La Gacetilla e o Jabaculê | Ou Seja, Policarpo Pro Mexicano Ver

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Fonte: As xilogravuras belas do Marcelo Tiburcio,  Behance

… jornalistas as vezes são promovidos ou premiados com áreas de cobertura cobiçadas dependendo do seu talento de vender anúncios políticos a suas fontes.

«Dê-me um ministério. Senão, eu monto um jornal» –ameaça grega

Embora não inspire grande interesse nos meus milhares de leitores, eu gosto de anotar e traduzir assuntos do noticiário — e aqueles em particular que tendem a reproduzir, dentro de mim, àquele momento quando a Dorothy vira para seu cachorrinho Toto e diz, «Opa, Toto, acho que não estamos mais no Kansas».

Tal foi uma nota minha recente sobre o triste fim adiado de Policarpo Jr., comentando no meu blog anglófono …

Tenho lido bastante sobre o caso, mas tive que tirar o cerúmen dos meus ouvidos quando topei com o argumento central da apologia pro Veja sua proferido. É textualmente o seguinte.

Policarpo não é culpado de nada a não ser da prática de mal jornalismo — o qual não configura crime..

A lógica é inegável, mas do ponto de vista de relações públicas me parece um elogio torto e canhoto. E se você fosse vendedor de anúncios lá na Ábril, como você ia alavancar este autorretrato — «Veja: é incompetente mas pelo menos não (sabidamente) mente.» — em boas vendas?

Me lembro de ter lido o mesmo pedido de desculpas após a publicação daquela capa com as contas de Lula na Suiça. Estão lembrados daquilo²

Foi quando Veja disse, mais ou menos: deixando algumas provas ao lado, não fomos capazes de determinar se os documentos fossem falso ou não. Parte da parte das provas deixadas ao lado: o laudo da PF carimbando os papeis de absurdamente falsos.

Jabá: Tabú. Postura: Tatú.

O que eu quis anotar agora, então, é a falta de cobertura, inclusive dentro do autoregulamento da imprensa, daquela palavra sinistra: jabaculê.

Se a última ceia de São Cachoeira e seus apóstolos na imprensa não cheirava de erva-jabá, meu paladar estão piorando.

O termo «jabá» perde espaço e sentido sempre quando o discurso de moralismo — o pânico moral dos sociologistas — fica monopolizado por uma imprensa udenista e caçador de corruptos. Muitas vezes os caçadores viram os corruptos — pense no desfecho daquele conto de fadas, os mosqueteiros da ética, de triste memoria.

Mas jabá continua vivo: o esquema montado pelo bicheiro Carlinhos Cachoeira na imprensa comprova isso. Outra nota minha sobre o assunto.

Será que jabá é algo na DNA do brasileiro? Apesar dos pessimistas, eu duvido, e faço questão de colecionar esquemas parecidos e paralelos..

A imprensa corrupta floresce em todos os cantos do mundo, mas o esquema que tô pensando hoje trata-se da tradição da gacetilla no México.

Traduzo de um artigo sobre o assunto de 2004, no Los Angeles Times:

Paying for the Press in Mexico. By Chris Kraul. August 29, 2004.

Traduzo:

Como emplacar uma reportagen na capa de um jornal mexicano? Você compra o espaço. A divulgação das chamadas gacetillas, ou seja, anúncios políticos fantasiados de reportagens verdadeiras, acontece diariamente em todos os maiores jornais do país. Salvo por pistas muito tênues, não há como diferenciar essas matérias pagas de reportagens normais, produzidos pelo pessoal da redação, ou indicar que não foram empregados do jornal que produziram-nas. Ainda assim, as matérias são o produto de alguma agência de comunicações, passando depois pelo gabinete comercial  do jornal, onde é avaliado pelo valor monetário e não pelo jornalistico.

