Vladimiro x Dirceu | Qual é o Gênio do Mal?

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Tres anos depois da condenação do peruano Alberto Fujimori, os choques secundários ainda estão sendo sentidos. Um exemplo marcante, do noticiário de hoje:

O caso trata do suborno generalizado e continuado da mídia peruana pelo — a analogia é propositalmente exagerada, como explico mais para frente — «Zé Dirceu de Fujimori», o Vladimiro Montesino.

El procurador anticorrupción Julio Arbizu afirmó hoy que existe la posibilidad de un careo entre el expresidente Alberto Fujimori y su exasesor Vladimiro Montesinos, durante el juicio oral que se inicie por el caso de los denominados “Diarios Chicha”.

“Es una posibilidad, pero el careo está supeditado a que haya contradicciones en las declaraciones de una u otra persona”, argumentó.

Recordó que el caso de los “Diarios Chicha” representan “un episodio nefasto” en la historia de la prensa y del país porque solo sirvieron para denigrar a personajes que se oponían al régimen de Fujimori en “sus épocas más cruentas y perversas”.

Según la denuncia, el gobierno de Fujimori (1990-2000) habría desviado 120 millones de soles del presupuesto de las Fuerzas Armadas para entregarlos a diarios de corte sensacionalista para atacar a sus adversarios políticos opuestos a su segunda reelección

Insisto, portanto, na comparação inepta Dirceu-Montesinos porque, por mais que eu busco entender o caso do gênio do mal Dirceu, eu não consigo achar muitos paralelos com o caso do Rasputin que era Montesinos.

Ao lado do esquema Montesinos, os «aloprados» eram Alvin e os Esquilos..Quando do mensalão mineiro e a Lista de Furnas, porém, têm muito mais a ver.

Acima, políticos «subornados» com capital lavado em troca de votar a emenda constitucional permitindo um segundo mandato para Fujimori. Quem quebrou lealdade partidária recebiam mensalidades.

Pois o Montesinos era um paranoico que sistematicamente gravava milhares do horas de vídeo documentando seus negócios escusos, além de forçar a assinatura de sócios clandestinos em contratos formais que guardava às sete chaves, para poder abalar a república se virasse necessário.

Tanto era o hubris desse operador político que ele obrigava parlamentares a assinar um contrato formal, tal como o seguinte:

O assinante deste documento, Mario Gonzalez Inga, eleito deputado federal da República nas eleições passadas, por meio desses presentes renuncio irrevogavelmente minha integração no partido politico Peru Posible, na lista do qual fui eleito, e assim recupero minha independência, me comprometendo a apoiar o partido Peru 2000, no qual passo a integrar durante os cinco anos do meu mandato. —

Uma leitura indispensável sobre o Caso Montesinos é Como Subvertar a Democracia: Montesinos em Peru, de John McMillian e Pablos Zoido (Stanford)

Trata-se de uma contabilidade rigorosa das verbas recebidas e gastas, legitima e ilicitamente, pelo homem-bomba de Fujimori. Entre as fontes de verbas caixa-preta, por exemplo, foram montantes passados pelas verbas das Forças Armadas, assim:

O ponto de comparação mais interessante, porém, e numa primeira leitura, é o controle que Montesinos exercia sobre a mídia peruana na época — uma área na qual ele gastava a maioria dos seus recursos. Traduzo:

Propinas recebidas pela mídia são alistadas na tabela 4. O chefe do Expreso, um jornal de qualidade, recebeu $1 milhão em dois pagamentos separados por três semanas, supostamente para que ele compre uma parte controladora das ações da empresa. El Tío, um tablóide, supostamente recebeu $1.5 milhões durante dois anos — ou seja, uns $60,000 por mês, segundo as condições de um incentivo ligado ao conteúdo do jornal: $3,000 a $4,000 para um manchete de capa, $5,000 para uma matéria longa e $500 para um ítem de menor porte. Outros tabloides, tipo El Chato, El Chino, La Chuchi, El Mañanero, e El Diario Más, segundo Conaghan (2002, p. 118), entraram em negócios parecidos.

Entre as TVs, uma (a Canal 7) era estatal, e Montesinos controlava seu conteúdo diretamente. As cinco emissoras privadas, Canais 2, 4, 5, 9, e 13, e também o serviçõ de TV a cabo, CCN, foram comprados. Apenas um canal de TV não recebeu propina: o outro canal de TV a cablo, Channel N. Mas o serviço era caro demais para a maioria de telespectadores, dos quais tinha meras decenas de milhares.

