Ainda Contra o Gironalismo

Padrão

Acima: A presidente da ANJ, a Judith Brito da Folha de S. Paulo, reclame, e recebe, um contrato consignando a alma eternal tanto de José Serra quanto do Índio, numa ceremonia de outubro de 2010. 

Parte do meu observatório de fontes aqui no hemisfério do sul — uma tentativa de aperfeiçoar os métodos do meu modelo, o SourceWatch, na colheita de dados que respondem àquela pergunta que não se cala, qui parle? — tem sido medir o progresso daquele exemplar de gironalismo sem par, o Instituto Milennium.

Posso relatar hoje que a tendência é de crescimento.

Além disso, quando me convidem a ler conteúdo patrocinando do IMIL nas páginas da revista Exame — os conselheiros editoriais do fim do mundo são altos executivos da Abril e do grupo Estadão — eu perco a última opção que tinha de uma revista semanal de negócios que valia a pena ler, em certos trechos.

Eu não gosto muito de conteúdo patrocinado, embora seja parte de nosso mundo moderno, inegavelmente, especialmente quando o patrocínio fica ofuscado ou escondido do leitor. Sou um puro shiita nessa questão — pedindo desculpas aos shiitas de verdade pelo preconceito.

Para quem pulou minha nota sobre o assunto, o «gironalismo» é a tradução do trocadilho «churnalism» no inglês.

«Churn» descreve grandes oscilações em preço ou volume num mercado, como na bolsa de valores ou mas assinaturas de um serviço, seja banda larga seja telefonia sem-fio, de um exercício a outro.

Significa, para quem ficar atento, um monte de som e barulho, significando, no fim do dia, nada, e eu insisto, nada.

Então, o gironalismo se refere a uma gestão de conteúdo mais ou menos como o diagrama seguinte.

Fica especialmente forte no Brasil por causa do fato que vocês ainda chama o profissional de fatos apurados e o profissional de propaganda de “jornalista.” 

Os grandes anunciantes pagam para vehicular propaganda na grande mídia. Entretanto, as fundações sociais dos mesmos anunciantes, num ato espontâneo de bonhomie, doam a programas queridas aos corações dos grandes grupos de mídia.

Estes programas de publicidade funciona no bom e velho modelo Faith Popcorn: Além de patrocinar causas com forte apelo emocional, e seguindo os ditos do SEO-SEM “chapéu-negro,” montam redes, alianças, confederações, e “fazendas de faça-clique” para moralizar estas causas — fazendo com que realmente há uma onda de apoio popular indignado pelo fato de Globo não poder apresentar temas adultos na Rondônia as seis da tarde.

Assim, esses temas viram “tendências” — expressões espôntaneas de sentimento popular em favor dos interesses dos grupos de mídia, que entretanto bancam o São Sebastião, crivado de flechas e outras crueldades da Santa Inquisição lá no Anatel.

Reciclado como uma tendência social, então, a campanha publicitária faz de que seria uma novidade de verdade, nascido no coração do Povão.

Basta algumas prestidigitações com o chapéu usado pela fonte em determinado momento e pronto: Tenha medo. Tenha muito medo. Eles querem tirar sua liberdade.

O exemplo que muitos leitores acham interessante, pelo visto, é o nascimento da revista PEGN — Pequenas Empresas, Grandes Negócios.

Começou a vida como uma peça publicitária da agência Professa, o dono do qual chegaria depois a ser o locutor de uma programa de rádio sobre o tema. O jeito de evitar o constrangimento de alguém perguntar, “mais eles lhe pagam para dizzer isso, né?” foi transformar o homem em um “jornalista e presidente da ONG” coisa e tal.

Eu, hein? Meu exemplo preferido foi a reportagem no DIA de Rio sobre algumas tropas de elite fazendo bico como seguranças de uma empresa cujos trabalhadores estavam em greve.

Na sua capacidade privada, os Homens de Preto pegaram o cara e lhe deram uma bela de uma surra.

No próximo momento, «ativados» pela ordem de um oficial também fazendo bico, prenderam, na sua capacidade públiica, o coitado do cara para “baderna liberal” o que seja.

Pela simples medida de deixar correr a «aranha» até o mesmo ponto — até quando os URLs únicos catalogados alcançem dois terços do número dos sítios referidos da mesma página original, acima — dá para ver que a estratégia só se intensifica. O censo de URLs relacionandos alcança quase 6.000 agora, desde velhos conhecidos como Aluizio Amorim até novatos, juntando-se ao nuvem de gironalismo que cria a onda, a «tendência», que vira a suposta notícia.

Do ponto de vista mercadologista, porém, é bom ver o quanto a loja de iTunes virou mais acessível e acessada pelos militantes do Milénio. Suponha que minha sogra, que prefere os MP3s, deve ser uma inimiga da liberdade por isso. (De fato, embora meio conservadora, vota no PSOL, vai saber.)

O jornal mais lido pelos fimdomundistas parece ser O Globo.

E assim por diante.

