Tio Sam, de Frigideira | Passando por CIMA

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Acima, projeto de lei aprovando verbas de US$118 milhões para o National Endowment for Democracy no 2012.

Muito de vez em cuando, entre os críticos da mídia brasileira, aparece uma nota apontando a influência do NED — fundo dito apartidário pela promoção de democracia no estrangeiro — em projetos e ONGs nacionais e regionais.

Julgando pela «vizinhança» da rede social desses orgãos, pórem, eles aparentemente servem-se de «corretores» ou «liaisons» entre os dois pontos da ligação, seguindo a terminologia de «brokerage roles».– «papeis de corretagem».

A rede egocéntrica do IREX mostra laços fortes com entidades governamentais e filantrópicas e grandes empresas de mídia como Bloomberg e Reuters

Apesar desse fato, eu diria, o Brasil não recebe muito deste apoio em termos de dólares nem em comparação com paises menos desenvolvidos, mas ainda assim, eu achei que seria interessante tentar dar conta do fenómeno, mais uma vez, para o leitor do meu pobre português.

Rede egocéntrica da FOPEA — agência irmã da ANJ do Brasil — mostra laços significativos com a democracia industrializada e Global Voices, da Harvard e com patrocínio de empresas e a diplomacia estadunidense.

Essa nota, portanto, terá a ver como o quanto fica dificil a cartografia de projetos de «exportação de democracia» de hoje em dia. Uma conclusão à qual eu cheguei é que a atribuição comum de «conspiração» a muitos destes projetos não se sustenta pelo fato do princípio de organização ser outro. Sua transparência só transparentar-se quando vista da perspectiva de «organização em redes»;

Assim, utiliza-se o método de colaboração em redes informais e flexíveis, mas não consegue escapar as desvantagens desse método.

O Relatório «Meio e Mensagem»

Nos EUA, a «exportação de democracia», tambem conhecida como a «diplomacia pública», virou uma indústria maior durante a gestão de Bush FIlho, mas agora occupa uma posição meio confusa sob a batuta da Hillary Clinton, Secretária de Estado.

Isso segundo um novo relatório da CIMA, o Centro pelo Apoio Internacional às Mídias, do NED. Ambos são ONGs quase se não fossem (não) governamentais, financiados pelos impostos da cidadania. O relatório, PDF, Inglês:

O relatório, da autoria de Anne Nelson, fala, entre outras coisa, da necessidade de (1) uma maior transparência nas colaborações empreendidas pelos tres setores e (2) de uma melhora na coordenação entre o setor público e entidades do setor privado e filantrópico, tal como no setor de economias mistas, os PPP.

Alem disso, chama a (3) um crescimento no número de servidores públicos dedicados ao setor, assim como «a promoção de parcerias mais abrangentes com mais universidades domésticas capazes de funcionar como incubadoras de «thought leadership» [ liderança de pensamento] .. Tradução modesta minha.

Embora não usa-se o termo, fala-se aqui da criação de VBEs … «criadouros virtuais de empreendimentos», um tipo de organizaçao em rede caracterizada pela independência formal dos vários componentes e a flexibilidade de relacionamentos, visando a exploração ágil de oportunidades. A terminologia é do projeto ECOLEAD, da União Europeia.

Rede egocéntrico da IREX revela ínumeros laços com o conteúdo de projetos públicos, privados, e parcerias públicas-privadas.

Segundo nossa relatora, essa estratégia de criação está caindo no caos e a confusão. Escreve, e traduzo:

O desenvolvimento de mídia financiado pelo governo dos EUA está passando por um tipo de «fosso digital» próprio . Se comparassem-se a lista dos realizadores dessa atividade de cinco anos atrás com a lista de hoje, várias organizações familiares apareceriam, tal como Internews and IREX.

Embora isso, o novo campo de estudos e de atitutudes em favor da liberdade, e da circumvenção de censura e bloqueio, traz consigo uma população de crescimento explosivo de novas organizações, papeis institucionais, e culturas de trabalho — além de uma lista desencorajadoramente comprida de novos acrônimos a serem lembrados ….

