O Efeito Sybil | Ainda Sobre a «Carreira Proteana»

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Ando lendo, quando der tempo, a antologia lançada recentemente — sem editora nem ISBN — pela publicitária Ana Brambilla, Para Entender as Mídias Sociais.

A intervenção mais interessante até agora: O “Narcissimo” de Susan Liesenberg, que traz uma certa honestidade bruta ao assunto. Reproduzo o parágrafo assim com foi copiado e colado do arquivo PDF:

Pelas
suas
potencialidades
e
latências,
que
outra
mais
evidente
característica
as
mídias
sociais
poderiam
ter
senão
serem
narcisistas?
Colaborativas,
pois
incentivamà
cultura
participativa
(num
mundo
de
interesses
individuais
dominantes)?
Igualitárias,
porque
dispensam
pré‐requisitos
e
vistos
de
entrada
na
portaria
do
clube
das
@s.com
(mas
onde
só
aos
belos
e
populares
são
oferecidos
os
melhores
lugares
para
sentar)?
Nemjuntas
e
multiplicadas
as
duas
últimas
reúnem
força
para
vencer
o
império
da
exposição
e
a
institucionalização
daimagem
como
existência.

Aprenda TEX, ou melhor, apresenta o texto, que não tem elementos gráficos imprescindíveis ou interessantes, como texto simples.

Se acha o mesmo atitude nos vigaristas com que o sociolinguista David Mauer fez amizade no seu livro The Big Con: Ótario é ótario porque prefere acreditar nas suas próprias halucinações que na realidade sórdida desse mundo habitamos.

Provas da vocação narcistista dos armadores de teias virtuais não demorar a vir, com o ensaio sobre «fakes» por  Jorge Rocha, que se assina no Twitter como @exucaveiracover.

Anote-se o «nós» que acompanha o nome «gurus» no trecho seguinte.

Em
 17 
de 
março 
de 
2011,
o 
jornal 
inglês 
The 
Guardian
 publicava 
uma 
matéria,
relatando
 que 
as 
Forças
 Armadas
 dos 
Estados 
Unidos 
estavam
 desenvolvendo
 um
 programa
 de 
criação
 e 
manutenção
 de 
perfis
 falsos
 em 
redes 
sociais,
para 
disseminar 
propaganda
 favorável
 àquele
 país.

A 
intenção,
conforme
 noticiava
 o 
jornal, 
era
 influenciar
 discussões
 nas 
redes 
sociais,
atuando
 maciçamente
 em 
temas 
contra‐hegemônicos
 para 
criar
 “consensos
 artificiais
 nos 
debates 
online”.
Contando
 com
 um 
operador
 por
 trás
 de 
até
 dez 
perfis 
falsos
–
ou
 simplesmente
 fakes,
como
 convencionou‐se 
chamá‐los
–,
 o 
projeto
 era caracterizado
 como
“um
 serviço
 de 
gestão
 de 
personas 
online”.
Influência
 é 
tudo,
já 
diziam
os 
gurus
 das 
redes
sociais.
 No 
mesmo
 dia
 dessa 
matéria,
The
 Guardian
 publicou 
ainda 
 o
artigo
“America’s
 absurd 
stab
 at 
systematising
 sock
 puppetry”,
de 
Jeff
Jarvis,
 questionando 
o
 investimento
 financeiro
 pesado
 na
 viabilização
 desses
 fakes,
além
 de 
sua
 real
 necessidade.
 Campo
 de
 batalha
 armado:
paranoia
 de
 um
 lado 
e 
utopia
 do 
outro?


Nem um nem outro.

Eu acho essa interpretação uma dicotomia falsa e vou te dizer porque. Primeiro, ninguem fez mais para incentivar tais práticas como Jarvis, autor do Buzz Machine e, se não me engano, consultor ao governor e grandes empresas no que trata da montagem de «blocos de eu sozinho» e a guerra de contra-informação na rede.

Segundo, ficou meio óbvio que os militares estavam interessados nessa tática lendo os “livros blancos” deles e observando como, por exemplo, o DNI — director national de informaçãoes, coordenador de todas as agências da comunidade — contratou o NewsGator sob um contrato sigiloso que utilizaria todas as artimanhas do agregador infinitamente manipulável no serviço de Tio Sam.

O que me deixa resmungando meu só no Brasil de sempre é o argumento, tocado levemente aqui, de que banir tais práticas seria algo “utopiano.” Para moleques desse estirpe, a liberdade de expressão do anunciante deve incluir a liberdade de mentir. Mas isso é libertinismo, e não libertárianismo.

O termo técnico para a estratégia utilizada e «o achaque de Sybil», lembrando o grande filme dos anos 1960s sobre a senhora que sofria um transtorno de personalidades múltiplas.

O problema jurídico com este procedimento é que a legislação norteamerica veta o uso de técnicas hóstis de propaganda contra seus próprios cidadãos. Eu vivo recomendando a mesma coisa a amigos brasileiros. Com escreveu o Death+Taxes, e aqui traduzo:

Pode ser presumido com bastante certeza que várias organizações manipulam a opinião pública por meio de mídia social, foros, sistems de BBS e USENET, e assim por diante.  Partidos políticos infiltram com regularidade personagens em espaços públicos virtuais para criar uma merda ou para distorcer a realidade criando a perceptção que há mais apoio para dita proposta do que dissidência.  Crie uma onde de consenso aparente e de repente os fracos de intelecto e vontade se renderão à mentalidade da manada.

