O Livre Mercado nas Idéias Que Não São Mais Suas

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Ou se quiiserem, vamos fazer a anatomia de um «shopping de inovação» — o Battle of Concepts, talvez, conhecido também no Brasil como Eu Sou Genial.

Segue um modelo bem antigo mas mais espalhado hoje em dia, o do mercado quase-aberto de idéias.

Quando a SEC passou a regular a profissão de analistas de ações — e com boa razão — muitos bancos de investimento deixaram de manter este pessoal na folha de pagamentos, por exemplo.

Apesar da corrupção de alguns profissionais, não pode-se dizer que efetivamente matando o ABIMEC gringo trouxe bons resultados para o investidor, no fim das contas. Você sabe muito bem o que deu, que deu.

Uma solução interessante ao problema na epóca, porém,  foi a criação de um leilão cego eletrõnico para idéias de investimentos.

Você, o analista desempregado, podia sugerir, sei lá, a tomada de uma posição vendida na Brasil Ecodiesel, e explicar por que, e o cliente que acatava a sugestão e lucrou dividia o lucro com você.

Nem sei agora se o projeto desse certo ou não. Acho meio que não, simplesmente porque era um mercado só metaforicamente, e a metáfora sofreu de alguns mutatis mutandis..

Mas vale a pena observar que os termos eram mais atraentes do que os oferecido por nosso shopping — participação de lucro em vez de mero dinheiro vivo ganhando 12% na poupança.

É uma enorme diferença, até sem falar da questão de direito autorais, uma vez que

Ao enviar o Conceito o participante concorda que a propriedade jurídica desse Conceito passa a ser da empresa ou instituição que lançou a Batalha.

Ou seja, nós não somo obrigados a pagar você pelo tempo que você gastou trabalhando. Nem garantemos que haverá uma troca de idéias.

Pior, o segundo colocado não pode vender para um concorrente qualquer daquela empresa que encomendou o trabalhao de programação. É como pagar o restauarante R$100 adiantado para uma chance de 10% de ser atendido.

Cê vira um camelô de inovação enfrentando um mafia dos fiscais.

MOSCOU Canadense-Sambojano

Agora, no caso do Shopping dos Geniais, então, duas coisas:

Primeiro, se apoia numa MOSCOU, ou seja, uma mídia orquestrada pela sociedade civil de oligopólios unidos. Vale lembrar que o conceito implica cinco componentes básicos:

  1. Um mídia dita jornalística
  2. Uma agência de propaganda que promove o cliente nessa mídia de maneira coordenada
  3. Uma gestão sub-reptícia  no espaço quase-público das “redes sociais” — Twitter, Facebook, e assim por diante
  4. O uso liberal de testas-de-ferro
  5. O Leviatã que não quer ouvir dito seu próprio nome, por razões de estratégia de RP.

A agência local que monta a presença virtual da empresa, aparentemente canadense — consultora em gestão de projetos em rede, cliente do Helix Commerce, “fomento de colaboração” — mas precisco apurar mais — é o MV2.

Agora, eu não tenho receio nenhum em opinar que o caderno de tecnologia do Estadão virou uma bosta recheiada de reportajabaganda. Este tipo de esquema caberia sua ideologia e ética como uma luva.

Segundo, temos o fator de liquidez nesse mercado de idéias.

Entendo os motivos austríacos pela montagem desse bazaar de dispositivos e bugigangas, mas não entendo os incentivos dos participantes.

Vamos colar um trecho das regras:

Uma Batalha é uma questão ou desafio que a empresa ou instituição pública ou privada está enfrentando. A empresa lança essa Batalha no site fornecendo todas as orientações, regras e procedimentos necessários para que o participante apresente alguma solução.

O que é um Conceito?
Um Conceito é uma idéia ou solução que o participante envia para o Battle of Concepts, com uma descrição abreviada da sua idéia ou solução para determinado desafio apresentado por uma empresa ou instituição. A solução deverá ser apresentada nos moldes exigidos pela empresa que lançou a Batalha, com relação a formato e conteúdo. Se for o caso, poderá conter anexos que demonstrem as idéias propostas.

Como participar?
A participação numa Batalha é gratuita. Só é preciso cadastrar-se no site. O participante deve fazer seu cadastro clicando aqui. O cadastro possibilita a participação e download de todas as Batalhas existentes no site.

Notamos en passant que a «guerra mundial de idéias» é um lugar comum neoconservador dos mais antigos.

Agora, sou maluco, ou não seria meio safado aquele esquema? A probabilidade de ganhar sendo tão pequeno, ou você terá um bando de gente desperdiçando seu tempo em troca de nada, ou não terá liquidez suficiente no “mercado de idéas.’

Acima: A porção .br da rede TerraForma, patrocinador de Battle of Concepts

Bem-vindo ao mundo do “microservo,” concebido ainda nos anos 1990 pelo canadense Douglas Coupland.

Os protagonistas trabalham na sede da Microsoft na cidade de Redmond, que tem cara de uma sociedade medieval, Bill Gates sendo o senhor e os empregados os servos. O protagonista central vê su fé abalada quando seu pai, engenheiro de carreira na IBM, perde o emprego. Ele começa a pensar na sua própria situação e seu futuro como programador de Microsoft. Os protagonistas mudam, então, para o Vale de Silício, onde criam a bolha da Internet — embora essa não ter acontecida quando o romance estreiou.

Acima, a mesma rede, menos as contas de Twitter e os sítios .br.

O Battle of Concepts — o inglês é mambembe — divulga a parceria «de ouro» com a Microsoft numa página afastada, num canto escuro. Tem vergonha?

Houve uma foto tão bonita essa semana na Carta Capital, num artigo sobre o novo Código Florestal, mostrando uma fila de boi zebu atravessando uma terra desmatada.

Faria uma boa ilustração do moral dessa história toda, mais não estou achando-a no sítio da revista.

Em qualquer caso, seria intererssante ouvir da alguns dos participantes nesse “latifúndio de faça-clique” ou “shopping de inovação” — dependendo de você ser o jeca tatú ou cosmopolita na escolha de metáforas.  Como é que foi? Açogue ou utopia de oportunidade? Vocês não sentiu com uma moça de vitrine da zona de baixa meretrice na Amsterdã?