Um Computador por Aluno | O Blecaute

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Uma pergunta simples: por quê será que o programa Um Computador Por Aluno fracassou no Brasil?

Evangelistas do programa, capitúlo do One Laptop Per Child, tendem a culpar políticas e atitudes que, como dizemos, «don’t get it» — que são  Luditas cegos às possibilidades milenárias do projeto. Assim me parece argumentar o Nelson Pretto, por exemplo — assunto tocado numa nota no meu blog em inglês. Ele escreve,

De uma maneira bastante equivocada, a meu ver, o MEC praticamente interrompeu o programa Um Computador por Aluno, sem nem mesmo ter sido possível se fazer uma profunda avaliação do que significaram os cinco anos do projeto no Brasil. As cinco primeiras escolas entraram no experimento inicial no ano de 2007 e a constatação deste abandono, entre tantas outras que bem conhecemos por estarmos envolvidos no programa, está no próprio site oficial do UCA: a última notícia publicada é, pasmem, do final de 2010!

Mas existem razões muito mais práticas pelo atraso aparente do programa aqui, entre eles o fato de fracassos do programa em outros paises que assinaram embaixo. Por exemplo:

Eu traduzo a nota da peruana Kiko Mayorga, que critica a brecha entre propaganda e a realidade técnica do projeto — que faz com que os números proporcionados pela mapa do projeto ficarem exagerados.

Eu soube que ainda nem podemos contatar por e-mail os responsáveis pelas 3,5 mil “salas de inovação” no Pais. Nem sequer temos os endereços de profesores utilizando o XO. Temos menos que 5% das 200 mil máquinas ligadas à rede, portanto não tenho qualquer noção de onde estão. Alem disso, temos poucos casos de éxito.

Segundo o mapa do OLPC, porém, Peru teria 980 mil máquinas XO.

Fiz uma pesquisa no Google pela frase”OLPC Peru” e busquei no Youtube. O que eu descubri foram exemplos estarrecedores da brecha entre realidade e publicidade. Eu achei alguns vídeos assustadores feitos por nosso governo, em estilo próprio à propaganda, dizendo qualquer coisa que publicitários, trabalhando muito longe da nossa realidade, achava convincentes

Outro texto, de Wayan Vota da Rwanda, conta como a falta de infraestrutura básica atrapalha a adoção da tecnologia.

Cinco anos atrás, Rwanda anunciou a sua participaçação no programa OLPC, e dois anos atrás o pais encomendou 120 mil laptops XO. Segundo o ministério de educação do Pais, porém, apenas 57 mil foram entregues.

Porque demoraria dois anos para entregar os 57 mil, cinco anos após anunciar que iam entregá-los a cada criança do pais? Há bastantes razões políticos e educacionais, mais segundo o relatório do Ministério de Educação, a razão técnica mais óbvia é a falta de eletricidade.

Como propulsar todos estes XOs?

Nkubito Bakuramutsa, coordenador do OLPC no Ministério de Educação, explica que 56,607 laptops foram distribuidos e que até o fim de junho desse ano o OLPC espera ter distribuido 100.000. Comentando a falta de eletricidade nas escolas, ele dise que a eletrificação tem sido um desafio maior na implementação do projeto.

Foi exatamente isso que foi o calcanhar de Aquíles do programa mexicano Enciclomedia, de 2006: algumas das máquinas, que iam baixar materiais escolares de um servidor maciço, foram roubadas e convertidas em máquias de caça-níquel (!) enquanto outros foram entregues a escolas sem condições de utilizá-las. Além do qual não houve treinamento adequado de profesores da rede pública.

Na Rwanda,

“O primeiro passo tem sido a reparação da eletricidade nas escolas, assegurando que todas são equipadas com luzes e pelo menos quatro tomadas capazes de recarregar 60 unidades à mesma vez,” disse Nkubito.

Bakuramutsa disse que 150 escolas já receberam a reforma e que mais 90 a terão até junho. O ministério também planeja a instalação de paneis solares em escolas não ligadas à rede nacional.

O Rwanda não é o único pais a sofrer a falta de eletricidade como uma barreira maior à distribuição do XO. Em Peru, um estudo recente do IADB- BID descubriu que 5% das escolas que receberam XOs ainda não têm eletricidade, enquanto existem escolas consideradas eletrificadas que não têm condições de receber os XOs — algunas tem uma única tomada, no gabinete do diretor. Isso não será o suficiente para propulsar várias dúzias de XOs.

Na Nigeria, a situação foi ainda pior. O custo de eletricidade, escandalosamente caro, não atrapalha apenas a entraga do XO. O gerador comprado para fornecer energia aos XOs teve que ser armazenado no gabinete do diretor para evitar roubo, foi propulsado por gasolina cara, e, além disso, precisava de manutenção constante que demora vários dias. O que é pior, o gerador quebrou, Worst of all, the generator broke down, apagando o UPS do servidor da Internet.

Afeganistão ainda procura soluções de energia alternativa, inclusive por pedalos, enquanto na Quênia instalaram poder solar.

Portanto, se bem que a gente possa elogiar os avanços do Século XXI que nos trouxeram os XO e outros, o OLPC ainda está dificultado por barreiras técnicas do século passado.

Merece destaque também os críticos constantes e consistentes sobre a atuação de Intel e Microsoft na elaboração do projeto.

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