UPPs & O Mercado Imobliário

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Favela_Vidigal

Deu no Guardian — tradução minha

A favela carioca vira imóvel de primeira | Compradores ricos andam comprando terrenos após a expulsion do tráfico

Sou o único cínico que enxerga em tal entusiasmo o começo de uma bolha das mais perigosas?

Como pode ler na minha tradução abaixo, a tése é de que o sucesso dos UPPs — instalado no caso de Vidigal desde janeiro de 2012 — está valorizando imóveis dentro daquelas comunidades.

Além de achar cedo ainda para falar dos efeitos dos UPPs — presente em 30 comunidades enquanto milícias atuam em 200 — eu também acho difícil sustentar essa tése — a análise e de Jonathan Watts — sem contar com a presença e os efeitos do outro submundo carioca, as milícias.

Por exemplo, da Agência Estado, de maio de 2012:

As milícias do Rio passaram a cobrar taxas para transações imobiliárias de moradores e a fazer agiotagem para manter o poder econômico nas comunidades.

Parece que se graduaram de transportes e Gatonet para serviços financeiros — agiotagem e hipotecas mercado-negro.

A denúncia é do estudo “A Evolução da Milícia no Rio de Janeiro“, feito pela Universidade do Estado do Rio (Uerj), que traça um perfil dos grupos entre 2008 e 2011.

De acordo com a pesquisa, as organizações se enfraqueceram e passaram a atuar de forma mais discreta para evitar investigações, mas continuam a intimidar moradores, fiscalizar condutas e a impor violência e medo às comunidades.

No relatório de Justiça Global sobre as milícis do Rio, duas testemunhas ao fato são citadas:

“Na venda do imóvel você paga taxa. Tudo paga taxa.” (Entrevistado n. 1, liderança de organização de comunidades)

“Não, a minha casa eu pago o meu aluguel, o meu senhorio já cobra um pouquinho a mais que é pra tirar o deles.[…] Se você vender um imóvel lá você tem que dar um dinheiro pra eles, se você comprar também.” (Entrevistado n. 31, Gardênia Azul, Jacarepaguá)

Longe de ser um mercado livre, então, seria mais uma prova do bom e velho dito de Mao: «o poder econômico vem do cano de um fuzil.»

Dizem que a milícia está presente em 200 favelas cariocas, enquanto o numero oficiais de UPPs fica na 30 — mas ainda não houve mais que um ou dois casos de superposição, segundo eu leu.

Levando essas incertezas em mente, vamos ouvir o Guardian.

Vidigal, A Nova Copacabana

Desde o alto de Vidigal, a panorama de praias e ilhas remotas é uma das vistas mais espetaculares de Rio de Janeiro. Turistas, pórem, dificilmente achará o local na maioria dos guias.

Até recentemente a favela do morro estava dominada por gangues de narcotraficantes e assim era considerada fora dos limites entre as classes média locais e internacionais.

Mas a favela esta sendo transformada. A policia tomou controle sobre as ruas e o tráfico não determina mais quem entra no território, a por isso, o valor de aluguel já subiu tres vezes nos últimos três anos.

Compradores mais abastecidos estão tomando conta dos melhores terrenos, corretores pipocam em todo lugar, e cada vez mais forasteiros estão entrando.

O conflito mais notável agora não envolve traficantes rivais mas investidores européios brigando sobre um terreno.

Andreas Wielend, um engenheiro austríaco, comprou uma casa dilapidada em 2009 que tranformou em albergue e boate. Tem a fama de oferecer vistas deslumbrantes e noites de dança eletrónica , atraendo centenas de frequeses, que festejam até o nascer do sol.

A mudança é dramático, mais não necessariamente pelo melhor, diz Wielend.

“Quando chegamos aqui, houve 15 caras com metralhadoras pesadas morando ao lado. Estava como se fosse uma zona de guerra. Nao houve eletricidade nem água. Então, entrou a polícia e os preços de imóveis subiram … a clima esta mais relaxado quando você não estava sendo abordado o tempo todo por especuladores em imóveis.”

A vizinhança de Wielend de repente virou entre os bairros mais badalados do Rio. Alguns 100 m distante, um hotel está sendo construido, dito, segundo boatos, financiado por dois dos homens mais ricos da cidade.

Um advogado de São Paulo aproveitou o mercado e comprou três casas ao lado. Uma profusção de boatos se espalham de que o ator Brad Pitt e sua esposa Angelina Jolie comprou um terreno próximo abun.

Wielend pagou R$ 34 mil por seu imóvel 15 anos atrás. Agora relata ser recebido ofertas de R$ 1 million. Foi essa bolha nos preços de imóveis que levou a uma batalha jurídica entre o austríaco o banqueiro alemao que vendeu-lhe o terreno.