O canal 4, campeão de IBOPE, recebia $1.5 milhões por mês em propinas. Canal 2 recebia $500,000 por més, como fazia também o Canal 5. Os outros canais, nanicos, foram comprados com recompras de ações e outros favores, inclusive favores feitos pelos tribunais.

Então, se bem que o Dirceu não deixou nenhum rastro do chamado «mensalão», Montesinos fazia o contrário: obrigou todas as TVs a firmarem um contrato, do qual ele mantinha a única cópia. Nesse caso, o “domínio do fato” significava que haviam provas concretas de que Fujimori sabia diretamente de, e ordenou, execuções, chacinas e tortura.

Os donos das TV assinaram contratos formais. No contrato entre Montesinos e o Canal 2, por exemplo, Montesinos recebeu controle absoluto sobre o teor dos noticiários por uma mensalidade de US$500,000. O contrato tem o formato e força de um documento legal. Montesinos, que mantinha a única cópia, não chegar a ser nomeado no contrato — chama-se apenas de “O Contrator.” Segundo o contrato, essa anonimidade “não nulifica a força legal desse documento.”

Era para Montesinos pagar propina de meio-milhão de dolares no começo de cada mes. À mesma vez o canal devia emitir uma carta de crédito no mesmo valor, que seria destruida quando o canal cumprira seus deveres. Se atrasar, a TV paga multa de 1% por dia … Se o canal não cumpra o acordao, Montesinos tem o direito de tomar atitude sem que o canal tiver “qualquer remêdio jurídico.”

Os deveres destes contrators incluem “fazer qualquer outra tarefa que seja necessária. O canal deixará Montesinos revisar o noticiário do dia antes de ir pro ar, assim como deixará de divulgar qualquer conteúdo tocando no Presidente nem nas eleições legislativas sem a aprovação por escrito de Montesinos.

Quanto pagou Montesinos em total? O custo de subornar congressistas para assegurar uma maioria suficiente no Congresso para passar a reeleição de Fujimori dava menos que $300,000 por mes. O custo de comprar juizes. (aproximamos por falta de dados completos) foi algo como $250,000 por mes. O custo total de subornar as TVs era mais que $3 milhões por mes. A televisão era de longe a mais vultuoso custo de fazer negócios.

Os «vladivídeos» mostram Montesinos gabando-se do seu control sobre a mídia, e até exagerando a extensão do seu poder. “Cada canal recebe $2 milhões mensalmente, mas não cabe outro jeito. Sem esse sacrifícios, não teriamos ganhados. Falando com alguns associados sobre os donos das TVs, Montesinos disse, “Fizemos com que eles assinarem formalmente, com tinta sobre papel. Agora o jogo vira muito sério. Temos todos as TVs conosco. Cada dia às 1230 horas tenho reunião com eles. Somos nós que planejamos o que vai no ar àquela noite.” Contou a um dos donos como ele monitorava a TV 24 horas por dia. Chegou ao ponto de oferecer uma das televisões um equipe da SIN que poderia “trabalhar em matérias investigativas.” Montesinos pagava caro para controlar a mídia, entre tempo próprio e o investimento dos recursos do SIN e outras fontes caixa-pretas.

Podemos enxergar no caso do Novo Rasputin Dirceu algo parecido ao «vírus de Montesinos» senhalado por nossos autores? Pelo que já li sobre o caso, não dá, e de longe.

Um gran número de paises sofram do “vírus de Montesinos,” segundo o jornalista polaco e militante pro-democracia Adam Michnik (2000). O «montesinite» ele categoriza como “um cáncer novamente descuberto e florescendo em jovens estados democraticos. Em paises como a Rússia de Putin, o Zimbabwe de Robert Mugabe, a Malaysia sob Mahathir Mohamed, e a Haiti sob Jean-Bertrand Aristide, além de outros lugares, eleições acontecem mas um único partido mantêm o poder de fato. Nossa análise comparativa mostra que paises sem uma imprensa livre e isenta tendem a sofrer de altas taxas de corrupção. … A imprensa precisa de salvaguardas — mecanismos para assegurar a isenção e credibilidade, e de que fiquem livres de indevida influência partidária. Isso pode ser o fator mais importante de todos.

Pois é. Ninguem compara com o Rasputin de Fujimori, e com certeza não o faz o Zé Dirceu, linchado por uma imprensa não menos implacável por fazer o papel de algoz por conta própria.

Peraí. Ninguém. Eu estava me esquecendo do Rasputin de Uribe, na Colombia, J.J. Rendón, onde vemos a mesma conspiração entre militares, agentes de informações, e a mídia.