Pós-Palocci | Hubris ou a Falha?

Padrão

Declaro minha.linha de tempo do Caso Palocci fechado.

Declaro-o bem-sucedido e útil na medida que deixou os rastros da cobertura do episódio e nem tanto na medida que não havia tempo para estudar o corpus de quase 500 textos produzido pelo motor do escândalo, a Folha de S. Paulo. Eu sozinho não era capaz de dar conta de tanta verborragia.

Agora, como dizemos no norte bárbaro, a ópera não acabou até cantasse a gorda.

Seria desrepeituoso fazer essa analogia com a Dilma — uma mulher de amplas proporções, mas minha mulher também tem — mas o fato permanece: Ela cantou um adeus definitivo ao político profissional e velho raposo Palocci.

A pergunta agora é o papel da mídia na realização desse fato consumado, sob a teoria da PIG, ou «partido da imprensa golpista».

Não é algo que posso responder numa notinha dessas, mas ainda acha notável o duplo tema de terrorismo nas manchetes econômicos e o sentimento de insegurança na esfera política.

Quando do Palocci mesmo, do meu ponto de vista pessoal, foi um demais sair do governo, se enriquecer no setor privado — até agora nada de ilícito — por em fim querer voltar ao governo.

O coração da escandalização e demonização do Palocci foram os vultuosos montantes recebidos e seu receio, bastante natural mas nada animador, de proteger o nome dos clientes, ditos pelo próprio ex-prefeito “politicamente sensiveis” ou algo do gênero.

 Muitas pessoas me pediram para divulgar a lista de clientes. Veja, semana passada, uma empresa admitiu que teve contratos comigo. O que aconteceu? Deputados da oposição foram imediatamente buscar apresentar uma acusação grave contra essa empresa, que ela teria conseguido restituição de impostos, em tempo recorde, por minha intermediação. Veja a gravidade da afirmação.

Quer apostar que não houvesse grandes empresas de mídia entre os fregueses? Qual foi a rede que recebeu a apologia do pro vita sua do ministro?

Ora, eu não tenho grandes insights a oferecer sobre o caso, apenas que nesse caso o ministro que tornou lobista não foi permitido voltar a ser ministro, um fato saludar mas meio inédito e decerto uma cobrança aplicada sem muita consistênca na vida política do Brasil.

É isso que continua me perturbrando. A responsibilidade pela queda do Palocci é de Palocci, mas isso não é inconsistente com a atuação de uma máquina de vazamentos , boatos e factóides, que tambem vemos em operação no caso. Mas os jornalistas quase não reagiram ao fato. Foi deixado com o rei das relações públicas, Carlos Brickmann, a entrega da crítica jornalística:

Note: desde que a bomba foi detonada, com a notícia sobre o apartamento do ministro Antônio Palocci, não apareceu nenhuma informação nova, relevante, sobre o tema. Há boatos sobre as empresas que teriam contratado a consultoria do então deputado, mas confirmação, mesmo, só duas: a da empreiteira WTorre e a da Amil, empresa de convênios de saúde. Comenta-se que Palocci teria recebido R$ 1 milhão para assessorar uma grande fusão de empresas; cochicha-se o nome de dois gigantes que se uniram, mas confirmação, nada.

Presumo que refira-se aqui ao BRF Brasil Foods, fusão da Saida e a Perdigão, a qual está para ser desfeita por um Cade que de repente apareceu no palco nacional com um par de culhões.

Foi divulgada, como se fosse coisa relevante, a informação de que o piso do banheiro do apartamento comprado por Palocci é aquecido. O apartamento do centroavante Adriano também tem piso aquecido. Não chega a ser nenhuma inovação tecnológica, não chega a custar algo inacessível. E, num apartamento daquele preço, piso aquecido é tão normal como ar condicionado.

Nosso apartamento em Nova York, aliás, tem piso acquecido pelo sistema de aquecimento de vapor do prédio. Foi muito comum nos anos 1920 quando foi construido como um prédio popular. É gostoso. Mas o apelo elemental a gente entende: Eles, do partido do trabalhador afavelado, se enriquecendo no processo. Eu até sinto um certo desgosto.

Jornalisticamente, o petista Jilmar Tatto provavelmente oferece a melhor perspectiva sobre o aspecto jornalístico do episódio:

O vice-líder do PT, deputado Jilmar Tatto (SP), disse hoje que o “único erro do ministro Antonio Palocci foi ter registrado o CNPJ da sua empresa na cidade de São Paulo, administrada até recentemente pelo DEM”.

Tatto fez o comentário em entrevista à TV Câmara na qual voltou a acusar a prefeitura da capital de ter vazado dados fiscais da empresa Projeto.

O PSDB de São Paulo ameaça instalar uma CPI na Câmara de Vereadores usando como argumento essa acusação repetida por vários petistas e de que o PT tenta criar uma cortina de fumaça para proteger Palocci. Em nota, a prefeitura negou o vazamento e informou que todos os acessos aos dados da empresa foram motivados.

Tatto afirmou que a base aliada ao governo irá reverter a votação da Comissão de Agricultura da Câmara que convocou agora pela manhã o ministro Palocci a se explicar sobre o seu patrimônio.

Folha revelou que o ministro multiplicou por 20 o seu patrimônio em quatro anos, período em que acumulou o mandato de deputado federal e consultor de empresa.

No ano passado, segundo a Folha antecipou, a empresa faturou R$ 20 milhões, dos quais metade após a eleição de Dilma Rousseff, quando já se sabia que Palocci seria ministro.

Os cartórios e a Jucesp estão sendo privatizados, disponibilizando dados a serem utilizados por fins pessoais ou políticos que não deveriam vir ao conhecimento do público sem o devido aval da Justiça.  A Folha mais uma mais se emprestou ao papel de vazador de informações de fontes interesseiras aos quais serenamente conferiu o sacramento de anonimato, servindo-lhes de emissoras pelo grande espetáculo.

Resumindo, com um chute: a grande mídia parecia dividida sobre o Caso Palocci, e praticou um tipo de jiu-jitsu diferente do praticado no blitz desencadeado contra Zé Dirceu. Dessa vez, um soprinho de ventania foi o suficiente para derrurbar a grande seringueira.  Mas um jiu-jitsu foi aplicado, foi sim, e houve ganhadores e perdedores. Pode até ser que foram os mocinhos que ganharam. Mas o que interesse é o jogo em si. Acho que o recuso do ministro de listar clientes foi o momento fatal para ele. Ou ele deveria evitado entrar em contratos sigilogos ou ele deveria ter falado. Que representasse no curso da sua carreira no setor privado é um fato altamente legítimo.

Próximo assunto? Que tal a venda de capas de jornais a anunciantes? Eu fico chocado quando veio isso, ainda mais quando o jornal que vendeu a gleba toda é do calão de um Valor.

Na verdade, estou tentando construir duas bugigangas para rastrear OPAs e fusões, respectivamente. Mas o Drupal não está cooperando.


Os campos especiais acrescentados ao formulário da nota não aparecem quando salvo a nota e tento lé-la.