Em outubro de 1987, um dia após a notícia de que o Carlos Salinas de Gortari seria o candidato do PRI para a presidência mexicana, quatro dos maiores jornais da Cidade de México deram espaço a o discurso de um governador de um estado no norte do país apoiando a escolha de Salinas. Todos apareceram sem assinatura do jornalistas responsável. Todos destacaram o mesmo trecho do discurso. Dois dos quatro, publicados em jornais concorrentes, eram idênticos — palavra por palavra e vírgula por vírgula.

No dia seguinte, os trés jornais líderes do mercado divulgam reportagens sobre o discurso de um governador sulista, também apoiando Salinas. Mais uma vez, a atenção paga a um político não muito destacado parecia demasiado, e mais uma vez, as reportagens eram textualmente quase iguais. Foi longe de ser coincidência — a publicação dessas matérias foi um exemplo nítido de como se faz uma gacetilla.

Durantes as próximas semanas, inúmeras gacetillas apareceriam na imprensa mexicana. Nem todos podiam ser chamados sinais de adesão à causa do PRI, porém. Alguns destacam autoridades que tinha divididas o palanque com o presidenciável e queriam aparecer; outros comunicava o ponto de vista de uma empresa estatal contra um sindicato relutante; outras, da autoria de uma empresa estatal, tentava minimizar um desastre ambiental pelo qual a empresa estava sendo culpada.

A maioria dos casos, como é de praxe, viram de governadores estaduais — anunciando políticas públicas e resultados eleitorais, ou até dando disursos vazios do governador. O objetivo é manter um perfil alto nos olhos do aparelho federal, sediado no DF.

As gacetillas são muito comuns? Segundo um bom número de editores e executivos de jornais, cada capital do pais fazem uso delas com frequencia. Sem acesso à contabilidade de um jornal, fica dificil contar a frequência exata disso acontecer. Ainda se tivessemos estes dados, na verdade, seria difícil avaliar a questão. A maioria de jornais não mantêm contas separadas sobre gacetillas de um lado e “propaganda social e política” do outro.

São contadas na mesma categoria, “renda de propaganda.” Uma estimativa bastante confiável, porém, baseado numa pesquisas nas grandes redações, é que cada jornal nacional de peso publica pelo menos uma gacetilla cada santo dia. E vários outras gacetillas, é claro, aparecem nas páginas interiores.

Apesar da sua prevalência, porém, gacetillas são pouco conhecidas — e muito raramente comentadas — fora de certos círculos fechados na política e a indústria de mídia.outside political circles and the media industry.

A lei não escrita da indústria reza que mídias concorrentes entre si não comentam o compartamento das outras. “O Leão não come seu próprio carne,”diz um redator.. Assim, as más práticas da imprensa jamais são comentadas.

Tampouco seria conveniente se a verdade tornasse conhecida, pois a capacidade de estabelecer o preço da gacetilla depende da importância do texto a ser trocado. A capacidade dos jornais de cobrar mais por uma gacetilla  depende diretamente na capacidade de fazé-la aparecer legítima..Acima de tudo, não fica no interesse de ninguem denunciar  outro pelo fato de que cobram bem pelas gacetillas,

No final das contas, o raciocínio financeiro é o motivo mais convincente. A Cidade de Mexico tem 20 diários, cada um na procura de um naco da maior fonte de propaganda do todas: a propaganda oficial .

A gacetilla é a fatia mais doce da torta, costumando pagar duas ou três vezes o custo de um anúncio comercial, e mais ainda cuando trata-se de uma matéria de capa. Como o redator-chefe de um jornal capitolino diz, “Sem a gacetilla essa cidade teria, no máximo, apenas um punhado de diários.

2.  Dinheiro Fala Mais Alto

No primeiro parte, revisamos a prática da gacetilla  — anúncios pagos mas travestiados de reportagem. A prática está pandêmica por muitos anos e conta com a colaboração de todo mundo na mídia — executivos, editores, redatores e jornalistas. Mas como é que editores e jornalistas racionalizam este assalto aos valores da profissão? Fácil. Dinheiro fala mais alto.