No ano passado, Wielend voltou de uma viajem e achou que o ex-dono tinha confiscada a casa, mundando os cadeados and negando que qualquer contrato de venda fosse assinado. Desde então Wielend conseguiu persuadir a policia que ele é o dono por direito do terreno, e entrou com processo contra o alemao.

Esse tipo de tensão não é limitado a este ponto da Vidigal, diz ele. “Hoje em dia, há monte de gente lutando pelo posse, inclusive entre integrantes da mesma família. Tira as operações paramilitares da polícia contra o tráfico e o que vemos é um processo de «gentrificação» — valorização desmedida — do mesmo tipo visto em cidades como New York, London, Berlin and Beijing.

Nicola Tadini, um pesquisador desse tipo de processo social e econômico, diz que ele traz uma benção mista para os moradores de Vidigal, a maioria dos quais vem de famílias pobres que migraram do Nordeste.

“Essa é uma mudança de longo termo. Mais a Copa e as Olimpíades estão pressionando o processo. As pessoas estão investindo. Moradores podem alugar seus quatros por mais que tres vezes o alugel cobrado faz três anos. As lojinhas de rua tem cada vez mais com turistas-fregueses. Alguns são vendendo suas casas aqui e comprando grandes terrenos nos seus estados nativos no Nordeste.

“Por enquanto, então, as pessoas estão satisfeitas com a situação porque assim ganham dinheiro. Mas a valorização vai mudar essa comunidade. Em vez de relações entre vizinhos, começa-se a valer relações dono-empregado.”

Entre os mil e tanto de favelas da cidade, Vidigal sempre chamava a atenção pela vista espectacular, sua long história e as grandes artistas que preferiam morrer lá. Mas tambem pode ser um indicador de o que poder acontecer com as outras 39 favelas já “pacificada” pelas autoridades or que passarão pelo processo antes de 2014.

O preço médio de uma casa no Rio subiu 165% nos últimos três anos,segundo o ONU. Valores aumentaram mais rápido onde narcotraficantes tem sidos já não dominam a comunidade. SecoviRio, uma associação de corretores de imoveis, o preço de terrenos subiram 50% após as primeiras três invasões pela polícia.

Essas mudanças se encontram ainda estão em um estágio inicial, e variam de uma favela para outra, assim como faz a reação de moradores locais aos policiais altamente armados que patrulham as ruas e becos estreitos entre as barracas.

A maioria dos habitantes entrevistados pelo Guardian se disse feliz com as melhoras em policiamento e serviços sociais, embora vários ainda temiam ser despojados da suas casas ou não poder mais pagar os alugueis em alto.

Rocinha – o mais povoado favela no Brasil, com pelo menos 70 mil habitantes – ainda fica longe de ser gentrificado.

Ainda assim, um corretor de imóveis, que não quis se identificar, diz que a mensalidade para uma casa de dois quartos dobrou no ano passado, aos R$ 900, porque mais forasteiros estão mudando à região.

Me lembra de quando eu morava num bairro polonês de Brooklyn que de repente «aqueceu» com a vinda de uma onda de artistas e empreendedores.

A filha da senhoria, meiga e de fala mansa, apareceu à minha porta para perguntar: O senhor poderia pagar um aluguel maior daqui adiante? Eu: Quanto maior? Resposta: Muito, mais muito!

Dobrou de noite por dia e eu acabeu morando no saudoso Fort Greene.

Autoridades tem planos ambiciosos para melhorar a vida nas favelas, mais suas prioridades tem sido polêmicas.

Rocinha hoje conta com uma biblioteca pública onde moradores podem emprestar livros ou assistir DVDS. Também tem um eco-parque, ainda sob construção, um campo de ténis inaugurado no ano passado, e uma ponte que leva ao centro de esporte projetado pelo falecido Oscar Niemeyer.

Mas nada tem sido feito para sanar o esgoto fedentino que escorre pelas ruas e transbordam cada vez que cai uma chuva pesada. A situações de educação e saúde pública também estão em situação calamitosa. Tuberculose e dengue andam soltos. A maioria de pessoas moram em barracos simples sem sequer abastecimento de água.

“A biblioteca e a ponte são muito legais, mas ainda deve-se perguntar se estes são o uso de recursos sociais quando vemos crianças jogando numa rua cheia de cocô e xixi,” diz Lea Rekou, coordenadora do projeto Green My Favela, grupo que trabalha com moradores pela transformação de um aterro sanitário em hortas comunitárias.

En vez de gentrificar esssa área antes da Copa e Olimpíades, segunda Lea, a mudança mais importante é uma mudança em atitudes.

“A pacificação abriu um espaço. Você não tem que ser tão cauteloso quanto antes. Fica mais fácil relaxar,” diz Lea. “Mas meu interesse principal é efetuar uma mudança no jeito da classe média enxergar os afavelados — que considerem que devem ser controlados e pesadamente reprimidos pela policia.