Sim, mas exatamente o que pretende os militares com falsas identidades, software de propaganda (conhecido como software de boneca de meia)?  O “serviço de gestão de personagens” (Orwell teria orgulho de inovar a frase) permitiria um soldado a controlar até 10 personagens cada.  Ah, sim, a mágica de distorção e o prazer orgasmico de propaganda.  Claro, o software so almeja extremistas violentas e terroristas conhecidas.

Mas para ser justo, a reportagem do Guardian cita um portavoz do Centcom assegurando-nos que todas as regras serão respeitadas.

He said none of the interventions would be in English, as it would be unlawful to “address US audiences” with such technology, and any English-language use of social media by Centcom was always clearly attributed. The languages in which the interventions are conducted include Arabic, Farsi, Urdu and Pashto.

Centcom said it was not targeting any US-based web sites, in English or any other language, and specifically said it was not targeting Facebook or Twitter.

Ainda bem. Mais olhe, eu leio a língua árabe e um poquinho de farsi. Corro o risco de contágio? Apenas se frequento sítios de jihad, o que não faço, nem por fins de pesquisa. Temo que acabarei no Guantanamo.

Mas Exu Caveira parece achar tais escrúpulos absurdos, uma falha, em certos casos, de apreciar a «fina arte de ironia».

 esse
caso
pode
ajudar
a
entender
melhor
os
valores
positivos

e
negativos
dos
fakes
na
Internet.
A
conotação
mais

óbvia
–
já
enunciada
–
relaciona‐se
à
criação
de
perfis

falsos
para
que,
com
a
tranqüilidade
garantida
por
um

suposto
anonimato
–
em
alguns
casos
e
circunstâncias
–,

seja
possível
exprimir
ideias
de
maneiras
mais

contundentes,
polêmicas
e
até
mesmo
sarcásticas.
Os

graus
de
“periculosidade”
dos
fakes
variam
exatamente

de
acordo
com
os
perfis
estabelecidos.
Enquanto
os

fakes
do
exemplo
já
citado
são
elaborados
para
proteger

e
servir/vigiar
e
punir,
há
perfis
criados
para
alavancar
a

figura
midiática
desse
ou
daquele
candidato
em
tempo

de
eleição,
defender
uma
empresa
quando
esta
é

responsável
por
um
ato
indevido
e
até
mesmo
aqueles

que
buscam
confundir
debates
em
redes
sociais
sobre

determinado
assunto,
com
boatos
e
informações
falsas.

Há
ainda
aqueles
que
possuem
teor
humorístico,
cuja

função
é
apenas
exercitar
a
fina
arte
da
ironia
–

escandalizem‐se
os
quadrados.

Sugere que se um achaque do método Sibyl funciona, é simplesmente mais uma prova de que o mercado é um vizinho barra-pesada e que não sucede como o sucesso.

 Com
o
termo
“capital
social”
tão
em
voga
desde
que
as
 redes
sociais
começaram
a
 ganhar
(nova)
força
com
a
Internet
e
a
posterior
“guerra
 pela
audiência”
travada
por
estes
ou
aqueles
perfis,
 disputando
influência
à
tapa,
é
preciso
estar
atento
 sobre
até
que
ponto
um
fake
pode
se
constituir
um
forte
 formador
de
opinião.

Meu argumento preferido contra esse atitude — bastante espalhado — é econômico também: mercados de informação são muito eficientes na identificação de nonsense, uma vez que seus mecanismos de confiança e experimentalismo empírico são permitidos a operarem naturalmente e não são manipulados. Pessoas peggam cadeia por interferirem com esses mecanismos em mercados de verdade.

Jornalistas, inclusive, “bombando” ações nas quais tem interesse não-divulgado.

Um produto ou serviço promovido por esses meios, então, custa mais ao consumidor no que toca no tempo que tem que ser gasto e as dúvidas que que tem que serem superados. A presença de Exu Caveiras na rede põe todo o mecanismo de mercado sob a sombra de suspeita.

Porque Exu não está falanda nos limites de propaganda de guerra.

Está dizendo que o mercado é uma zona de guerra onde vale tudo.

O contratado, aliás, é uma empresa de Colorado chamado de Ntrepid. Como eu gostaria brincar com seus produtos, o software em questão sendo chamado de Metal Gear. Tem uma edição «comunitária»? Na verdade, já existem produtos comparáveis no mercado civil.

Em fim, tanto sob Bush como sob Obama, vemos uma política de comunicações sociais vertida às “mídias sociais.” Qual garantia temos que este mesmo método não está sendo utilizado para fins de reclutamento, por exemplo? Parece haver uma integração estreita entre os sistemas do censo e das FFAA.

Desde que entramos numas guerras não muito populares — nem explicáveis — as FFAA estão morrendo de fome para reclutas — bucha de canhão, não é isso?

O Brasil choca o estrangeiro com as vultuoas verbas dedicadas a propaganda dos poderes públicos — desde o STF até a Câmara de Vereadores de Oiapoque — mas pelo menos vem rotulado como o que realmente é: propaganda.

A mesma não pode ser dita da influência de «dinheiro mole» utilizada por meio de agências e empresas estatais para promover candidaturas.