Actus Interruptus | Porque Não Interagirei Com Vocês

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Li com bastante atenção a notícia oontem do Fórum Social Mundial sobre o lançamento do ONG-NGO., um “plataforma de plataformas” prometendo maior coesão, integração e capilaridade às inciativas montadas pela rede mundial — em lugares com eletricidade, é claro..

Sem entrar nos méritos técnicos — na questão de RITS, que dizer — o que pensar, então?

Acontece que no meu continente, o nó deste plataforma é a bacaníssima Interaction, enquanto no seu é a boa e velha ABONG, pela qual tenho muito respeito.

No sítio do foro, botam até aquele mapa bacana de Google — que de tão banal que já virou, eu até tenho uma página da Geosamboja no meu sítio profissional agora.

Então, pois ao negócio. Vale a pena me mobilizar pelo plataforma do meu país?

Não vale não.

Eu explico porque.

Primeiro, eu tomo um raio-X das instituições envolvidas.

No coraçao da campanha é o mesmo mecanismo de sempre — mantida pela USAID e Millenium Challenge Corporation — com os mesmos jogadores montando as mesmas campanhas cansadas e lacrimosas.

É a Parada de Reveillon de Pasadena.

Não enxergo abertura alguma a novas vozes nos fluxos de debate redefinidos com tamanha alarde.

Entretanto, o Departamento de Estado continua pagando blogueiros a dizerem-lhes o que vocês devem penszar e se sentir sobre as coisas do mundo.

Não, acho que vou aproveitar estando aqui para falar com vocês boca a boca, ou seja, botar a boca no trombone sobre o que a novela da Globo não lhe diz sobre como é ser gringo.

Os números significam algo nesses diagramas. Nominalmente, por exemplo, descubro uma estrutura hierárquica — nesse ano, com uma forte francófonia por causa dos senegalêses.

Essa superioridade hierárquica = 0.04 não compare-se, porém, com a sólida centralidade = 1.00 dos gringos de sempre.

Que eu consigo observar, mudou absolutamente coisa nenhuma na burocracia de “apoio a desenvolvimento” desde os anos de Bush Filho.

Como sempre gosto mencionar como um exemplo, a senhora atualmente responsável pela “diplomacia pública” — leia-se, propaganda — do país já era diretora-executiva do canal Discovery, e cuidou da globalização de MTV por 20 anos antes disso.

Produzimos Walt Whitman  e Mark Twain mas eles acham MTV mais fácil na construção de diálogos interculturais. Todo mundo ama aos Beatles, hein?

Em vez de conhecimento, estamos oferecendo o mundo infotenimento.

Viu o Discovery ultimamente? Eu me lembro dos anos 90s quando houve conteúdo de qualidade a ser achado. Agora, é caçadores de fantasmas e intermináveis programas sobre Nostradamus e o fim do mundo em 2012. Virou um canal anti-educativo.

E por que critico o projeto por ser mais um ato de aparecer simpático pelos mesmos velhos Democratas? Acima, a estrutura interna do nó mais central.

O agência MOVEMENTS.ORG dos Democratas — do Blue State Digital — simplesmente montou a mesma coisa sob nome parecido. Participar. Interagir. Tomar Parte. Envolva-se. Temos o sítio dos mil dias — uma tentativa de identificar a imagem de Obama com a do Kennedy que está cada vez mais irrisória.

Nem tenho a energia necessária para comentar a seleção que entre no campo com suas campanhas. São as velhas conhecidas.

Descendo mais um nível no sentido do cerne da coisa — esses dados frequentemente aparentam globos tridimensionais — chegamos à encruzilhada setor privado-público. Como se fosse uma parceria, se pensar bem.

Synergos é uma incubadora de ONGs daquelas descritas por mim recentemente. Parece ser o braço filantrópico do grupo Pearson, dono do Financial Times. É presidido por um banqueiro branco sudafricano dono de monte de canais de mídia educativa.

Toda e qualquer iniciativa socioeducativa empenhada nos paises EAGLE — Leste de Ásia, America Latína e Esqueci-me — tem que ser liderados por homens brancos donos de impérios de mídia.

E agora chegamos à máquina de sempre. A mesma mídia corporativa — Washington Post, New York Times, Reuters — as mesmas quase-ONGs — U.S. Center for Public Diplomacy, da Universidade de California do Sul, fachada óbvia no Instituo Republicano Internacional, dando o martelo para Jimmy Carter e seu Projeto Habitação, que conta com a ajuda do braço do NED que é a parte do sindicalismo, Solidarity Center.

Tudo vista uma vez na TV e decenas mais vezes em todos os plataformas sociais que há.

Em fim, um samba de enredo cansadíssimo.

Eu assisti um FSM uma vez, o de 2003.

Como o dólar estava todo-poderoso na época, eu ficava no mesmo hotel que o governo-eleito. Tomei um chopp com Genoino. Eu estava naquele show de Jorge Ben Jor, putz, que maravilha.

Agora, quero declarar: Eu não sou embaixador-cidadão do meu país porra nenhuma. Sou embaixador-cidadão da minha própria bunda e essa rua aqui onde criamos nossas gatucadas.

Se o hambúrguer brasileiro custa a algum vagabundo de Seattle seu emprego, deixa ele ir se catar. Sou de Nova York, aqueles da outra costa me são como gaúchos agora.

Mas! Mas se eu fosse vocês, talvez me sentiria ofendido na honra, sendo tomado como apenas mais um país de tadinhos que não podem por si mesmo, como se fossem crianças.

O que eu vejo no Brasil é o maior desperdício de potencial humano imáginavel, e não consigo entender por que. Arbem barracas na USP, eu dou aulas em letras angloamericanas enquanto nós tiplicamos as vagas num só ano.

Tem tanto a ser feito e ninguém fazendo, embora gostaria estar fazendo. Então arruma a grana e faça.

Se fosse vocês, eu montaria um YouTube próprio — IéIéIéTéVé — e seria o bilionário de 28 anos que emerge após a globalização do brinquedo e um OPA para fechar comércio na Bovespa.

Vocês estão presos no Shopping de Inovação. Podem “inovar,” mas só com base em tecnologia alheia, e desistindo dos seus direitos autorais no processo.

Creative Commons, uma ova.

Reivindiquem 25% da empresa ou saia da sala e leve seu código consigo a quem talvez o prezará mais.

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