Chaim Perelman Desembarca em Santos

Padrão

É um curioso livro para mandar 12 mil km até um país tropical, passando pelo porto de Santos, cena de baderna na rua no começo do século passado. Mas me sinto bem com a presença nas minhas estantes do The New Rhetoric (A nova retórica) de Perelman e Olbrechts-Tytecta (Notre Dame: 1969).

Assim como o inglês com seu Livro de Oração Comum — que eu, baixa igreja que sou,  gosto por ele conter os evangelhos apócrifos — apesar do livro ser um pouco cheirando de mofo, é lá que retorno para achar as verdades eternas.

No trecho no qual eu estava pensando, os autores definem a oração funerária, do modo epideíctico — «de elogio e crítica perante o povo» —  como sendo essencialmente educativo na sua natureza.

A morte de um cidadão e o elogio dos virtudes que ele incorporava, eles dizem, é tal faz com que os praticantes desse tipo de discurso sejam «defesores dos valores tradicionais e aceitos, e não os valores novos e revolucionários que agitam o espaço publico com controvérsias e polémicas.»

Assim, o conservadorismo é instintivamente educativo e contrário à agitação e propaganda. Parece axiomático. Pode ser.

Mas e a propaganda? E a situação dos dois num país que ainda não teve um processo de verdade sobre sua própria história recente?

É a esse capítulo (I, 12) que volto em momentos desses. A pergunta é fundamental: Há uma diferenças entre a educação, que prepara o jovem para assumir seu lugar na sociedade, e a propaganda? Quando dessa última, como é que nossos autores definem-na?

Citam um velho jesuíta que define propaganda o que você faz trazendo o evangelho aos não-fieis e educação o que você faz palestrando sobre as boas notícias numa igreja da comunhão.

Eu diria, por conta própria, que educação e um processo de passar aqueles valores que ajudarão no entendimento de futuros casos inéditos — o método científico, por exemplo. Não reza que nada deve mudar, só que existem maneiras de responder à mudança que são antigos e de valor mais que comprovado. Como o método empírico de investigar Paloccis e a discrição jornalística com factoides que não apontam culpa alguma quando chegar a hora de compor as manchetes.

Educação é um presente dada livremente de uma geração à seguinte, amorosamente e sem condições no seu uso, na esperança de vé-la aceita livre e espontâneamente. A propaganda, entretanto, pretende impedir a emergência de polêmica quando da certos artigos de fé. É uma polícia e magistrado ideológico.

Gosto dessa definição, de Perlman-Tyteca:

«Enquanto o propagandista tem primeiro ganhar a confiança do ouvinte, o educador já foi formado pela coletividade como o portavoz dos valores ela já reconhece, e como tal, leva o prestígio de ser tido eleito dessa forma para esse nobre papel.»

Na medida que o propagandista também fala para reforçar os valores da comunidade, porém, a distinção se abranda.

Assim, o que era chamada de «propaganda» emitida de Londres pela rádio durante a Segunda Guerra tinha um apelo a valores sinceros e sinceramente compartilhados por milhões de pessoas, e portanto não merece a conotação negativa do termo, segundo nossos hebreu e finlandês.

A Segunda Guerra, no entanto, foi a vez dos profissionais — Walter Lippman, Edward Bernays — e a propaganda assumiu aquela nota sinistra que a palavra encarrega em inglês e outras idiomas, de manipulação e má-fé.

Ainda assim, o educador e o orador de velório podem abusar dos seus papéis respectivos, por mais que sejam parecidos até certo grau, segundo meus autores.

« … quando ambos tratam de assuntos sobre os quais não há grande discórdia, se sente que um mal uso ou abuso está sendo feito quando o orador torna a valores controvertidos e introduz discórdia num evento cuja finalidade é promover comunhão.»

«O mesmo abuso ocorre quando o educador vira propagandista.»

«Propaganda aproveita e se alimento do espectáculo das mudanças que procura, e às vezes consegue, produzir.»

Procedem a dizer que ambas formas de discurso são substitutos simbólicos pela violência física, e que a propaganda oferece ao ouvinte a oportunidade de um desabafo amórfico.

É por isso que os mercadologistas enfocando a juventude martelam tanto no prego da não-conformidade e a raiva, tentando ganhar para seu lado a energia de uma contracultura difusa. Foi assim nos meus dias de mocidade — sou velho punk — e não são outra coisa hoje em dia.

«Por mais que a liderança do group busca incrementar seu poder sobre o pensamento dos integrantes, tanto mais haverá comícios de uma natureza educativa, alguns chegando à utilização de ameaças e coerção para forçar dissidentes a ouvirem discursos que os impregnarão com os valores da comunidade como um todo.»