A multiplicação desses pontos de partida e saida segue uma lógica virual que, como a gripe espanhola, se reproduze além dos limites — entia multiplicanda sunt — na ausência de antibióticos críticos para filtra o fluxo da influenza.

Tal foi a conclusão sobre o projeto de construir um setor independente e sustentável de mídia no Afeganistão. Vamos para o caso.

Afeganistão | Caos e Caso

Tipico de uma onda de novo projetos empreendidos pela USAID, segundo nossa relatora, é a «Afghan Media Development and Empowerment Project (AMDEP)» — descrita como uma

Entidade de economia mista promovendo incentivos a um jornalismo «amigável ao livre-comêrcio» e de «inovação»

Ficando com a metafora do criadouro, parece que este esforço semeava milhares de quilómetros que não podia regar.

Também, a avaliação desse projeto é estranhamente contraditório, e aqui eu traduzo outra vez …

Afeganistão já foi a incubadora mais ambiciosa para vários atitudes em prol do desenvolvimento de mídia. O enorme — US$ 29 milhões — programa AMDEP, lançado em agosto de 2010, destacou uma gama sem precedente de soluções tanto tradicionais como inovadoras, num país sem qualquer setor de mídia estabelecido de antemão.

O curioso está no parágrafo seguinte: o projeto teria sido um grande sucesso, se não tivesse fracassado na tentativa de servir seu público-alvo. Anne de novo:

Assistência para o desenvolvimento de mídia, paga pelo governo dos EUA e outros, transformaram uma paisagem antes dominada pelo Taliban e pelos milicianos num ambiente que hoje orgulha-se de centenas de veículos com diversos pontos de vista.

Ainda assim, uma ressalva menor …

Ainda assim, um relatório do CIMA de 2012 descobriu que, após uma década de tal apoio, com gastos de decenas de milhões e um crescimento exponencial no acesso a plataformas digitais, as metas sociais mais abrangentes, como a de uma sociedade bem-informada, ainda não cumpriram-se. O jornalismo afegão como um todo ainda recebe marcas baixas nas categorias de independência e manha investigativa.

Foi como montar a banca de revistas mais completa do mundo no meio da caatinga nordestino. O dono fica la declamando Shakespeare e cantando Brecht-Weill aos urubus.

Ora, aquela guerra discursiva citada acima, contra qualquer pensamento «não amigável» ao livre comêrcio é a ponta mais nótavel de continuidade entre a CIMA de hoje e a do passado recente.

«Amigável ao livre comêrcio» já virou uma bandeira descolorida e desvirtuada que não leva em conta as roupas do imperador: que a nova ordem liberal do pais não estende-se além da prefeitura de Kabul.  Fora da cidade, reina-se outro modelo economico radicalmente libertário, ainda que distópico: o trâfego global de entorpescentes e arnas.

Chama-se do sindrome da Zona Verde — a fortaleza no centro de Bagdá com todos os confortos de uma cidade americana — Starbucks e McDonalds — e mais ou menos a salvo dos homens-bombas da Zona Vermelha.

A porta-giratória e a ordem virtual

Mas voltemos agora ao problema de coordenação e da idealização e realização de metas na montagem de «criadouros virtuais» — institutos de pesquisa e advocacia e programas acadêmicos subsidiados pela indústria..

Antes de mais nada, há uma certa ironia a observar nesse relatório: Acontece que o curriculum vitae da nossa relatora, Anne, serve de um bom exemplo de como as coisas podiam ter caídas em tal confusão — em outras palavras, um bom exemplo da chamada «porta-giratória».

Explico. Anne ja foi uma fundadora da ONG internacional IFEX — uma «casa de cambio» e «observatório» sobre liberdade de expressão no mundo. Divulga uma lista de ínumeros colaboradores mas é muito pouco transparente quando do financiamento que recebe e das fontes dele.

