Estranha Liberdade | De Regimes, Governos e Novilíngua

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Eu devo torcer para quem no embate entre governo e rebeldes na Síria? Lá não tenho parente nem amigo. Eu sei praticamente nada sobre o país, sua cultura e sua política. Conheço um pouco da sua língua, graças ao curso de literatura comparativa no Berkeley. Estou contra qualquer nova intervenção militar na região.

Agora, deu na Dissident Voice e no Counterpunch, assinado pelo jornalista John V. Walsh, que cunhou um novo apelido para a rede nacional de rádio pública, NPR — substituindo a «pública» com «Pentágono» sob a acusação de promover propaganda, no sentido ruim da palavra. Eis o ensaio:

Walsh reclama de uma certa falta de isenção na cobertura de assuntos estratégicos, que eu também tenho notado ao longo da última década.

Não é apenas um jogo de palavras. Em 2008, a rede enfrentou um crise quando seus laços com uma fonte dentro do Departamento de Defesa — parte de uma campanha de propaganda alvejando “formadores de opinião” para vender a invasão de Iraque — foram revelados. A emissora prometeu aprofundar na checagem de fontes para evitar conflitos de interesse no futuro, mas continua sendo comum ver cabeças-falantes representando «think tanks» que tacitamente funcionam como a mão escondida de lobbies.

A emissora também serviu como portavoz da varejista gigantesca Wal-Mart — esta quis responder à cobertura negativa fazendo doações à NPR.

Portanto, o Walsh chama aos seus leitores a montagem de um observatório da rede pública.

Estou interessado não somente em linguagem enviesada mas tambem com falsificações e cobertura de apenas um lado do assunto — muitas vezes traz dois convidados que na verdade concordam entre si em pontos básicos, que assim passam sem debate. Isso é um método eficiente de propaganda. 

Eu fiz uma versão no meu pobre Português — vou pedir um copídesque da minha mulher.

Sexta-feira trouxe mais uma reportagem sobre a guerra civil na Síria pela jornalista Kelly McEvers durante a edição matinal da NPR, a rádio pública nacional.

O resumo que abre o segmento nos informa de que os rebeldes “capturaram uma terceira travessia na fronteira entre Síria e Turquia. Os rebeldes pretendem restaurar serviços básicos à vila recentemente liberada.”

Vamos parar a fita logo aqui. “Uma vila liberada”?

Lembra um velho ditado sobre a guerra na Vietnã: «tivemos que destruir a vila para salvá-la».

Segundo o dicionário Merriam Webster, a primeira definição do vocábulo é «liberar, e especialmente «liberar (como, por exemplo, um país”) da dominação de uma potência estrangeira.»

(A frase «dominação por uma potência estrangeiro» soa bem irónica dado o papel dos EEUU, Turquia, Israel e o Conselho de Cooperção do Golfo no financiamento e abastecimento dos rebeldes.)

Não é preciso cavoucar muito nos sentidos do verbo “liberar” para ver que conota uma liberação pelos mocinhos da história. Logo no começo, a NPR está tomando lado, sem muita sutileza. A reportagem não demora muito até a jornalista Kelly McEvers repetir a formulãção:

“Dentro do prédio, nos sentamos com Abu Azzam, um dos comandantes rebeldes que ajudaram a liberar a travessia com a Turquía e a cidade ali perto.”

Ora, que tipo de “liberação” aconteceu na cidade de Tal Abyad, de 20 mil pessoas?

Enquanto progedimos pela matéria, a noção de “liberação” soa cada vez mais estranha.

Segundo McEvers:

“Assim como entramos na cidade, os únicos civis que vemos são um punhado de gente num picape, que estão saindo da cidade. As paderias reabriram, mas parece que fazem pão apenas para os combatentes rebeldes.  Uma das duas lojas que reabriu nitidamente abastece apenas os rebeldes. Por outro lado, a cidade está quase vazia … Nosso guia, Abu Yazen, nos mostra os prédios enegrecidos e esburacados do governo conquistados pelos rebeldes. 

“Perguntamos a Abu Yazen porque a vila fica tão vazia. Responde que 80% dos moradores apoiava o governo e não os rebeldes. mas que acontece quando esse 80% volta e querem suas casas de volta? O que vai acontecer com eles?” 

O guia responde e McEvers traduz:

“Quem tenha sangue nas mãos serão julgados. Os outros voltarão e nos ajudarão a construir um novo país.” Não trata-se de uma perspectiva muito animadora par quem fugiriam da “liberação” da sua cidade.

McEvers apressa-se para concluir a reportagem:

“Alguém entra dizendo que uma coluna de caminhões fora observada,  armados de metralhadoras e propriedade do exército do regime.”  (Som de um motor de caminhão)   Tivemos que fugir a cidade antes de saber o fim da história”  

A palavra operante agora e “regime.”

NPR costuma dizer que inimigos oficiais tem “regimes.” Assim, tanto Irã quanto Síria tem “regimes” enquanto Israel, por exemplo, tem “governo.”  Nesse caso devemos olhar as conotações da palavra.

Segundo Wikipédia, sob o título de “uso moderno”: “Embora originalmente um sinónimo para qualquer governo, o uso moderno muitas vezes dá-lhe uma conotação negativa …”

(Era uma vez que o movimento antiguerra referia-se ao governo Bush como “regime,” mais esse uso sumiu com a chegada de Obama no poder como o candidato dos Democratas “progressistas.” )

Esse tipo de vocabulário não é banal ou inócuo, como George Orwell apontou faz muito tempo.

Esse uso, repetido sem fim, reforça a noção de quem seria o mocinho e quem o bandido.  Esse tipo de propaganda faz a cabeça do público e prepara o caminho para guerra e conflito.

Sobre a Novilíngua, veja o livro American Newspeak.

Quando o secretário de estado norteamericano Colin Powell discursou perante a ONU, o «visual» do discurso consistia em um drapejamento azul e uma fila de bandeiras. Poucos sabiam que o drapeado teve que ser instalado aquela manhã para cubrir uma obra de arte que normalmente aparece — uma tapeceria enorme do quadro anti-guerra de Picasso, «Guernica» Defendeno a ocultação das imagens de mulheres, crianças e animais moribundos, a portavoz Stephane Dujaric disse, “Precisamos do pano de fundo certo para a televisão.” (Picasso deveria ter pintado caras sorridentes) Sem sabe, Powell apresentava ao mundo a metáfora perfeita de como nossas políticas e nosso conceito de “danos colaterais” encubrem a realidade de sofrimento humano.

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