Neologismo do Dia | A Alma Penada do Judimilerismo

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A jornalista do Times entrará no dicionário como o exemplo maior do «jornalismo embutido»

Uma novidade notável que necessita a cunhagem de um novo neologismo: o «judimilerismo».

Em 2004, a jornalista Judith Miller, então do New York Times, chegou a ser comemorada como heroina da liberdade de expressão pela Society of Professional Journalists.

Alimentados por uma Garganta Profunda dentro do governo,  ela e outros jornalistas tinham vazados a identidade de uma araponga norteamericana — assim se prestando a uma campanha difamatória contra o marido da espiã.

O marido é um diplomata aposentado que desmentiu desinformações oficiais sobre a venda de combustível nuclear ao Iraque — e fez isso ainda nas paginas do New York Times.

Depois, a Judy recusou a identificar a fonte desse vazamento altamente criminoso e foi presa por desacato.

Sua fonte, o assessor-chefe do vice-presidente, foi condenado criminalmente depois pela tentativa de impedir uma investigação da justiça federal sobre o caso.

Teve sorte de não ser processado por traição.

A espiã trabalhava com fontes sigilosas perto ou dentro do programa nuclear da Irã — ou seja, era a pessoa na melhor posição de saber o que os iranianos realmente faziam e pretendiam.

Sei como a CIA fica temida e odiada, mas pensa bem: é melhor um governo armado até os dentes com bombas nucleares ter a informação certa de fontes absolutamente confiáveis e bem-informadas, antes de se precipitar.

O assessor vazador-condenado foi indultado imediatemente pelo presidente da república.

E agora,

Judith Miller — chamada de “Judy” pelo Fox News — ironizou recentmente o “mal jornalismo” praticado por Julian Assange do WikiLeaks — “mal” porque, segundo ela,

JUDITH MILLER:… Porque nem lixava pela verficação das informações que divulgava, nem pelo prejuizo que podia causar às pessoas mencionadas.

Miller não tem moral algum para falar do assunto, porém. Foi logo ela que jogou um papel central na campanha de desinformação em apoio à invasão de Iraque — que levou à morte de decenas de milhares de iraquianos e 4.430 soldados nossos .

Como ela diria depois sobre seu papel como jornalista embutida durante este período:

Não estava comigo a avaliação da informação oficial, nem a análise independente. Meu dever era apenas informar os leitores do New York Times sobre o que o governa achava do assunto.

Assim, o judimilerismo pode se definir como uma variação no tema da ética de Póncio Pilatos,  previamente definida nesse espaço.

“Eu não sou responsável” pela qualidade das informações que divulgo.

Na verdade, o manual de integridade do redator-executivo Bill Keller tem regras firmes pregando o contrário.

Alguns acreditam que a função essencial do jornalista é, sim, avaliar a confiabilidade das informações, questionar as fontes, e analisar informações antes de divulgá-las.

Eu acredito nisso.

Após a premiação pela SPJ — da qual me desafiliei por causa do prêmio vergonhoso, seja dito — a Judimilerista foi discretamente oferecida uma aposentadoria antecipida pelo jornal.

O Times então instituiu o posto do Redator Público, deu-lhe poderes dos quais o ombudsman da Folha de S. Paulo nem seria capaz de sonhar, e assim começou o lento processo de recuperar a credibiliade após os estragos feitos por Judy e outros.

Em vez de aproveitar a aposentadoria, porém — onde haveria alguma possibilidade dela ficar lembrada pela história como a correspondente diligente e competente que era em outros tempos — a Judy resolveu procurar emprego no esgoto do jornalismo nativo.

A queda da Judy a levou primerio ao Fox News, e agora até as profundezas escuras do sítio noticioso NewsMax, segundo uma matéria de Dave Weigel, da revista Slate.

Após deixar o jornal em 2005 — graças ao escândalo da araponga desmascarada e suas reportagens embutidas durante o pré-guerra  — Judy finalmente conseguiu novo emprego na imprensa.

Trabalha informalmente — sem contrato — como comentarista convidada no Newsmax, o orgão neoconservador estabelecido em 1998 por  Christopher Ruddy, hoje um grupo milionário de multimídia.

Na verdade, os maiores pecados da Judy viriam da pós-guerra, quando ela comandava um exército de Brancaleone furiosamente vasculhando os desertos da Mesopotamia pelas provas — jamais achadas — de que a ameaça iminente das armas do Saddam existia, sim.

Repito: A Judy sairia melhor na história dessa merda gigantesca se simplesmente se deixasse cair paulatinamente no esquecimento.

Quando um jornalista da TV Globo Rio foi preso alguns anos atrás, por ter recibido da jogatina em troco de espiar a policia, uma busca no site do Globo no dia seguinte mostrou que cada e qualquer menção do nome do cara tinham sido apagado da memória instituicional pública da empresa.

Nós não temos essa opção, infelizmente.

As pessoas sempre ficam sabendo. O conteúdo do Times é vendido para decenas de bancos de dados de pesquisa como aqueles livremente disponíveis a qualquer cidadão na biblioteca pública. Haveria uma gritaria danada se o Times fizesse igual.

Agora, o jornalão deveria achar a Judy bem sem-vergonha, emprestando o que resta de um bom nome totalmente esvaziado só para mal-assombrar a casa do Times-Mirror.

Se não fosse meio preconceituosa, a frase «Judyação» talvez serviria para definir o fenómeno.

Exemplo: “Os podres poderes da Veja estão fazendo mal judyação aos jornalistas íntegros da Editora Abril.”

É heresia, eu sei, mas mantenho a crença: há profissionais íntegros na Editora Abril. Só que nunca chegam às chefias.