Relativo a Anne, ela já dirigiu também o Committee to Protect Journalistas — a comissão pela proteção aos journalistas. Esta entidade não tampouco detalha suas finanças, fornecendo uma lista comprida de fontes sem quantidades e dizendo que não aceita verbas governamentais.

Assim, além dos trabalhos desenvolvidos para a CIMA, Anne hoje edita pesquisas sobre mercados globais de mídia para o WAN, a poderosa a maciça rede internacional de entidades de classe locais e regionais da imprensa — no Brasil, a ANJ, na região, a SIPIAPA, et cetera.

Ela também integra o influente Council on Foreign Relations e contribui com frequencia ao PBS, sistema de televisão pública — uma emissora visivelmente conquistada pela indústria de «think tanks» durante os anos Bush, perdendo sua capacidade de oferecer pontos de vistas independentes e críticos, graças ao embaçamento das fronteiras — da muralha chinesa — entre grandes empresas e suas fundações do terceiro setor. Em outros escritos eu tenho falado do surgimento do Zaibatsu 2.0

Ainda assim, sejamos justos: fica claro que, apesar dessas ressalvas, a Anne fica unicamente posicionada para fornecer uma panorama de longa alcance sobre esta área.

Uma falha importante, no obstante, foi deixar de prestar contas mais detalhadas sobre parceiros do terceiro setor como as fundações Knight e Gates, Omidyar e Aspen, e tantas outras.

Que eu consigo entender, são estes que fornecem a maioria do dinheiro a esses projetos que buscam sinergias entre os setores da sociedad civil. Ela apenas critica, de forma geral, as dificuldadese criadas pela falta de coordenação entres os três setores.

O modelo de financiamento desses empreendimentos é do chamado «crowd-sourcing» — de múltiplas fontes entrecruzadas — e das «organizações de redes colaborativas», articuladas com menos formalidade do que organizações tradicionais mais funcionando como entidades virtuais — juridicamente independentes — de classe.

Acima, a fundação New America, por exemplo. Vamos tratar desse caso em seguida.

Além da proliferação descontralada de entidades, Anne continua,

… enquanto projetos tradicionais de desenvolvimento de mídia frequentemente mandavam jornalistas americanos a trabalharem no estrangeiro junto com veículos e jornalistas locais, o financiamento pra liberdade e desbloqueio da Internet costuma ser gasto com «think tanks» e faculdades de elite.

O projeto Global Voices pode ser um exemplo disso, patrocinando jornalismo cidadão através de fronteiras. Assim funcionam também muitos programas do Voice of América — radialistas gravando programas por mercados locais desde os subúrbios de Washington.

… As tropas desse tipo de entidades tendem a ser jovens, com ampla preparação em tecnologia. Tendem também a ter pouco experiência com — e em muitos casos pouca confiança em — o jornalismo tradicional.

O assalto no jornalismo tradicional por essa escola de pensamento — Fix Journalism, Rejurno, Newspaper Death Watch, News Rewired — tem sido maciço e bastante ideológico, no sentido ruim dessa palavra. Nossa relatora sabiamente chama as partes a fazerem as pazes, e parecer estar chamando para maior presença de servidores e agências públicas.

Ontem e Hoje | Os Criadouros de Harvard

Um momento interessante no relatório CIMA trata-se de centros de criação-incubação de mais longa data — a partir do ano 2000, digamos — e de hoje. Sugere um corolário ao Efeito Porta-Giratória: que muitas vezes o pessoal de um criadouro passa a trabalhar na propria cria.

Entre os primeiros beneficiários das bolsas de pesquisa e estudo emitidas pelo Departmento de Estado foi o Centro Berkman, da faculdade de direito da Harvard, que completou uma série de relatórios influentes sobre censura na Internet em 2007. Na época, o Rob Faris, do centro Berkman, ecoou as palavras de Hillary Clinton: «vocês travam uma cíberguerra na qual vocês ficam no lado dos anjos»

… Este financiamento [público] gerou um grau significativo de polêmico, porém, e o Berkman desistiu de ser apoiado pelo governo por um tempo atrás disso, se bem que outros projetos de pesquisa com financiamento público estão sendo contemplados agora.

