A Grande Confusão | Propajabaganda e a Mídia Amiga Afegã

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Ítem para inglês ler:

Ou seja, «Os militares, as operações de contrainformação, e o desenvolvimento de mídia internacional».

Segundo um relatório ao CIMA, agência do GONGO National Endowment for Democracy, são cada vez mais os militares que estão fazendo o trabalho de «desenvolvimento de mídia independente» nas zonas de conflito, especialmente na Ásia Central.

Estão contratando serviços a uma taxa dez vezes a taxa de que as agências civis nominalmente respsonsáveis pela política, muitas vezes sem ter que dar contra do uso do dinheiro, com indícios de desvios.

Está emergindo uma militarização de informações que, apesar de ir contra o espírito das leis, é bastante natural na medida de que o soldado vive uma guerra «quente» — enquanto o diplomata fica aconchegadamente sentado tomando chá com o «prefeito de Kabul» e informando ao público que o Afeganistão já mudou ao nível de conflito simbólico que é a política democrática.

Um detalhe muito notado por estudiosos do assunto: os militares tem conduzidos literalmente centenas de “mesas redondas” com “blogueiros” a maioria dos quais são anônimos, coordenando mensagens e pautando quem espera-se vai pautar a grande mídia.

O problema é que surge uma confusão entre o entendimento do soldado sobre o que seria operações de informação e contrainformação, de um lado, e os ideais dos diplomatas sobre como semear democraca numa zona de anarquia tribal que, aliás compartilha um latifúndio de papoulas que representa o monopóliio mundial sobre o abastecimento de heroina.

Dada essa última realidade, os blogs de guerra parecem um desperdício ridículo de tempo que servem mais para dar a impressão de progresso ao leitor doméstico, acessando o blog por uma rede sem fios num Starbuck’s de Seattle, do que tocando o coração de um homem-bomba potencial com a bondade e boas intenções do inimigo. O alvo da propaganda somos nós, efetivamente, embora se justifica como tentativa de persuadir eles.

Deixa ver se eu consigo dar um resumo desse relatório.

O Pentágono pediu $988 milhões no ano passado para operações de informação e contrainformação — quatro vezes a montante pedida em 2007. O Congresso ficou meio em choque, segundo o relator.

Ficou sensibilizado pelo sumiço de enormes somas na IMN, a Rede Iraquiana de Mídia, realizado pelo Harris Corporation sem produzir um veículo de informação que não fosse cospido como propaganda escancarada do governo provisório militar.

Segundo o relator, então, está havendo uma confusão danada entre três conceitos relacionados: infoguerra, desenvolvimento de mídias independentes, e diplomacia pública — ou seja, as relações públicas da força invasora perante (1) os invadidos e (2) o contribuinte que paga o pato. .

Não vou lhes chatear com uma longa história, só reproduzo a conclusão do relator: de que os militares são quem dominarão o desenvolvimento de mídias livres por muitos anos à vir, deixando o BBG — a agência da diplomacia que cuida de emissoras no extrangeiro — abanando as mãos inutilmente.

Sendo assim, uma hipocrisia altamente visível não vai achar solução: a noção de que uma mídia independente e democrática não pode ser outra que uma mídia amigável ao senhor com o fuzil M16 no tiracolo.

Nunca me esquecerei o editorial que acompanhou a saída do Vice-Rei da CPA da Iraq no jornal independente az-Zamman. O Páis já sofreu duas tiranias iguais na sua corrupção e o sofrimento que causavam ao povo: a de Saddão, e a da CPA. Entretanto, na imprensa lá em casa, colunistas  contando histórias de blogueiros anônimos inglesfalantes, cheios de gratidão.

Um exemplo dado desde o Afeganistão, entretanto, é o uso de dinheiro para desenvolvimento para criar aquela mídia amigável. Em muitos casos, é como se a Décima Brigada invadiu o Rio e, percebendo a necessidade de uma imprensa livre, gastou três quartos de um orçamento de centena de milhões fortalecendo a Globo.

Tal foi o caso com nosso investimento no sucesso comercial de grupos de exilados já bem da vida mas que receberam a maior parte das verbas.

A outra metade do esforço da USAID foi o apoio dado a uma família afegã de empreendedores, os irmãos Saad, Jahid, e Zaid Mohseni, junto com sua irmã Wajma, todos filhos de exílio na Austrália que voltaram para estabelecer rádios e TVs comerciais na Kabul. Lançaram Tolo TV, Lemar TV e Arman FM e acabaram construindo uma empresa avaliada em $20 milhões que também tem gravadora, uma agência de propaganda, uma produtora de filme e TV e portais na Internet, tudo o fruto dos $2.2 milhões contribuidos pela USAID na esperança de que a concorrência comercial ia presionar a RTA a melhora a sua qualidade e seu serviço.

RTA é a estatal do país, e a outra metade das verbas foram para treinamento de jornalistas dessa emissora, um trabalho terceirizado ao Internews, aquele projeto conjunto Knight-Carnegie-Soros e não sei mais quem mais. O RTA aparentemente contiinua a dominar, e os EUA gastarão uns $150 milhões nos próximos dois anos tentando criar uma diversidade onde jamais existia antes.

Infelizmente, WikiLeaks mostrou a jabá ser uma arma de guerra muito utilizada na disseminação de mensagens pro-OTAN. Até qual ponto vale isso consta num relatório da Internews sobre a sustentabilidade da mídia local.

Existe o risco das rádios e TVs virarem armas de guerra psicológica porque isso é o jeito agora de arrumar um bom dinheiro. O resultado pode ser a perda de credibilidade.

Pode ser? Cê acha?

É muito trabalhoso desembaraçar a confusão resumida aqui, mas no fim do relatório vem várias recomendações, entre as quais:

  1. Transferir algo chamado do Transregional Web Insitiative dos militares a uma agência civil, o DoS, e
  2. em geral, definir os papeis das agências envolvidas, e decerto tirar os militares do negócio da engenharia de mercados de informação e entretenimento

Este do TWI é inacreditável. As FFAA montam sítios com forte apelo à juventude sem divulgar o patrocínio, entre os quais

  1. infosurfhoy.com
  2. cemtralasiaconline.com
  3. al-shorfa.com
  4. mawtani.com
  5. setimes.com
  6. magharebia.com

A noção é que cada comando manterá um sítio dessa natureza — Info Surf Hoy fica para ustedes Speedy Gonzales, suponho.


A impressão que se dá é que o governo Obama, nas suas nomeações para o BBG, está disposto a enfraquecer e depolitizar a entidade, que aind conta com uma ex-portavoz da Casa Branca de Bush, a Dana Perino — ex-Burson Marsteller e assessor a congressistas. Em algum lugar aqui tenho uma análise do loteamento da entidade com partidários de Bush entre 2002-2008.

A velha guard se representa por S.Ender Wimbush, ex-Booz Allen Hamilton, ex-Rand Corporation, presidente do German Marshall Fund, assalariado do Science Applications International — empreiteira — que já tomava conta das emissões de propaganda dos EUA na Oriente Media.

De quem parte as ordens sobre desenvolvimento de mídia dentro das FFAA é, naturalmente, mais difícil a saber. O que comprova o ponto, não acha? Tem soldados falando no meu nome sem eu poder saber quem são ou o que está falanda. Situação sinistra.