtros mais avançados no mercado. Eu ainda me lembro de ler, na revista National Geographic, como a Cubetão já era o lugar mais poluído do mundo — campeão na criação de neném de duas cabeças.

É melhor não sobestimar a ansiedade ambiental do paulista médio.

À mesma vez, porém, nossos contatos com a empresa aqui em casa deixaram impressões posítivas, devo dizer.

Fizeram testes em todas as privadas na rua para impedir os vazamentos de esgoto nu e cru no corrêgo lá embaixo. O mal cheiro sumiu. Ficamos felizes.

Bom, mas moramos num bairro rico.

Em fim: do ponto de vista de comunicação empresarial, negativas categóricas e desconversa são facilmente ironizadas.

É sempre melhor descolar um engenheiro para explicar as sutilezas da situação, como a Cetesb fez. Eu confio na engenheira. Não esconde as má notícias, mas consegui também inserir algumas tendências positivas. Aumenta o salário da assessoria. Fez bem.

Apoiado nessa fonte, a Agência Estado fez um balanço realista do problema enfocando os fatores externos — poupando a Sabesp o pior das suspeitas que agora circulam.

Pelo mesmo princípio, talvez seria melhor também botar algum técnico na secretaria estadual do meio ambiente — em vez de um advogado de 30 anos, filhote de um político saudoso, e sem qualificações ambientais visíveis no currículo.

Mensagens dramática que voltam e lhe mordem a bunda.