É do conhecimento até do mundo Minoral que o terror que não deixa o João Roberto Marinho dormir à noite é a fantasma de uma emenda na legislação da mídia que pela primeira vez exporia esse setor da economia à fiscalização antitruste.

Novas Ferramentas

Mas que mais possamos tirar dessa enxurrada de dados? Eu passei bastante tempo recentemente tentando entender dois métodos que permitiriam a colheita e procesamento mas eficiente de dados sobre relacionamentos incestuosos nessas redes de comunicação.

A primeira nova ferramenta é Wandora. Amigo, me custou caro entender essa tralha de um «topic map», ou «mapeamento de tópicos» — sabe, no sentido que Aristotle queria falar de Tópicos.

A segunda é a Semantic Mediawiki — uma versão do software de Wikipédia capaz de automatizar o processamento e entendimento mais profundo dos dados e metadados sobre determinado assunto do que antes.

O que faria possível, por exemplo, seria fornecer o leitor com os metadados sobre determinado nome, armazenados juntos numa página só.

Vamos dizer que sabemos que Wálter Maierovitch é colunista da Carta Capital, por exemplo. Acrescentando dados quando cruzamos com eles, podemos dizer cada vez mais do que isso cada vez que cruzamos com seu nome.

Assim, em vez de “Maierovitch parabeniza de Sanctis,” o que ele tem a tendência de fazer, podemos ler que um jurista com certa história concreta — ele é um diretor do projeto CIEE-SP, eu não sabia, por exemplo — aprova os atitudes do outro, esse também com tantos outros detalhes biográficos amarrados ao seu nome.

Ainda há um obstáculo — a gestão de tantos dados. Mas a Wandora ajuda muito com isso. Por exemplo, vamos dizer que quero encarregar o nome de alguma entidade do governo federal no meu projeto — uma lista dos ministérios, digamos, para depois entrar as subagências destes.

Bom, se eu tenho, ou consigo produzir, uma lista em texto simples de todos os blocos da Esplanada, é só pegar e colar, assim. Seria interessante saber que já era ministro de estado que agora hoje em dia serve em outra capacidade — como presidente da GE Brasil ou dono da Primeira Leitura, da Editora Análise, digamos.

A Wandora também tem uma ferramenta de visualização, mas acho-a inferior à yEd, até quando esse último consome mais tempo.

Aqui, estou no meio de carregar uma grande estrutura de entidades de classe, para depois cruzar com nomes associados com outros tipos de organizações. Quem está usando qual chapéu, e quando? A ANJ pertence ao WAN, ligado com o Opus Dei, por exemplo.

Um exemplo: um cruzamento de affiliadas da GIFE com as da ABONG — um sistem solar de 500 entidades em um universo de 27 mil, segundo um relatório da ABONG.

Na yEd, porém, dá, por exemplo, para enfiar anotações.

Aqui, por exemplo, é importante saber que a mulher de Bill Gates está no conselho do The Washington Post enquanto o Microsoft continua pelo menos parcialmente responsável pelo teor da revista Slate.

Aqui, eu pude anotar que dos patrocinadores do ONG IBEAC, o Instituto C&A teve um perfil curioso.

Primeiro, anotei que entre os outros patrocínios houve o Estado de São Paulo, a fundação norteamericana Ashoka, e a UNESCO. Mas o Instituto C&A? Segundo as informações que obtive, é uma organização sem fins lucrativos cujo dono é a com-fins fundação corporativa do sem-fins Grupo COFRA. Peraí, acho que tá algo errado aqui …

O Instituto C&A opera a partir de recursos doados pela Cofra Foundation, que é o braço social do Grupo Cofra, de Zug (Suíça). O Grupo Cofra é o controlador da empresa C&A.

E é a empresa C&A é quem bota o pessoal a trabalhar em projetos sociais um dia por semana. Quer dizer, a filantropia trabalha promovendo tecnologias sustentáveis do tipo no qual a nave-mãe investe. Deve ser um daquelas famosas sinergias.

Em qualquer caso, o assunto geral aqui é o marco regulatório para ações sociais do “terceiro setor.”

No passado, acontece, o ABONG trabalhava com a C&A num programa de escavar centenas de cisternas.

Haverá um debate bastante amplo, parece.

Parece que bastante .orgs sem .brs querem o direito de serem ouvidas.

Em qualquer caso, vamos poder falar no futuro sobre estes novos brinquedos.

Espero que seja educaivo. O program Degrau, por exemplo, uma incubadora de redes, é interessante por ser liderado por Alencar Burti, Presidente da ACSP, a Associação Comercial de São Paulo, editora do Diário de Comércio

Parece representar uma certa filosofia segundo a qual entia multiplicanda sunt — ao contrário do que recomendava, sensatmente, o santo Guilherme de Occam.

200 milhões de Brasileiros, 500 milhões de CPNJ, tudo mundo com caixa postal nas Caimães e nem um tostão em tributo pago.

Eis o Brasil de Você S/A — um lindo sonho.