Entre os fundadores atuais do centro, a USAID e o IDRC de Canadá, do espaço publico; as fundações Knight, MacArthur, Bradley, Sloan … do terceiro setor; e as empresas Microsoft, Google, IBM, PayPal, Oracle, Sun, Lenovo, Ernst & Young … A Berkman também colabora com o centro Nieman, inclusive com uma bolsa de estudos na «inovação do jornalismo»

Essas fundações servem como um mecanismo — um vetor de influenza — pela entrada dos patronos no debate sobre políticas públicas envolvendo a Internet, na politíca doméstica e além-mar. Forma representantes — evangelizadores e municia-os com argumentos prontos a serem propagados — multiplicados como os pãos e peixos — em tudo que é canal social.

Mas digressiono.

Hoje e Ontem | A New America

Vou fechar essa nota — que divagava um pouco, me perdoe — com um novo jogador no campo, segundo nossa relatora: a fundação New America. Traz outro exemplo da porta-giratória — o Efeito Fernando Pessoa, digamos — na persona da bolista Rebecca MacKinnon, autor do recentemente lançado livro Consent of the NetworkedConsentimento dos Enredados? — sobre a Internet na China, sua área de especialização.

Ela recentamente deixou o Berkman — que eu saiba, deixa-me checar — para aceitar uma bolsa de pesquisa com uma fundação relativamente nova e abastecida que nossa relatora do CIMA, Anne, argumenta ser um novo e importante jogador nessa arena.

Novo jogador de peso nesse campo é a fundação New America, fundado em 1999 com um investimento inicial da fundação Schumann, do jornalista Bill Moyers [ … intermediado pela fundação Florence que tb financia o PR Watch e Source Watch] …

O presidente de Google, Eric Schmidt, servia [serve] como presidente do conselho. A fundação patrocinava o Instituto de Tecnologia Aberta — OTI, em inglês — que liderava projetos pela liberdade e pela circumvenção de censura.

O New America já virou um dos laboratórios e institutos de pesquisa — «think tanks» — mais influentes sobre políticas digitais no Washington, e desenvolve bem-conceituados projetos no desenvolvimento de mídias digitais.

Uma tarefa ainda para fazer: o organograma da fundação.  Começa com a lista de doadores — o Formulário 990 não está disponível.

Caveat: a entidade NewAmerica.net fica ligado com a rede egocéntrico do Fix Jornalismo de forma meramente geral — por meio de um laço com uma PS — plataforma social — Bloglines.

$1,000,000+

  1. The Ford Foundation
  2. The New York Community Trust
  3. The Rockefeller Foundation

$250,000-$999,999

  1. Blue Shield of California Foundation
  2. Broadmap, LLC
  3. Carnegie Corporation of New York
  4. Foundation to Promote Open Society
  5. The Bill & Melinda Gates Foundation
  6. The William and Flora Hewlett Foundation
  7. The James Irvine Foundation
  8. Peter G. Peterson Foundation
  9. The Pew Charitable Trusts
  10. Wendy and Eric Schmidt
  11. Bernard and Irene Schwartz

$100,000-$249,999

  1. Analytic Services, Inc.
  2. Arizona State University
  3. Atlantic Advocacy Fund, Inc.
  4. The Annie E. Casey Foundation
  5. Citi Foundation
  6. Community Foundation for National Capital Region
  7. Foundation for Child Development
  8. William Gerrity
  9. Google, Inc.
  10. Evelyn & Walter Haas, Jr. Fund
  11. The Hauser Foundation
  12. Leo Hindery
  13. Carolyn and Jeffrey Leonard
  14. Lumina Foundation
  15. The John D. and Catherine T. MacArthur Foundation
  16. Microsoft Corporation
  17. Charles Stewart Mott Foundation
  18. Silicon Valley Community Foundation
  19. Smith Richardson Foundation
  20. W. Clement & Jessie V. Stone Foundation
  21. Surdna Foundation
  22. United States Institute of Peace
  23. Richard Vague
  24. Visa Inc.
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