Comentam a seguir que o consenso político representado pela substituição da violência física pela violência verbal não é universalmente visto como sagrado e obrigatório.

E mais: «alguns dizem que todo uso de argumento é um pretenso, e sempre era assim. O argumento é sempre nada mais que uma semelhança, ou porque o orador obrigou por força e coação ao ouvinte ou porque os ouvintes são satisfeitos disfarçando seus desinteresse no que ele tem a dizer.»

Penso numa rede de televisão hegemónico ao ponto de censurar outros pontos de vistos, assim como a NET faz comigo, cortando meu Band e Record e me deixando apenas com a Globo — que, poxa, tem uma boneca de um louro comentando as notícias. Com disse Chomsky, um bom sinal de que alguém esteja te sacaneando é quando começam a te tratar como criança de 12 anos.

A existência de argumentação em várias instituições deliberativas desmente este cinismo, porém — não estamos em guerra literal sobre o Código Florestal, apenas numa simbólica — embora «é uma ilusão supor que as condições para este tipo de comunidade de entendimento se formam naturalmente».

«É por isso que os grandes defensores da filosofia crítica como Guido Calogero enxergam na vontade de compreender outras pessoas o princípio de diálogo, o cerne da ética liberal»

Iris Murdoch diria mais tarde que a dimensão moral da arte de ficção que ela também praticava era “cultivar o olhar justo e amável” sobre as pessoas que são dissimilares conosco, ou seja, a capacidade de empatia.

Nossos autores demoram para chegar a o dilema mais doloroso do todos: «quando se justifica a imposição de um consenso cultural e quando se justifica ouvir vozes dissidentes.» A resposta curta a essa segundo pergunta é «sempre», mas sujeita a condições de sinceridade e integridade moral e intelectual, inegavelmente imposto pela sociedade maior.

É exatamente aqui que as Vejas e Épocas do mundo, com seus asseclas no submundo de samizdat, perdem a legitimidade, embora sem dúvida alguma mantêm o direito de tentar ser ouvido.

A «guerra mundial de idéiais», o discurso da «contra-golpe», e sobretudo o atitude de escárnio sobre o “politicamente correto», que veda expressões de preconceito, testam os limites de tolerância social e testemunham uma quebra proposital com o contrato social de tolerância e convivência. Funcionou para Ronald Reagan, deve funcionar com o Índio Tupy também, hein?

Isso, sim, apresenta um perigo à democracia, quando eu, de Brooklyn, recuso a tomar uma cerveja com o marido de uma amiga nossa, de Tomenocú, Pennsylvania, que aliás votou no Bush. Quando eu estou instigado diariamente por mensagens do Partido de Chá, que assino — cha preto, e não a hoasca — de odiar quem não pensa como eu (supostamente) penso. Mais eu até pago a cerveja. Tem coisas na vida mais importantes do que a política.

Tudo do qual me lembra de uma conversa que tive uma vez com meu mentor, o poeta Dick Barnes, sobre “varmints” — expressão caipira para “parasitos.” Os Escosteguy e Alcântara do mundo sem dúvida são “varmints.” Mais como disse meu professor, quem se alimenta com carniça podre faz um serviço ao ecossistema, no maior esquema das coisas.

Eu sempre fico chocado quando pessoas do meu conhecimento aqui gritam para alguém receber cadeia por externar preconceitos de vários tipos.

Não é a obrigação de um governo-pai protegé-nos dos males do mundo. É para a gente reagir, pacificamente mais com firmeza, e de maneira coordenada, para mostrar que tais atitudes não são muito brasileiros — que a maioria os rechaçam.

Tem sido difícil num ambiente de mídia dominada pela cartelização de firmas famigliares, mas eu sou muito otimista de que a rede vai ensinar a próxima geração a se realizar — que vai a educar em vez de a bombardear com propaganda.

Minha mulher achou o porque disso numa conversa com uma sobrina, de 7 anos, que já sabe baixar MP3 e está achando a gente um pouco quadrada por não escutar mais essa nova banda que ela descobriu — o Led Zeppelin.

Num mundo que dá acesso fácil ao Zepelim à mocidade, me sinto muito mais seguro.

“In the days of my youth I was told what it means to be a man …
“But now I reached that age I try to do all those things the best I can …”
“No matter how I try find my way to the same old jam …”

Se consigam o Zepelim conseguirão uma boa de um Dickens em tradução. E aí vão, pensando por si só.