Publicando gacetillas pode levar a outros conflitos e distorções no funcionamento normal do jornal. Editores devem preocupar-se com propinas pagas aos jornalistas não simplesmente por isso ser mau jornalismo mas porque pode ser mal para negócios.

Tem consequências mais suteis também: segundo um editor, jornalistas as vezes são promovidos ou mandados fazerem coberturas sobre assuntos cobiçados segundo seu talento de vender anúncios poíticos.

Os ambiciosos correm atrás de gacetillas e, assim como alimentam a renda de empresa, são bem-vistos por seus chefes. Um repórter que se esforça muito na construção de redes contatos muitas vezes pode convencer fontes a pagar uma gacetilla. …

A relação é uma mão-dupla, é claro. Assessores de imprensa com territórios lucrativos tem muito poder sobre a escolha ou banimento de jornalistas mandados a fazer a cobertura. Assim, jornalistas com a fama de agressivos podem ser excluidos gentilmente por um assessor que à mesma vez tem no bolso milhares de dólares para comprar gacetillas.

Tradução vai continuar …

“Normalmente acontece num nível bem pessoal,” diz o editor da D.F., explicando que, se o editor manda um jornalista considerado ideologicalmente indesejável, ele receberá um telefonema do assessor de imprensa, dizendo “Por que mandou aquele? Por que não mandar Paco em sua vez?

Dentro da empresas, promoção a uma boa área de cobertura pode incentivar o jornalista, assim como emplacá-lo numa área não-rentável pode representar uma punição.

Segundo a regra geral, jornalistas recebem uma commissão de 15% nas  gacetillas que vendem às fontes na sua área. Recentemente, alguns dos sindicatos de jornalistas propunham um pagamento de 10% ao repórter e 5% para um fundo geral para empregados que não são jornalistas. O fundo comum … só aumentaria o número de empregados interessados na venda de muitas gacetillas.

Um jornalista que põe em risco uma “boa” fonte com matérias negativas pode ser acusado de minar uma fonte importante de renda pro jornal e seus empregados.  Os talentos profissionais do repórter são eclipsados pela capacidade de vender …

O resultado previsível é uma distorção entre os jornalistas. Ávidos e trabalhadores jornalistas que sabem evitar ofendendo clientes e fontes importantes acabam recebendo as mais cobiçadas áreas de cobertura — certos ministérios, por exemplo, ou a PEMEX.

Nesse processo de premiar talentos, os  jornalistas mais favorecidos viram acostumados às vantagens de um jornalismo acrítico. Áreas importantes pelo valor noticioso mas que não pagam gacetillas — relações estrangeiros  por exemplo — tem dificuldades atraindo os bons profissionais que, por razões puramente econômicas, iam preferir uma área de cobertura menos importante mas pagando melhor.

A diferença entre uma boa e uma mala área de cobertura pode ser visto com nitidez nos patrões de vida de cada lado, dos privilegiado e os não-privilegiados.. “Quando um jornalista consegue uma boa fonte, você percebe isso de imediato na roupa que veste, os anéis que usa, o carro que dirige,” diz o editor do D.F.

A prática de avaliar jornalistas segundo sua capacidade de atrair gacetillas assume proporções grotescas em algumas redações, onde uma lista das vendas de cada um é postado ao lado de uma lista das vendas à fontes conseguidas por concorrentes de outros jornais. 

A renda extra que a gacetilla traz aos empregados do jornal, seja direta ou indiretamente, continua sendo entre os argumentos mais fortes dos editores e redatores que defendem a prática.

As gacetillas são vistas como gorjetas: um bônus normal e legítimo, pago aos jornalistas. Este bônus ajuda o jornal a desonerar a folha de pagamentos, embora pode incomodar um jovem editor que quer impor padrôes profissionais mais fortes nos repórteres.

Segundo um editor, «Sempre que eu lido com jornalistas, tenho que lembrar que o salário oficial que ganham é menos de uma metade da sua renda verdadeira.»

«Mais que isso, por conta dos «embutes» (pagamentos diretos ao jornalista), não posso saber o quanto estão ganhando de outras fontes».